Histórias das músicas brasileiras

Elza Soares é uma cantora de samba que transborda os estilos músicais cantando por hora funk, soul, rock e o que aparecer. De uma infância paupérrima, teve que se virar para viver e cantar foi apenas uma destas formas. Durante um tempo teve um impasse ir ao Estados Unidos para acompanhar Louis Armstrong, que ficara fascinado e estremecido com a voz e quebras de Elza, e o jogador da seleção Garrincha. E ela preferiu o amor de Garrincha.

Com uma vitalidade de sua juventude atual, Elza não está preocupada com o aprisionamento do tempo Chronos e vive uma vida sem idade, mantendo uma saúde impecável e um belo namorado. Elza é uma existência autêntica que não está preocupada em definições.

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Eu nasci em Padre Miguel, mas foi fui criada na Água Santa. (…) A favela da minha época, eu não sou de favela, favela, favela. Eu morei na Água Santa porque era uma pedreira que meu pai era trabalhador dessa pedreira e ali nesta pedreira cada um fazia seu barraquinho e meu pai construiu nosso barraco ali. Mas eu acho que favela é dignidade, favela tem dignidade também, é preciso olhar a favela com mais dignidade.  É preciso levar para essa gente o voto de postura, de atitude. Favela não é tudo isso que as pessoas classificam, acho que não.  Quer dizer, a gente não tinha tempo, não, porque minha mãe tinha 25 lavagens de roupa e a gente tinha que carregar água, tinha que fazer muito trabalho e estudar. Então, não tinha nem muito tempo, mas sabia da existência do samba, porque meu pai tocava um bom violão, já fazia o fundo de quintal em casa, sabia da existência boa do samba. (…)Eu acho que eu já nasci música. Eu acho que eu chorava cantando e meu pai era músico, tocava violão e tinha o maior prazer de dizer para as pessoas que tinha uma filha que cantava, isso quando eu era pequenininha. Quando eu levei o negócio a sério, meu pai disse: “Não, cantar não”. Mas eu nasci cantando, se eu não cantasse, eu morreria, eu já disse várias vezes “cantar ainda é remédio bom”, e cantando para não enlouquecer. Canto em casa, acho que em casa eu desafino, acho que não tem nada a ver. Agora já cantei em fábrica, quando trabalhava na fábrica de sabão, começava a cantar e era despedida dos empregos. Eu começava a cantar e era um desespero, né? Mas em casa eu acho que não, nada a ver, nem no chuveiro eu canto.

O Início(…. )Eu trabalhava na boate Texas Bar, fui levada pelo Moreira da Silva. Uma noite, eu estava cantando, passou uma mocinha dançando, eu tinha um medo louco, porque naquela época, se chegasse em casa tarde, tudo que você fazia fora de hora era como prostituição total. E tinha um aviso em casa: se chegar com uma barriga em casa, rua!  Eu não entendia nada, né?  E passava uma mocinha dançando assim perto de mim na boate Texas Bar, com dentinhos assim meio coelhinho. Falei: “Pô, eu tenho medo de homem e essa mulher me olhando, o que aconteceu na minha vida?” E ela disse assim: “Quando você acabar, você quer se sentar à mesa com a gente ali?”. Eu falei: “Olha, eu acho que a senhora  está muito enganada. Eu fui contratada para cantar, mas não para ir à mesa com ninguém”. E era Silvinha Teles. Eu passei a maior vergonha. Ela disse: “Mas meu nome é Silvinha Teles”. Eu disse: “Dona Silvinha, mas a senhora não disse nada”! Ela falou: “Mas você parece um bicho!” Me levaram para a Odeon e nessa noite ela tinha levado Aloísio de Oliveira. Já sabia, porque antes já tinham dito na gravadora RCA Victor da minha existência. Só que eles não queriam porque eu era negra. Disseram: “Que cor a menina tem?” “É negra.” “Então, a gente não quer”. O Darcy Louro que me contou essa história. Ele era o divulgador na época…

 

Eu estava no Chile, que eu fui como madrinha de seleção de 1962, que eu não sabia o que era ser madrinha da seleção. Fui levada por um grande empresário, que era o Edmundo Klinger, na época. E eu, cantando no Chile, estava cantando “Rei do mundo”: “Rei do mundo nunca sabe bem o que faz!”  E escuto um trompete fazendo aquelas variações, e as pessoas, os músicos estavam todos nervosos e diziam: “Olha para trás, olha para trás”. Eu olhei e vi um soweto, parecia um soweto. E aquele negão, se parece mesmo.  Lindo, né, aquele lenço. Eu falei: “Tá bom, aqui é a Elza Soares”. Quando eu terminei de cantar, ele pediu que me levasse ao camarim. E me levaram ao camarim dele, aquela coisa toda. E veio aquele negão. E ele dizia: “Yeeaaah!” Eu olhava… Que coisa é esta? Não entendia nada de inglês. E o negão lá: “Yeaaah!!! I’m doctor!” O que é isso? Ainda me traz aqui e me chama de doutora, pô! E ele: “Yeah, doctor”. Eu falei: “Por que está me chamando de doutora, cara? Você não viu que eu me chamo, Elza”?  E eu acho que o cara pensou que eu estivesse brincando. Ele disse: “Você não sabe o que quer dizer doctor”?  Falei: “Doctor, eu sei, é doutora”. E ele: “Não, daughter in English”, quer dizer filha”. Eu digo: “Não tem nada a ver, doutor!” Agora vai lá e faz um carinho no cara. Eu digo: “Começo por onde?” Parecia um armário, “faz um carinho no cara”! Eu digo: “Começo por onde, meu Deus do céu”! “Vai lá, faz um carinho nele e chama ele de “my father!”. Eu digo: “Não, aí não, agora pega”. “Como é que eu vou chegar perto do cara e dizer: “my father”?] Ele disse: “Mas você não sabe o que quer dizer isso”? Eu disse: “Lógico que eu sei o que quer dizer father, todo mundo sabe, só não vou chamar o cara para mim, pô”. Ele disse: “Não, vai e diz isso daí que ele vai gostar muito”! Falei: “Olha, que eu vou dizer agora, logo agora”. E cheguei perto dele e disse assim: “My… father!” E ele disse: “Yeeeaaahh!” E eu digo: “Ele gostou da coisa”, agora o que é que eu disse pra ele”? “Você chamou ele  de pai”. E eu disse: “É, tem a ver, father e filha!” Assim que eu conheci o Louis Armstrong. Foi uma paixão, que ele queria que eu fosse embora com ele, mas não tinha… Como na minha vida tudo começa torto mesmo, até foi escrito por pernas tortas a minha vida, até minha garganta, até minha corda vocal é torta, cara. Começa a cantar, ela começa a ficar meio que fora de linha né, e acontece isso aí, que eu faço tranqüilamente… e começo a falar novamente, foi isso que assustou Louis Armstrong, que eu faço normal e falo normalmente.

O  do Lupicínio também foi outra gafe, né?Eu cantava na boate Texas Bar e estava cantando e tinha uma pessoa sentada, assim, toda de branco, umas rosas, muitas rosas, e me olhando o tempo todo. Eu falei: “Ih, meu Deus do céu! Mais um que estava olhando!” E eu que tinha um medo louco, né, já tinha aquele aviso de casa… Aí, acho que ele não agüentou de tanto me olhar, e eu só olhava pro Lupicínio com uma cara muito feia. Ele disse: “Com licença, eu trago umas rosas para outra rosa!” Eu disse: “Olha, o senhor se enganou, não me chamo Rosa, detesto rosas, não gosto de rosas, por favor”… Ele disse: “Mas eu sei que você se chama Elza e eu sou Lupicínio Rodrigues e sou o autor de ‘Se acaso você chegasse’”. Aí eu: “Seu Lupicínio”!  Mas aí já não dava mais tempo, já tinha cometido a gafe! Não adiantou mais nada. Ary Barroso também foi outra, aí não foi gafe, aí foi uma humilhação mesmo, do Ary. Meu filho Carlinhos, que é o meu primeiro filho, estava muito doente, precisava ganhar uma grana para levar meu filho ao médico, precisava de dinheiro e a única maneira era cantando, porque não sabia como salvar meu filho. E tinha um programa de calouros que estava com a nota cinco acumulada. E eu fui no programa do Ary Barroso, fiz inscrição com o Samuel Rosemberg, que era às terças-feiras, e ele me disse o seguinte: “Domingo aqui todo mundo bonita”! Eu falei: “Pô, mas bonita como?” Não sabia como. Aí eu fui no programa do Ary Barroso no domingo, que era um programa de uma audiência tremenda, acho que tão grande quanto o Roda Viva aqui, né? Aí ele disse o seguinte…. Eu fiquei ali, era um banquinho, tinha um banco, ficava todo mundo sentado, parecia gado que já ia para ser detonado. E foi um dia de festa, cara, eu nunca tinha visto aquilo, eu sentada naquele banquinho ali esperando.  Cada um que levava um gongo, que era gongado, era uma festa, e eu morria de rir. Só que eu me esqueci que eu também fazia parte daquilo ali. Daqui a um bocadinho ele disse: “Elza Gomes da Conceição”! Eu disse: “Sou eu”. Aí eu me levantei, quando eu me levantei, aquele auditório veio a baixo, todo mundo rindo muito, porque eu estava com uma roupa de minha mãe, com uma porção de alfinetes, porque eu pesava trinta e poucos quilos,  e a minha mãe pesava um pouquinho mais de sessenta e poucos. Então para aquele pessoal eu era uma bruxinha, um ET, que estava entrando ali com duas maria-chiquinhas. O Ary Barroso ficou meio apavorado quando viu minha figura, ficou meio parado assim, perto do piano e disse: “Aproxime-se”. Aí, eu cheguei. Tinha um neguinho que rodava um pau, uma coisa assim, um pretinho que rodava um pau – a minha vida já tava perseguida pelo “pau grande”– que era para poder rodar o pau, que era pra alongar. Aí, eu já olhei, né, e o Ary Barroso rindo muito, todo mundo rindo, o Ary Barroso sério. Ele disse: “O que você veio fazer aqui”?  Eu disse: “Seu Ary, eu acho que aqui a gente canta, né”?  “E quem disse que você canta?”  Eu disse: “Eu canto”.  E antes que ele perguntasse o nome dos atores, eu disse o nome dos autores, que eu cantei em […?].  E ele disse: “Então me faz o favor e me diga de que planeta você veio”?  E aí aquilo ficou… meio magoada, né? Eu disse: “Do mesmo planeta seu, seu Ary”. Ele disse: “E qual é o meu planeta”?  Eu disse: “Planeta fome”.  E naquele momento quem estava rindo parou, botou a bundinha na cadeira, todo mundo quietinho, terminei de cantar, ele me abraçando e dizendo: “Senhoras e senhores, nesse exato momento nasce uma estrela”. E eu comecei a procurar estrela, como nasce uma estrela assim à toa, eu nunca tinha escutado dizer que nasce uma estrela assim. (…)Toda vez que eu entro no palco, eu me sinto o máximo, te juro. Porque eu acho que eu nasci para o palco. Eu sem o palco eu sou completamente nada, fora do palco eu me sinto… eu sou outra, sou a Conceição mesmo, né. Agora, quando eu entro no palco, me sinto linda, me sinto maravilhosa, eu me sinto a negra mais gostosa, me sinto a mulher mais sedutora.

Eu acho que a música é música, você tem o direito de ampliar. Se você tem capacidade de cantar, canta, por que você tem que ser rotulada só uma coisa?  Eu acho que o samba, na minha opinião, é a coisa mais linda que nós temos, é um poder, é rico, é maravilhoso, mas eu acho que neste momento ele é muito mal produzido. A gente, graças a Deus, que a gente tem o Zeca Pagodinho que está aí fazendo o que eu amo, tem o Jorge Aragão, que é meu afilhado. Mas eu acho que a força do rock, o samba tem a mesma força. Se a gente pudesse fazer a garotada trazer para nossa juventude o que é o samba, para que eles entendessem nossa cultura seria maravilhoso. Mas eu não me incomodo com isso, não, eu amo todo mundo, eles gostam de mim, eles sabem que eu sou assim mesmo e não vou mudar por isso.

‘ Entrevista ao Programa Roda Viva’

 

Elza que desde menina já cantava para enfrentar a vida

Elza nos anos 60 já era uma cantora de sucesso, e o governo a levou para cantar aos jogadores brasileiros na Copa de 1962, e ela acabou foi cantando o craque Garrincha.

Ela decidiu ficar com Garrincha e não aceitar a proposta de ir aos Estados Unidos para uma carreira e companhia internacional.

Elza deslancha no palco e solta a voz rouca que rasga o regaço dos reis da rudeza.

 

Elza e Lobão

 

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