UM CURSO DESEJANTE PARA VAN GOGH

Saint-Rémy-de-Provence, 25 de junho de 1889
O Boulevard des Italiens, manhã de sol (1897) , PISSARRO


Boulevard des Italiens, matin, soleil , Washington D.C., National Gallery of Art
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Van Gogh comenta de suas produções de pintura e liga com entendimentos de natureza:

“Para pintar a natureza aqui, como em qualquer lugar, é preciso estar nela por muito tempo. Dsta forma um Montenard não me dá o tom verdadeiro e íntimo, pois a luz é misteriosa e Monticelli e Delacroix sentiam isto.
E o Pissarro falava disto muito bem na época; e estou bem longe de consguir fazê-lo como ele diria que devia fazer.
Naturalmente você me dará um grande prazer enviando-me as cores, se possível logo; mas faça como puder sem que isto o incomede muito…”

Jacob-Abraham-Camille Pissarro ou somente Camille Pissaro foi um pintor e gravurista francês muito conhecido, sendo a figura principal do Impressionismo e um especialista em paisagens. Devido a característica naturalistas do movimento, suas pinturas foram influenciadas por Millet e Corot. Durante sua carreira experimentou muitos estilos, incluindo um período em que adotou o pontilhismo de George Seurat. Ele foi o único a mostrar seus trabalhos em todas as mostras do Impressionismo, sendo  um mentor e amigo de artistas influentes como Paul Gauguin e Paul Cézanne,sendo descrito como “Pai Pissarro”.

Nascido no dia 10 de julho de 1830 na cidade de St. Thomas (então uma posse dinamarquesa nas Indias Ocidentais), mas morou e trabalhou principalmente em Paris. Ele foi o terceiro filho de um mercante francês de descendência portuguesa. Sua família morou em cima da loja que lhes pertenciam na Rua Charlotte Amalie, a principal da cidade. Quando tinha 12 anos, seus pais lhe mandaram para uma escola em Passy, próximo de Paris. O jovem mostrou talento em desenho, e começou a visitar as coleções do Louvre.

Aos 17 anos retornou a St. Thomas, onde seu pai esperava que ele seguisse com os negócios da família. Mas o jovem Pissarro tinha mais interesse em rascunhar desenhos no porto, embora depois de encontrar o pintor dinamarquês Fritz Melbye, que estava de visita, aceitou viajar com ele para a Venezuela em Novembro de 1852. Posteriomente ele afirmou que nesta viagem “abandonou  tudo que tinha e partir para Caracas para estar livre do laço da vida burguesa”.  Em Caracas ele fez muitos desenhos da vida nas ruas. Em agosto de 1854 ele retorna a St. Thomas e desta vez sua família entendeu que nenhum argumento mudaria a determinação de ele ser pintor. Então ele deixou sua casa pela última vez e foi para Paris.

Ele chegou a tempo para ver a Exposição Universal de Paris, onde se sentiu muito atraído pelas pinturas de Jean-Baptiste-Camille Corot. Logo ele começou a atender aulas privadas na Escola de Belas Artes (École des Beaux-Arts) em 1856 e em 1861 foi registrado como copista (aquele que faz réplicas de obras de arte” do museu do Louvre. Ele também estudou no estúdio livre Academia Suiça (Académie Suisse), onde conheceu os futuros impressionistas Claude Monet, Paul Cézanne e Armand Guillaumin. Através de Monet foi apresentado à Pierre-Auguste Renoir e Alfred Sisley.

Ele começou a pintar cenas de sua cidade natal de memória, encontrando orientação de Anton Melbye, de quem inclusive foi chamado “Pupilo de A. Melbye” quando exibiu seu primeiro no Salão de Paris em 1859 (título que usaria ao menos até 1866).  Além disso ele também foi ensinado informalmente por Camille Corot, que o encorajou de pintar a partir da natureza, o que fez Pissarro incluir nas primeiras pinturas um caminho ou um rio recuado em perspectiva, além de figuras vistas de trás que dão no geral um senso de escala. Estes primeiros trabalhos são em tonalidades douradas e verdes que constratam com os cinzas de Corot.

Durante este tempo ele passou muito tempo em áreas rurais como Montmorency, La Roche-Guyon, e Pontoise,onde encontrou amplos temas de pinturas de paisagem. Por volta de 1860 ele começou uma amizada com Julie Vellay, a criada de sua mãe, com quem se apaixonou e teve o primeiro filho Lucien em 1863. Eles se casaram posteriormente em Londres em 1871 e tiveram 8 filhos ao todo.

Pissarro fica cada vez mais contrário aos padrões da Academia e Escola de Belas artes na década de 1860, e ocasionalmente participa de debates com jovens artistas como Monet e Renoir no Café Guérbois. Sendo dez anos mais velho que os outros, ele acaba tendo uma figura paterna, e seus argumentos ferozes sobre egualitarismo e as injustiças do sistema de júri e prêmios impressionou a todos. Emboras ele apresentou seus trabalhos no Salão de Paris, ele e seus colegas começaram a reconhecer cada vez mais a injustiça do sistema de júri do Salão, assim como as disvantagens relativas as pequenas pinturas como eles próprios tinham nas exibições do Salão.

As discussão artísticas foram interrompidas durante a Guerra Franco-Prussiana em 1870, o que fez Pissarro partir para Londres onde encontrou Monet e o negociante de atrte Paul Durand-Ruel. Na capital inglesa pintou cenas como The Cristal Palace, London, onde retratou os subúrbios emergentes da Revolução Industrial. Ele escreveu “Monet e eu estávamos muito entusiasmados nas paisagens londrinas. Monet trabalhou nos parques, enquanto eu morande em Lower Norwood, na época um subúrbio charmoso, estudei os efeitos das brumas, neve e primavera.”

De volta a França em sua casa em Louveciennes, ele descobriu que muito de seu atelier tinha sido destruído pelos soldados prussianos. Em 1872 de volta a Pontoise, se juntou a um pequeno numero de pintores incluindo Guillaumin e mais diretamente Cézanne, a quem Pissarro demonstrou seu método de pintar pacientemente a natureza. Estas lições causaram em Cézanne uma mudança em sua atuação artística, o que lhe fez afirmar posteriormente “ Quanto o velho Pissarro, ele foi um pai para mim, um homem para consultar e algo como um bom senhor.”

No início da década de 1870, Pissarro se dedicou a um grande negócio em conceber a criação como uma alternativa ao Salão, o que levou a várias discussões com artistas, que planejaram a idéia de uma sociedade com um alvará baseado na união dos padeiros locais e em janeiro de 1874 criaram uma cooperativa dos pintores. Em abril deste mesmo ano o grupo fez sua primeira exibição, a “1ª exibição impressionista” que ocorreu no estúdio de Felix Nadar em Paris, localizado no número 35 do Boulevard des Capucines. Cinco trabalhos de Pissarro foram exibidos junto com os de Monet, Renoir, Sisley, Cézanne, Edgar Degas, e Berthe Morisot. Estes artistas tinham um desejo de gravar o mundo moderno capturando os efeitos transitórios da luz e da cor e geralmente evitavam os modelos e composições tradicionais, se focando na textura, toom e cores luminosas. Os trabalhos desta fase de Pissarro além de ter estas características, também têm uma pincelada mais folgada e ausência de desenho, o que era característica dos outros artistas impressionistas.

Desapontado da reação do público quanto a primeira mostra impressionista escreveu ao crítico Théodore Duret: “Nossa exibição vai bem. É um sucesso. Os críticos nos destruíram e acusaram de não termos estudado; estou retornando ao meu trabalho, é melhor que ler as resenhas”

O artista vivia problemas financeiros, da carreira e ainda perdeu sua filha Jeanne pouco antes da exibição. Entretanto ele continuou certo que deveria manter as exposições do grupo independente. Depois de discutir no fórum “Union” com seus companheiros, foi decidido fazer a segunda exibição dos Impressionistas, feita em Abril 1876 na  de Durand-Ruel. Ele exibiu 12 pinturas que incluiam paisagens de inverno, primavera e verão. Porém os problemas financeiros e críticas continua.

Quando ocorreu a quarta mostra em 1879,  Renoir, Sisley, e Cézanne se retiraram e Monet esteve ausente no ano seguinte. Forçado a repensar o futuro das exibições do grupo, Pissarro escreve para Gustave Caillebotte:”Nós precisamos homens que talento- que estão nos desertando- nós também precisamos novas imagens… Se os melhores artistas se foram, o que se tornará nossa união artística”. Porém os receios de Pissarro aconteceram: a sexta e sétimas exibições mostraram muitas brechas entre os participantes, particularmente pois Degas trouxe muitos novos artistas que o “organizador” não fez objeção aos novos participantes, já que Degas trouxe bons pintores como Mlle Mary Cassatt, Jean-Louis Forain, Gustave Caillebotte.

Mesmo com todos problemas Pissarro se recusou a retornar ao Salão e continuou como mentor, trabalhando com jovens ostensivos como Paul Gauguin e aprofundando amizades com Degas e Cassatt, com quem bolou o projeto do jornal “Le Jour et La nuit” que não chegou a ser produzido.

O colapso da economia francesa na década de 1880 fez com que Pissarro tivesse cada vez mais dificuldade de vender sua arte, e com a direção incerta que a arte estava seguindo ele teve que usar uma pincelada menor e mais sutil, tentando dar uma idéia maior de estrutura.

Em 1884 o pintor se muda para Pontoise para um pequeno povoado de Eragny, no Rio Epte. O ano seguinte encontra os jovens artistas Georges Seurat e Paul Signac e se converte a seu novo estilo de pintura em pontilhismo, o Neo-Impressionismo. Assim ele passa a aplicar tinta a tela em pontos de pigmentos contrastantes, que a retina percebe como uma única matiz. A última mostra do Impressionismo exibiu em 1886 a falta de harmonia dos artistas remanescentes, como o trabalhos dos Neo-Impressionistas que foram mostrados em separado. Mesmo assim Monet e Renoir estavam ausentes. Sobrou mais espaço para Seurat exibir sua “Grande Gamela “(La Grande Jatte) que foi uma sensação junto com os trabalhos neo-impressionistas de Pissarro que segundo os críticos eram muito semelhantes aos de Seurat.

Porém a atração do neo-impressionismo em Pissarro foi curta, e em 1889 ele começa a distanciar do estilo, acreditando que era “ impossivel ser verdadeiro para minhas sensações e consequentemente reproduzir vida e movimento”. Neste momento, a condição artística no mundo já via mudado e o grupo impressionista foi essencial para a mundança, já que haviam novas galerias fora das academias que mostravam os artistas de vanguarda e até mesmo sem rachaduras estilistas entre os pintores, como ocorreu no Impressionismo.

Na década de 1890, Pissarro acreditava que enfim entendera como alcançar a unidade na pintura que ele perseguiu em toda sua carreira. Ele escreveu sobre a gênese da descoberta a sua sobrinha Esther Isaacson: “ Eu começo a entender minhas sensações e saber o que era que eu queria fazer quando em tinha 40 anos- mas vagamente.” Outros também reconheceram o desenvolvimento de seu trabalho como os críticos Georges Bernheim e Durand-Ruel. Este último fez uma larga e bem sucedida retrospectiva dos trabalhos de Picasso e pela primeira vez o artista adquiriu estabilidade financeira.

Assim Pissarro retomou diversas series de pinturas de vistas de Paris, a primeira da vista oposta do hotel para a Estação Saint-Lazare, pintando posteriormente a Catedral Rouen e o porto Le Havre pintando várias telas simultaneamente (assim como Monet).

Seus últimos trabalhos são mais livres e sem grande ligação com o estilos (neo-) Impressionistas, pois embora continuasse buscando as impressões da luz e cor, mas com o acréscimo de criar mais de uma pintura de cada cena e explorar e alcança os efeitos mutantes da luz e do clima em sua extensão máxima. Ele encontrou a unidade que tinha tanto buscado criando uma harmonia de cores e tons e aplicando pinceladas consistentes na superfície inteira da tela.

Morreu no dia 13 de novembro de 1903 em Paris. Ele fez a ponte entre os séculos XIX e XX e apesar de sua natureza humilde, o legado de Pissarro- seu interesse constante na mudança, sua influência em pintores como Cézanne e Gauguin e sua firme oposição ao estabelecimento artístico- moldaram vigorosamente o desenvolvimento das vanguardas européias do século XX.

Além disso com o novo século os trabalhos impressionistas se tornaram objetos cobiçados dos ricos, entrando para coleção pública e mostrando aos críticos e juristas da academia que eles haviam escarnecido e falharam em seus juízos. A luta dos impressionistas tornou-se uma valiosa lenda para todos os inovadores em arte, que agora podiam apontar esse notório fracasso geral em reconhecer e aceitar novos métodos.

Auto-Retrato de Camille Pissarro (1898)

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Às sextas e terças, esta coluna traz obras digitalizadas de outros pintores que influenciaram o pintor monoauricular Van Gogh e obras suas, mas tão somente as que forem citadas nas Cartas a Théo, acompanhadas da data da carta que cita a obra, bem como as citações sobre ela e uma pequena biografia de seu autor. Para outros olhares neste curso, clique aqui.

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