UM CURSO DESEJANTE PARA VAN GOGH

Saint-Rémy-de-Provence, 23 de maio de 1889
A abside da Catedral de Notre-Dame de Paris (1854) ,MÉRYON

L’abside de Notre-Dame de Paris (Água- Forte) , Washington D.C., National Gallery of Art
PARA UMA OUTRA VERSÃO DESTE MESMO TRABALHO, CLIQUE AQUI

Van Gogh está em Saint-Remy mais uma vez se tratando de sua loucura. Neste des-lo(u)camento, o pintor escreve sobre seus anseios, sua percepção da loucura e sobre outros artistas que entraram em um outro estado esquizo:

” Mas sem brincadeira, o medo da loucura diminue consideravelmente ao ver de perto as pessoas por ela afetadas, como eu facilmente poderia ficar a seguir.

Antigamente eu tinha repulsa por estes seres e me era muito desolador ter que pensar que muita gente de nossa profissão, Troyon, Marchal,  Méryon, (…), M.Maris, Monticelli, e muitos outros tinham acabado assim.

Eu não podia sequer imagina-los neste estado. Pois bem, atualmente penso em tudo isto sem receio, ou seja, não acho isso mais atroz do que se estas pessoas tivessem morrido de outra coisa, de tísica, ou de sífilis, por exemplo.

Estes artistas, vejo-os recuperando seu ar sereno, e você acha que é pouca coisa reencontrar ancestrais da profissão? E, sem brincadeira, fico muito agradecido por isto.”

Charles Méryon foi um desenhista e gravurista francês cujas águas-fortes romanticamente retrataram a vida e o humor dos meados do século XIX na capital francesa. Dentre os trabalhos estão desenhos da costa Neo Zelandesa que executou enquanto esteve na marinha francesa.  Ele subsequentemente empregou estes estudos para aprimorar os trabalhos em água-forte.

Nascido em 23 de Novembro de 1821  em Paris, sendo o filho ilegítimo de Narcisse Chaspoux, uma dançarina parisiense com um médico inglês Charles Lewis Méryon. Com a marinha viajou pelo mundo aprimorando sua técnica de desenho que desempenhava com maestria. Após seu tempo na marinha, ele recebeu uma pequena herança dos pais e começou a estudar pintura. Logo ele entrou para o atelier de Alexandre Bléry, que lhe ensinou a técnica aprimorada da água-forte, que, devido a progressivo acometimento do daltonismo (doença que impossibilita a percepção visual de algumas cores e que lentamente deixa as cores visualmente mais cinzentas), se tornou o meio no qual ele desempenhou mais seu talento. Ele ainda estudou com o pintor Charles François Phelippes.

 Ele sobreviveu fazendo trabalhos comissionados, e para praticar ele estudou os artistas de água-forte holandeses, como Zeeman (Reinier Nooms) e Adriaan van de Velde. Ele então começou as series “Água-fortes de Paris” executadas entre 1850 e 1854; embora Méryon sempre considerou estas pranchas como um conjunto, ele nunca as publicou como um. Além destas 22 obras, ele produziu pouco mais de 70 outras água-fortes.

Embora Méryon seja considerado hoje um grande mestre da gravura com água-forte, com sua originalidade e modernidade, ele foi apreciado apenas por poucos artistas e críticos. Suas gravuras eram vendidas por quase nada e sua vida se tornou um grande desapontamento e uma terrível desventura. Ele se sofreu de halucinações, além de paranóia ,e, logo após completer a série de Paris, ele foi colocado na Instituição mental Charenton em Saint-Maurice. Ocorreu uma recuperação parcial, mas ele retornou para o manicômio em 1867 e cometeu suicídio um ano depois no dia 13 de fevereiro de 1868 em Charenton.

A visão arquitetônica de Méryon é quase sempre visionária, e geramente suas imagens são incidentais, como aquelas dos pintores de paisagens. Mas as vezes como em “O Necrotério”, contam uma história, ou em “A rua dos garotos maus”, com as duas mulheres conversando secretamente e pelo menos sugerindo uma narrativa. “O Abside de Notre Dame”, considerado a obra prima de Méryon, caracterizou sua grande sensitividade com os efeitos de luz e atmosfera. Seus trabalhos com arquitetura são geralmente ligados ao estilo romântico.

Baudelaire admirava suas gravures de água-forte de Paris e escrevou sobre elas entusiasticamente. Walter Benjamin escreveu isto sobre esta relação:

“Meryon trouxe a antiga face da cidade sem abandoner o uso das pedras arredondadas ou feitas em blocos (cobblestone). Era esta visão da material que Baudelaire perseguiu incessantemente em sua idéia do modernismo. Ele foi um admirador apaixonado de Méryon. Os dois homens tinham uma afinidade eletiva entre si. Eles nasceram no mesmo ano e suas mortes foram apenas separados por alguns meses. Ambos morreram solitários e profundamente perturbados- Méryon como uma pessoa desatinada em Charenton, Baudelaire sem se comunicar em uma clínica privada. Ambos adquiriram uma fama tarida. Baudelaire era quase a única pessoa que defendeu Méryon em sua vida. Alguns dos seus trabalhos em prosa são uma ligação com Méryon. Seu tratamento do artista é uma homenagem ao modernism, mas também uma homenagem aos aspectos antigos de Méryon. Para Méryon, também, há uma interpenetração da antiguidade clássica e do modernismo, e nele a forma desta superimposição, da alegoria, aparecem definitivamente claras.”

 

Flameng Léopold- Retrato do gravurista Charles Méryon

Charles Méryon- Le Pont-au-Change, Paris (1855)

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Às sextas e terças, esta coluna traz obras digitalizadas de outros pintores que influenciaram o pintor monoauricular Van Gogh e obras suas, mas tão somente as que forem citadas nas Cartas a Théo, acompanhadas da data da carta que cita a obra, bem como as citações sobre ela e uma pequena biografia de seu autor. Para outros olhares neste curso, clique aqui.

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