Tréplicas, Réplicas…

Começando esta nova coluna Tréplicas, Réplicas… este esquizoblog traz uma discussão deste processo replicante e im-produtivo que existe por aí…

Quando se tem uma idéia de algo, seja esta uma poesia, uma música, uma obra de arte, uma invenção, um livro logo concebemos esta idéia como nossa e nós sendo o único e legítimo autor. Pura ilusão. Deleuze e Guatarri mostram que não podemos ser autores pois se escrevemos algo já tomamos de base algo já constituido que são as palavras, se pintarmos as tintas e tomamos para nós. Para sermos autores deveriamos criar uma nova forma de fazer a arte: inventando uma nova língua, outro tipo de movimento e imagens cinematográficas, etc.

Mesmo quando estamos imersos em um processo criativo, escolhendo virtualmente os elementos para compormos a obra, não estamos ligados a nossa individualidade e por isso também não podemos ser autores. Apenas pegamos uma carona e se desfizemos no sopro dionisíaco.

“Nada se cria, tudo se trans-copia” parafraseando um quase literal Lavousier. Quando uma obra está pronta ela já é uma réplica de uma ideia que foi concebida no processo criativo. Portanto se alguém copia ou faz uma versão esta já será uma tréplica e assim por diante. Nós nunca estamos sozinhos pois carregamos memórias lembranças e um imaginário. Por isso os direitos autorais dançam mesmo e CC na cabeça.. Creative Commons.

E pra piorar a situação muitos tentam vender a abacaba dos direitos autorais como se fosse uma questão simples. Copiar não é necessário, o necessário é colar…

Por isso mesmo Tom Zé em seu disco “Defeito de Fabricação”  forjou uma estética do arrastão (baseado nos arrastões cariocas, que são uma pratica de varrer uma área roubando o que tem pela frente). Como há na música brasileira (e não só nesta) uma pobreza de melodias (muitas vezes treplicadas de músicas internacionais), letras ( traduções, tréplicas, piadas, etc) vemos isto presente. Mas mostraremos nesta nova coluna todos tipos de tréplicagem (no cinema, na pintura, na escultura…)

Mas nem tudo está perdido. Muitas vezes o ponto de partida forma algo interessante na confusão com a chegada. E pode quase se tornar um novo. Um exemplo é a técnica dos samples usados no Rap e no Hip-Hop.

Nada melhor que uma aula de Tom Zé sobre a tréplica de uma música…


O Rei da T-réplica: Tom Zé


“Tem uma música minha acusada de plágio que ganhou um festival dentro do programa da Hebe Camargo. A música era esta:

Passo a passo, braço a braço
Um sorriso, um silêncio
Sete horas, oito dias
Dezenove, vim te ver

Bom e a letra continua por aí e outro dia eu li no Jornal da Tarde alí no “Leitor Escreve”: a música do Tom Zé (esta música chama silêncio de nós dois)  ´Silêncio de Nós Dois´ é plágio do Garcia Lorca na página tal e qual…”. Menino foi uma confusão lá em casa corremos depressa no Garcia Lorca, pega o Garcia Lorca página cento e tal e não tinha nada a ver né. Mas eu disse assim: – Puxa fazer uma música que seja toda plágio é uma idéia que pode ser interessante e aí acabei fazendo uma música que foi toda plágio, a música  do festival seguinte era toda plágio e ganhou o festival também. Bom e o primeiro plágio é a harmonia que é do Estudo no 2 de Chopin que a harmonia é esta (toca…) que alías vocês já conhecem na música popular brasileira só que com uma batida um pouco diferente que é assim… É do estudo no 2 de Chopin:  “A insensatez que você fez, coração tão sem cuidado (Música Insensatez de Tom Jobim e Vinicius de Moraes)”.

A forma eu plageei Antônio Carlos e Jocafi que naquele tempo ditavam as regras do mercado. O esquema deles era o seguinte: uma lingua portuguesa mais ou menos confusam, uma sintaxe mais ou menos obscura da  língua portuguesa tinha que falar em dor de cotovelo… mostra o cotovelo aí… tinha que falar por que senão não valia e não precisava dizer nada bastava ter a palavra assim amor, dor. Então eu fiz uma coisa nestes mesmos termos:

Se o caso é chorar
te faço chorar
se o caso é sofrer
eu posso morrer de amor.

Vestir toda minha dor
no seu traje mais azul
restando aos meus olhos
o dilema de rir ou chorar.

Amor deixei sangrar meu peito …. (cópia dos Rolling Stones)
tanta dor, ninguém dá jeito.

Amor deixei sangrar meu jeito
pra tanta dor
ninguém tem peito.
Se o caso é chorar…

A segunda parte é toda colagem não tem uma só palavra minha vejam se vocês descobrem :

Hoje quem paga sou eu
o remorso talvez
as estrelas do céu
também refletem na cama
de noite na lama
no fundo do copo
rever os amigos
me acompanha
o meu violão.

Pra quem não decifrou todas eu ajudo:

Hoje quem paga sou eu…. Era um tango do Nelson Gonçalves que ele cantava todo dia por que naquele tempo sempre tinha alguém querendo pagar pra ele a bebida e em troca disto contar suas misérias. Um dia esta criatura Nelson Gonçalves, a mulher foge com o chofer de ônibus, a filha sai dando por aí, e hoje isto não é nada demais, mas enfim só pra vocês entenderem o drama dele naquela época e ele entrava no bar e dizia “Hoje quem paga sou eu”

o remorso talvez Aí é Lupicínio Rodrigues “O remorso talvez seja a causa do teu desespero”…


as estrelas do céu Aí vem uma inversão com a letra de Caetano

também refletem na cama...Inversão também de Caetano

de noite na lamaAgora Ary Barroso “Risque”


no fundo do copoAgora Adelino Moreira e Jair Amorim


rever os amigos
me acompanha
o meu violão. …. Nelson Gonçalves Boêmia

Transcrição do Ensaio com Tom Zé

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E pra celebrar esta nova coluna nada melhor do que entrar na onda da deixamos um link para um doc interessante que destrincha uma técnica cada vez mais conhecida nestes tempos: o sampling, que poderia ser resumidamente explicado como o “ato de usar um trecho de uma produção como parte de uma produção própria“. Uma técnica que tem origem no início dos anos 1960, nas experimentações caseiras de malucos como William Burroughs e Brion Gysin, e entra na década seguinte como um dos elementos centrais do hip-hop, de onde desde então costuma ser mais associado. Trata-se do doc. Copyright Criminals  (2009) que já tem a legenda em português por aí e pode ser baixado em HD via torrent


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Uma resposta to “Tréplicas, Réplicas…”

  1. A estética do plágio de Tom Zé « Baixa Cultura Says:

    […] Foletto, Marcelo De Franceschi] Crédito da foto: 1, 2, 3, 4.  Compartilhar post:TwitterFacebookEmailTumblrGostar disso:GostoSeja o primeiro a gostar […]

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