UM CURSO DESEJANTE PARA VAN GOGH

Arles, 26 de agosto de 1888

 

Tarde de domingo na ilha de Grande Jatte ou “A Gamela” (1886), SEURAT


La Grande Jatte , Chicago,  The Art Institute of Chicago (The Helen Birch Colletion)

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Van Gogh comenta sobre suas novas obras sobre a natureza principalmente as pinturas dos girassóis. Em suas explanações recorda com Theo algumas exposições que ambos viram juntos. Acaba então discutindo aspectos do pontilhismo:

Quanto ao pontilhado, para aureolar ou outra coisa, acho isto uma verdadeira descoberta; mas já é de se prever que esta técnica, assim como qualquer outra, tornar-se-á um dogma universal. Razão a mais pela qual A Grande Gamela  de Seurat….

 

Georges-Pierre Seurat tem uma obra onde o sentimento da tristeza é marcante. É conhecido principalmente na difusão do pontilhismo e do movimento impressionista francês.

Nascido em Paris, em 2 dezembro de 1859, Seurat vivenciou uma infância triste e solitária, no entanto, demonstrava um interesse especial pelo desenho. Assim, em 1878, aos 19 anos de idade se inscreve na École des Beaux-Arts de Paris e se dedica obstinadamente aos estudos das técnicas do desenho, da pintura e às leituras de manuais que tratam da dimensão científica da arte. É nesse período que fica a conhecer os grandes mestres do realismo francês, e que por demais lhe agradam. Um ano depois deixa a École, para cumprir serviços militares na região de Brest, por lá fervilha em sua cabeça diversas idéias sobre métodos de cores para elaboração de suas pinturas. Lê avidamente escritos científicos sobre as misturas de cores e consome todas as inovações científicas que permeiam sua época. É dado saber que Seurat presencia o auge das ciências naturais.

Ao retornar a Paris a 1880 observa as críticas e demonstrações de rejeição às obras dos impressionistas Monet, Renoir e Sisley. Em Seurat essas obras têm o efeito contrário. Encantado com as telas de imagens dissolvidas ou “borradas”, Seurat rejeita de pronto a pintura ao ar livre e adentra em seu recluso atelier, da mesma forma como um cientista se enfurna em seu laboratório. A partir de 1882 observamos suas primeiras pinturas, estas, porém, ainda estão distante do que viria a ser o colossal trabalho de Seurat. A prática meticulosa e a tendência à cientificidade continuam presentes em seu cotidiano uma vez que se entrega às leituras de manuais físicos e químicos que discorrem sobre os efeitos ópticos, as misturas e às sensações das cores em temperaturas. Em 1884, com uma tela de 6 metros quadrados intitulada Cena de Banho em Asnières é possível compreender as questões de primeira necessidade da arte de Seurat: “Não há poesia no que faço. Eu apenas aplico meu método – e isso é tudo.” O interesse essencial do pintor são as problemáticas da luminosidade e a composição geométrica das figuras. E é com essa obra que se inicia a aplicação de seu grande estilo que, por sua vez, é mal recebida pela crítica e rejeita pelo famoso Salon parisiense. Sem grande êxito, Seurat retorna à sua habitual reclusão e trabalha incessantemente em esboços de árvores, relvas, figuras humanas. Estes estudos vão configurar a Tarde de domingo na ilha de Grande Jatte, um painel repleto de pontos-coloridos-acinzentados, geometricamente calculado com bordas rigidamente elaboradas “para evitar a falta de transição brusca de uma moldura de cor diferente”, segundo Seurat. Comentários como: “aquela salada egípcia”, “aquele monte de bonecos de pau” foram direcionados para este painel quando de sua exposição no Salão dos Independentes.

Pintores impressionistas como Edgar Degas e Edouard Manet não compõem com o estilo rígido e científico da obra de Seurat, virando-lhe as costas. Mas há porem Paul Signac e Camille Pisarro, pintores, e o crítico Fénéon que se empolgam com a Grande Jatte. Este último escreveu em prol de Seurat e batizou seu trabalho de neo-impressionismo e/ou pontilhismo. Seurat encontra-se profundamente abatido pelas críticas e pela desconsideração de Gauguin, pintor que muito estimava. Desanimado empreende uma viagem à Honfleur, cidade portuária no norte da França e se entrega à beleza do mar, que a ele representa a imutabilidade e a eternidade. Lá trabalha em aproximadamente seis quadros em que a natureza foi o tema central e chega à conclusão de que o pontilhismo é definitivamente o seu método.

De volta a Paris, em 1887, recebe um inesperado convite de um grupo de poetas belgas – Os vintistas – solicitando uma exposição sua em Bruxelas. O convite e as amizades de Signac e Fénéon cativam o espírito deprimente de Seurat. Mais animado, o pintor passa a freqüentar a boemia parisiense. Embrenha-se pelos café-concerts, cabarets e vai ao famoso Circo Fernando e, nestes ambientes esbarra, ora e outra com o ainda desconhecido Toulouse-Lautrec. O colorido amarelo-avermelhado da noite ocasiona uma leve virada na vela artística de Seurat. Ainda nestas noites a figura morena e dúbia de Madeleine Knobloch atravessa profundamente a pacata e desinteressante vida do pintor. O nu agora é interesse de Seurat que entre 1886 e 1887 apontam duas fases dessa nova temática: a primeira de pinceladas mais bruscas e num tom de azul dão a impressão de arabescos, mas são leves parecem soltos ao vento; a segunda é quente, de tons avermelhados e pontos menores, exalam um aroma levemente sensual. Essas duas fases serão importantes inspirações para os arabescos de Kandinsky e para o cubismo de Picasso.

A vida pessoal-familiar de Seurat entra em atrito quando da confirmação de seu relacionamento com Madeleine. Sua tradicional e respeitável família tem dificuldade em aceita-la, principalmente por ela apresentar hábitos vulgares. Por outro lado Seurat se motiva quando conhece o cientista Charles Henry, autor de um estudo no qual discorre sobre os efeitos psicológicos das cores e das linhas no homem. De acordo com Henry as linhas verticais são dinâmicas enquanto que as horizontais são apaziguadoras. E que as cores estimulam determinados sensações conforme o comprimento de suas ondas. Vermelho, amarelo e laranja promovem a alegria e azul, verde e roxo tranqüilizam e relaxam. De qualquer forma esses conhecimentos ainda não colaboram para seu sucesso como pintor. A tela La Parade é novamente recebida sob fortes críticas. A pintura tem como assunto uma festa noturna artificialmente iluminada e seu desafio, porém foi promover uma harmonia entre as cores de forma a direcionar a luz para as figuras do quadro. Contudo nessa obra a vida não tem vez, é extremamente mecânica e seus amigos, Pissarro, Signac e Fénéon se decepcionam. A rigidez e a técnica em excesso colocam uma outra questão sob a obra de Seurat: a ausência da idéia. É importante frisar que em Seurat a subjetividade do artista não é exposta, isto é, ele não se interessou por exprimir seus desejos em suas telas. Seu objetivo era compor a partir de meios científicos e promover no espectador uma relação entre percepção visual e efeitos psicológicos.

Profundamente abatido, os derradeiros trabalhos de Seurat apontam alguns elementos diferentes. Le Chabut de 1890 que apresenta uma cena de dança traz como elemento diferencial a caricatura. O insucesso do quadro e o desgaste da rotina familiar, agora com seus dois filhos, amargam a vida de Seurat. No retrato que pintou de Madeleine, também em 1890 é possível ver seu gosto “ordinário” tão repudiado pela família de Seurat. Algum tempo depois, Seurat alheio às dificuldades domésticas investe toda sua energia na pintura de O Circo, inspirado naquele Circo Fernando que também fora freqüentado por Toulouse-Lautrec, Renoir e Degas. Nessa tela, Seurat incluiu outro elemento novo, o movimento. Em seu esboço, marcou todas as linhas onde aquele estaria presente e, no entanto, acabou por se limitar no uso das cores: o vermelho, o amarelo e o azul. Acometido de um simples quadro gripal e com a tela ainda por finalizar, Seurat resolve expô-la no intuito de que seja vista e reconhecida pelo mestre Puvis de Chavannes. Ao longe Seurat observa a entrada de Chavannes no Salão, este para alguns instantes de fronte da obra e logo se vira com ar desinteressado. Seurat sente-se apunhalado. A gripe, que até então não oferecia nenhum risco, agrava-se repentinamente e, dias depois, Seurat sofre um súbito derrame cerebral que o leva morte. Georges Seurat ainda não havia completado 32 anos de idade e enterrou consigo o pontilhismo.

Retrato de Georges Seurat feito por Charles Maurin

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Às sextas e terças, esta coluna traz obras digitalizadas de outros pintores que influenciaram o pintor monoauricular Van Gogh e obras suas, mas tão somente as que forem citadas nas Cartas a Théo, acompanhadas da data da carta que cita a obra, bem como as citações sobre ela e uma pequena biografia de seu autor. Para outros olhares neste curso, clique aqui.

2 Respostas to “UM CURSO DESEJANTE PARA VAN GOGH”

  1. Anónimo Says:

    GOSTO E ESTOU APAIXONADA PELAS AS OBRAS DE GEORGES PIERRE SEURAT

  2. esquizofia Says:

    Valeu caro anonimo que tem nomes.
    Seurat foi um dos pintores dentro do grupo dos impressionistas. Os outros como Renoir, Monet e Degas já foram nomeados pela coluna… Falta só seu nome…
    Abraços esquizos

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