Música como Arte
A música, assim como as outras artes, é produzida a partir da emergência do compositor em um espaço liso, onde o artista mergulha meio a palavras e imagens já constituídas para a partir delas tecer o novo, a criação. Esta produção sonora também pode ser composta do encontro entre pessoas que possuam elementos comuns.
No entanto a arte de produzir música é confundida com uma produção industrial ou com sua radiodifusão. Sendo assim a música passa a ser apenas uma mercadoria. O problema não é no entanto vender a música afinal como diria João do Vale “Todos precisam viver”. Mas falsear uma produção musical para que esta tenha um elemento de alcance das massas sabendo que o afeto resultante desta composição só diminui e limita a potência de agir.
Música no Brasil
No Brasil, a produção musical foi engendrada a partir do encontro entre os sons trazidos pelos escravos da África; dos cantos e rituais ameríndios latino-americanos; música trazida pelos imigrantes (holandeses, portugueses, espanhois, alemães, etc). Desta miscigenação engendrou-se vários ritmos musicais e danças como samba, baião, xote, maracatu, frevo, lundu, tambor de criola, o fandango, chegança, bumba-meu-boi, reisado, ciranda, carimbo, maculelê, cateretê, siriri, etc. A maioria destas músicas e danças regionais permanecem vivas na existência e produção de muitos brasileiros. Porém passou muito tempo desconhecido.
Durante os anos 60, época que rolou a ditadura militar, o conceito de musica que era mostrado ao povo era afunilado pela censura militar. O que restava dela era muitas vezes musicas copiadas dos estilos americanos em voga na época. A bossa nova que se baseou principalmente no cool jazz; a jovem guarda na acefalidade do iê-iê-iê (inclusive copiando letras e melodias); a tropicália no rock and roll americano.
“O Jogral” e os Discos Marcus Pereira
Tendo este cenário musical como base e cansado da população não conhecer a produção brasileira de música, o músico Luis Carlos Paraná e Marcus Pereira decidiram fundar o bar “O Jogral” por volta de 1966.O bar foi muito mais do que um recanto de boêmios ou um espaço de trabalho em remunerado para os músicos, e sim “um mini-templo da cultura brasileira” . Lá tocaram artistas de renome como Luiz Gonzaga, Adoniran Barbosa, Zé Keti, Ismael Silva, Araci de Almeida, Clementina de Jesus, Lupicínio Rodrigues,Maysa, Duke Elligton, Sarah Vaughan, Oscar Peterson, etc além de consagrar alguns outros desconhecidos como Martinho da Vila, Paulo Vanzolini, Papete, Leo Karan, Jorge Ben Jor. Em 1967 quando o Jogral andava em vento em polpa, Marcus Pereira teve a idéia de gravar um disco para dar de brinde de final de ano de sua empresa de publicidade. Como não havia muita experiência e dinheiro o disco foi subsidiado pela Finasa (cliente da empresa de Marcus) e teve musicas de Paulo Vanzolini gravados por outros artistas, como Chico Buarque, Claudia Morena, Luis Carlos Paraná, Maurici Moura, etc .Este disco embora em tiragem limitada fez grande sucesso e repercutiu na mídia.
Em 1968, com a mesma idéia de produzir um disco brinde, o Jogral patrocinou um disco e usou como selo o próprio Jogral, que depois passaria ao acervo da Discos Marcus Pereira. O disco escolhido “ Brasil, flauta, cavaquinho e violão” foi concebido como um disco de choro e contou com um time de mestres: Manuel Gomes (flauta), Benedito Costa (cavaquinho), Adalto Santos e Geraldo Cunha (violão) e Fritz (pandeiro).
Com o tempo e o gosto pela música, Marcus Pereira deixou a profissão de publicitário pois queria se dedicar a música brasileira, que praticamente era inexistente no mercado fonográfico dominado pelo capitalismo avassalador das grandes companhias (multi) nacionais. Em 1973, Marcus Pereira com as dificuldades que estavam ocorrendo no Jogral após a morte de Luís Carlos Paraná e principalmente com a viúva de Carlos Paraná, Martha Paraná, Marcus Pereira decidiu comprar o Jogral e finalmente fundar a Discos Marcus Pereira. O jogral ficou a partir daí na direção de José Eduardo Costa.
Pelo que se tem registro a Discos Marcos Pereira produziu por volta de 144 discos . Dentre os artistas que passaram pelo selo a maioria nunca tinha gravado um disco, como no caso de Angenor de Oliveira, o Cartola, um dos fundadores da Mangueira e da cena do samba que trabalhava lavando carros ao ser chamados pra gravar seu primeiro LP aos 66 anos. Outros artistas que passaram pela gravarora foram Abel Ferreira, Altamiro Carrilho, Banda de Pífanos de Caruaru, Canhoto da Paraíba, Carlos Poyares, Carmem Costa, Cartola, Celso Machado, Chico Buarque, Chico Maranhão, Clementina de Jesus, Dercio Marques, Dona Ivone Lara, Donga, Elba Ramalho, Elomar, Evandro do Bandolim, Jane Duboc Luperce Miranda, Luis Carlos Paraná, Nara Leão, Noel Guarany, Orquestra Armorial, Papete, Paulo Marquez, Paulo Vanzolini, Quinteto Armorial, Quinteto Villa-Lobos, Renato Teixeira, Roberto Silva, Tia Amélia, Velha guarda da Portela, Walter Smetak e muitos outros.
Infelizmente devido as grave recessão econômica, Marcus teve que fazer um acordo com a Copacabana discos e mais adiante por problemas de dívidas no início dos anos 80, a o recanto da potência da música brasileira fechou suas portas assim como o Jogral também havia feito. O catálogo com todas as obras ironicamente acabaram na mão dos estrangeiros da gravadora EMI (talvez apodrecendo). Algumas coisas foram lançadas em cd pela alemã ABW. E Marcus Pereira não achando mais linhas de corte para superar suas dividas, desilusões e ver o país em uma crise político-econômica escolheu continuar seu trabalho por aí em outros mundos. Afinal como ele mesmo escreveu no seu livro “Música está chegando a vez do povo. 1. A história do Jogral” em 76: “nós estamos fazendo”.
A maioria das datas e informações foram retiradas do livro citado acima lançado pela editora Hucitec que é uma importante fonte de pesquisa e está esgotado. Mas ainda acha para comprar esta e outras obras de Marcus. Abaixo alguns links para baixar alguns da Discos Marcus Pereira. Pode divulgar também. Agradeço aos blogs pelo seu trabalhos com a música brasileira e pelos links Poerias e cantos, Som Barato, Raridades Marcus Pereira, Loronix. Clique no nome do albúm para baixar e descompacte usando o brazip ou winrar. Os arquivos que estiverem em torrent (apenas 3 dos discos) você precisa baixar o Utorrent para baixar. Vamos ainda colocar em post separado a coleção “Musica Popular do Brasil”.
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Noel Guarany- Alma garra e melodia Dolores Duran- Reconstituição com Orquestra e Coro em 16 canais |
Ari Barroso- Encontro com Ari Barroso
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Quinteto Armorial- Do Romance ao Galope nordestino
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Setembro 23, 2009 ás 8:17 pm |
Muito bacana esse seu post. Temos de divulgar, ao máximo, o trabalho do Marcus Pereira, que é ESPETACULAR! Vou baixar tudo o que eu ainda não tenho e ouvir com a calma que as obras merecem.
Abração,
300.
Setembro 24, 2009 ás 2:56 am |
Valeu 300
O teu trabalho de catalogação também é bacana.
Esta semana vamos ter mais uma do Marcus Pereira… Como diria Gonzaguinha, calma, muita calma a gente consegue o que quer… Marcus foi um destes que foi tecendo as linhas com sua potência e deixando alegria e coerência.
Abraços pereirantes
Setembro 29, 2009 ás 8:15 am |
[...] da indústria sonora tratar a música brasileira: com amor, paixão e ginga. Como já escrevemos neste blog esquizófico, a gravadora provem da vontade de Marcus compartilhar com o Brasil a música que sempre foi nossa, [...]
Outubro 2, 2009 ás 2:17 pm |
fenomenal!!! esquizofia, é belo ver respeito e consideração pela obra do guerreiro brasileiro que sempre será para nós (poucos, infelismente…) marcus pereira. daqui 30 anos, eu quero ainda estar rememorando e comentando sobre ele, e sobre os 2 artigos que você publicou aqui.
belo levantamento.
Outubro 14, 2009 ás 2:48 am |
muito booooooooooooooooooooooooooooooooom
Novembro 5, 2009 ás 3:43 am |
Valeu carlão e arthur…
Não se preocupa que sempre estaremos na divulgação da música brasileira como aumento da potência coletiva de agir…
Abraços e curta o Viva o Vinil