O cinema esquizomovente-afetivo do inglês Ken Russell

Depois da explosão do cinema de Alfred Hitchcock, o cinema inglês não era engendrado como uma produção artística que trouxesse novas imagens. Porém a partir de 1960 uma série de jovens realizadores novos começaram a produzir um cinema movente, engajado e provocante. Dentre os jovens cineastas estavam Karel Reisz, Tony Richardson, Ken Loach, Desmond Davis e Ken Russell. Grande parte deles vinham de trabalhos na televisão onde conseguiram modificar o tipo de programação e preparar o público para um novo cinema que logo criando um novo cinema inglês.

KEN RUSSELL E O CINEMA CORTANTE

Ken Russell, que no dia de ontem encerrou seus trabalhos de sua existência, foi um diretor inglês cujo os cinemas são profundos cortes nas imagens já constituidas, e por isso seu trabalho foi adjetivado de polêmico,  controverso, impactante. Porém o cinema de Russell abre a objetiva para que a vida passe como novas imagens.  Seus cinemas cria um espaço de discussão de temas  como a produção da loucura, a repressão sexual,  o moralismo,   que a própria sociedade  re-produz, mas não discute e nem assume sua responsabilidade na manutenção destes.

Antes de trabalhar com cinema, Ken Russell foi dançarino, fotografo e até soldado, porém sua vontade de criar imagens novas e singulares foi maior. Ele começou sua carreira com curtas, mas durante dez anos trabalhou para a televisão produzindo e dirigindo documentários, cinemas e séries. Destas experiências entre 1956 e 1966 surgiram documentários como “O poeta de Londres” (1959) sobre John Betjeman; um sobre o mestre da arquitetura “Antonio Gaudi” (1961); um documentário sobre a fantastica dançarina “Isadora Duncan, a maior dançarina do mundo”(1966) e ainda diversos filmes para a série de TV Monitor onde produziu “The Debussy Film” sobre o compositor Claude Debussy, “Bartok” sobre o músico hungaro Bela Bartok, “Elgar” sobre o compositor clássico Edward Elgar, “The Scottish Painters” sobre a pintura escocesa de Robert MacBryde e Robert Colquhoun.

Seu primeiro sucesso veio com Mulheres Apaixonadas/Women in love (1969) um drama premiado que conta a história de dois amigos que se apaixonam por duas irmãs, e trabalha nas concepções sexuais e formas de relacionamentos deles. O sucesso deste cinema foi seguido de documentários de televisão da série de TV Omnibus como “A canção de Frederick Delius” sobre o compositor inglês. Logo vem novos sucessos como “Delírios de amor” (1970) que trata sobre o homosexualismo do pianista Tchaikovsky e uma de suas obras primas “The Devils” (1971) que causou um furor dos conservadores por tratar da repressão sexual feita pela igreja e dentro da igreja. Tamanha foi a polêmica que ele teve que passar um tempo sem dirigir seus projetos e voltar a filmes menos experimentais e a trabalhos com ópera.

Porém a explosão artística estava de volta em 1972 com a direção de “Messias Selvagem” sobre a vida tumultuada do escultor Henri Gaudier-Brzeska e seguiu com “Mahler” e “Liztmania” ambos com um enredo nada linear da vidas dos compositores Gustav Mahler e Franz Lizt. Sua experimentação segue na opera-rock “Tommy” (1975), mas ganha força total com “Viagens Alucinantes” (1980) que trabalha a questão dos estados alterados da consciência através de alucinógenos desenvolvidos pela ciência, e que acaba desrealizando o mundo já constituido pela moral religiosa, e o modelo de estado.

Com a repercussão de Viagens Alucinantes, Russell continuou seu itinerario criativo com o documentário The Planets (1983) sobre o compositor Gustav Holst, o suspense ” Crimes da Paixão” (1984)  e a terrorificante história do terror em “Gothic” (1986). Em 1987 participa do cinema coletivo com histórias orquestradas “Aria” que contou também com participação de Robert Altman, Derek Jarman, Jean-Luc Godard, Nicolas Roeg e e outros.

Sua última obra-prima é “The Rainbow- O Despertar de Uma Mulher Apaixonada” (1989) que mostra uma jovem na puberdade que está se tornando adulta e tem de lidar com sua sexualidade e paixão. Na década de 1990 e 2000 ele ainda dirigiu poucos cinemas como ” A prostituta”, “Dog Boys” e “The Fall of the Louse of Usher: A Gothic Tale for the 21st Century” se focando mais em séries e videos para a tv. Seu último trabalho é a participação do coletivo “Armadilha do Terror” (2006) que não teve grande repercussão.

Sua vida é bastante misturada com seu cinema. Ele se casou com Shirley Russell, uma designer de roupas para cinema (que trabalhou em vários de seus filmes),  no início de sua carreira e com ela teve seus únicos cinco filhos. Depois se divorciou em 1978 e casou mais três vezes. Agora, longe de sua existência mundana, ele deve estar envolvido em alguma experimentação côsmica.

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