UM CURSO DESEJANTE PARA VAN GOGH

Londres, janeiro de 1874

Angelus du Soir, MILLET

L’Angélus (Angelus du Soir, entre 1857 e 1859), Óleo sobre tela – Musée d’Orsay (Paris)

Sim, o quadro de Millet, Angelus du Soir, ‘é alguma coisa’, é magnífico, é pura poesia. Como eu gostaria de falar sobre arte contigo… só nos resta nos escrevermos bastante; ache belo tudo o que puder, a maioria das pessoas não acha belo o suficiente.”

Jean-François Millet. De acordo com Enerst Gombrich, Van Gogh, “vivamente impressionado pela arte de Millet e sua mensagem social, decidiu tornar-se pintor”. “Sim, o quadro de Millet, Angelus du Soir, ‘é alguma coisa’, é magnífico, é pura poesia”, escreve Van Gogh a seu irmão Théo.

Jean-François Millet nasceu em 4 de outubro de 1814 e pertencia a uma família de pequenos agricultores da vila de Gréville-Haugue, região da Normandia. Desde muito cedo, Millet despertou extraordinário interesse pelo desenho.

Chegando em Paris em 1838, então com 24 anos, logo se torna pupilo de Paul Delaroche. Seus estudos consistiam em estudar e copiar os grandes mestres expostos no Louvre. No início de sua carreira artística, Millet passou bastante dificuldade, pois trabalhava muito e vendia poucos quadros, até conseguir, em 1840, se apresentar no Salão de Paris. Neste evento conhece Constant Troyon e Théodore Rousseau. Até este momento, nos salões parisienses, uma ilustre obra de arte tinha que apresentar homens e feitos dignos, e as obras que representam trabalhadores rurais e a paisagem campestre não recebiam valor; pelo contrário, eram desprezadas.

No ano de 1848, em meio a uma Revolução e bastante insatisfeito com sua vida citadina, e agora mantendo frequente contato com Rousseau, Millet retoma seus trabalhos na qual o camponês e a vida rural se tornam o assunto nunca esquecido pelo pintor. Rousseau o convida então para uma mudança de ares e, com suas respectivas famílias, se mudam para o campo. Barbizon é o local escolhido, uma pequena vila localizada na região norte e central da França, próxima à Floresta de Fontainebleau. Lá os pintores fundam a Escola de Barbizon, na qual observavam a natureza com um olhar diferenciado, por demais atencioso. Millet lá viveu e morreu em 20 de janeiro de 1875.

Juntamente com Gustave Coubert, Millet é considerado um dos precursores ao que se denomina Realismo, na qual captura a intensidade da realidade e, assim como Coubert, privilegia a força existencial dos camponeses.

Ache belo tudo o que puder, a maioria das pessoas não acha belo o suficiente.”

Aos que estão atentos às datas das cartas de Van Gogh, a força do enunciado que repetimos mais de uma vez chama a atenção pelo fato do pintor está correndo ainda aos 21 anos, numa carta para o irmão ainda adolescente, que “se interessa pela arte”. Não poucos buscam aí detectar desde já o gênio em Vincent.

Não vemos como questão de idade, a não ser em um mundo mecanicizado à exaustão das burocracias existenciais de subsistência ou acúmulo de riqueza. Alguém já disse que a obra de arte inventa a si própria. É que ela é desmedida tal qual a natureza. Realizar essa segunda natureza, que é a obra de arte, como quer o Kant da Crítica do Juízo, é que é a questão artística: o Belo e o Sublime.

Kantianamente, primeiro é preciso separar o belo, do agradável e do bom. Para o filósofo de Konigsberg, o agradável está intrinsecamente em dependência aos sentidos e o bom está contiguamente associado a uma finalidade racional posterior. Ao contrário, o belo não repousa nestes interesses, é livre. Para Kant, essa capacidade de achar belo que Van Gogh reclama é inata, não havendo sequer a possibilidade de gradação dessa capacidade nos homens. Mas, se é livre só se dará a homens livres, aqueles que não estão fixados no olhar obnubilado nas mediocridades cotidianas, mas que sabem ver aquém e além de si.

Em sua, nossa A Filosofia Crítica de Kant, Deleuze observa como que três gêneses fundamentais da Crítica kantiana: “A partir do sublime, gênese do acordo entre razão-imaginação”, o que permite dar o salto e ver para além do constituído. Novas formas de percepções de novas imagens no mundo (percepto). E era assim para Van Gogh, e também assim para aquela pedinte de Manaus: “É preciso olhar com os olhos de ver.”

A partir do interesse ligado ao belo, gênese do acordo imaginação-entendimento em função do belo na natureza”, que permite ao olhar apreender/selecionar da potência desmedida (“caosmose”) da natureza uma fatia até então não percebida – ver o invisível -, mas sem delimitar ou anular esse desmedido como sensibilidade (eisthésis).

A partir do gênio, gênese do acordo imaginação-entendimento em função do belo na arte”. Para colocar um amigo de Van Gogh a partir da questão deleuziana de arte: quantas pessoas não viram uma pera, e Gauguin passou a vida inteira pra pintar uma pera? Aí reside a ideia estética: “uma presentificação intuitiva totalmente imanente à materialidade”, como diz Eleine Bourdette a partir de Kant. Chega o momento de dar a ver o invisível. Quando Van Gogh dirá: “Eu sou um pintor!”?

Dizíamos na primeira aula desse curso, que para Van Gogh não existia a palavra gênio, ao menos no seu sentido usual, como individualidade, a não ser, acrescentaríamos, como singularidade em intersubjetividade excepcional (Deleuze), estar no meio, atualizando um diálogo, uma criação. Enquanto era visto familiarmente apenas como o protótipo de um pastorzinho, Van Gogh convivia com Millet, Corot, Rembrandt, entre tantos, e a arte ia se fazendo nele.

O gênio é sempre um apelo lançado para o nascimento de outros gênios. Mas quantos desertos será preciso atravessar antes de um gênio responder a outro” (Deleuze).

Auto-retrato, MILLET

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Às sextas e terças, esta coluna traz obras digitalizadas de outros pintores que influenciaram o pintor monoauricular Van Gogh e obras suas, mas tão somente as que forem citadas nas Cartas a Théo, acompanhadas da data da carta que cita a obra, bem como as citações sobre ela e uma pequena biografia de seu autor. Para outros olhares neste curso, clique aqui.

Uma resposta to “UM CURSO DESEJANTE PARA VAN GOGH”

  1. UM CURSO DESEJANTE PARA VAN GOGH « Says:

    […] como, Jean-François Millet (1814-1875), Constant Troyon (1810- 1865), François-Louis Français (1814-1897), Théodore […]

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