UM CURSO DESEJANTE PARA VAN GOGH

Nuenen, Segunda 13 de abril de 1885   

  

Interior de um barco flamenco navegando no Lys (1883) , MELLERY 

 

 

 

  Interior de um barco flamenco navegando no Lys , Haia, Koninkliljke Bibliotheek

 
 

 

“…De Groux é um dos bons mestres do gênero de Millet. Mas se o grande público ainda não o reconheceu, e ainda não o reconhece, e se ele continua à sombra como Daumier, como Tasseart, ainda há, contudo, quem – Mellery, por exemplo, para citar apenas um – atualmente trabalhe de novo segundo sua própria sensibilidade.
 
Ultimamente, eu vi de Mellery, numa revista ilustrada, uma família de barqueiros na cabine de sua chalupa; o homem, a mulher e as crianças ao redor de uma mesa. No que diz respeito à simpátia geral que as pessoas possam ter por mim, li em Renan, há alguns anos, algo que nunca me saiu da lembrança e em que sempre continuarei a acreditar; quem quiser fazer algo de bom ou de útil não deve contar com a aprovação ou a apreciação geral, nem desejá-la, mas, ao contrário, não esperar simpátia ou ajuda senão de muitos poucos, de pouquissímos espíritos.”

Xavier Mellery viveu de 1845 a 1921, belga, nascido em Laken, é por muitos considerado o precussor do Simbolismo. Um dos motivos que confere a ele este fato são a série de desenhos, denominada L´âme des choses (The soul of things), iniciada por volta de 1880. Estes desenhos apreendem em si um insólito mistério que Mellery consegue atribuir a objetos e cenas do cotidiano. O desenho citado por Van Gogh, integrante dessa coleção, assume essas singelas perspectivas que um artista deve possuir ao por em prática sua experiência artística, sem hesitar. A residencia de Mellery, em Laken, próximo de Bruxelas, serviu de inspiração para uma atmosfera rica em claro-escuro de onde irradia uma quieta solidão.

A informação que Van Gogh nos dá acerca do fazer e do elaborar artístico é intensamente inspirador. O ato de criação é o momento na qual o artista controla todo um conjunto de forças dionisíacas por vontade própria, e não por obrigação ou imposição do outro. É nesse momento que arte que se apresenta, um momento de exaltação à beleza, um momento na qual não se está capturado pela moral, pela ordem. Segue um trecho de Nietzsche, para aqueles que sempre fazem ou escolhem fazer de sua vida a inerte continuação de um espírito pobre e decadente: “Aos que silenciam falta-lhes quase sempre finura e cortesia do coração; silenciar é uma objeção, engolir as coisas produz necessariamente mau caráter – estraga inclusive o estômago.”

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 Às sextas e terças, esta coluna traz obras digitalizadas de outros pintores que influenciaram o pintor monoauricular Van Gogh e obras suas, mas tão somente as que forem citadas nas Cartas a Théo, acompanhadas da data da carta que cita a obra, bem como as citações sobre ela e uma pequena biografia de seu autor. Para outros olhares neste curso, clique aqui.

 

 

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