O Andarilho

Um andarilho vai pela noite
A passos largos;
Só curvo vale e longo desdém
São seus encargos.
A noite é linda –
Mas ele avança e não se detém.
Aonde vai seu caminho ainda?
Nem sabe bem.

Um passarinho canta na noite:
“Ai, minha ave, que me fizeste!
Que meu sentido e pé retiveste,
E escorres mágoa de coração
Tão docemente no meu ouvido,
Que ainda paro
E presto atenção? –
Por que me lanças teu chamariz?” –

A boa ave se cala e diz:
“Não, andarilho! Não é a ti, não,
Que chamo aqui
Com a canção –
Chamo uma fêmea de seu desdém –
Que importa isso, a ti também?
Sozinho, a noite não está linda –
Que importa a ti? Deves ainda
Seguir, andar,
E nunca, nunca, nunca parar!
Ficas ainda? –
O pobre, pobre homem da andança!”

Friedrich Nietzsche- (Dos Poemas, 1871-1888.)

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