Ademilde Fonseca foi responsável pela maior popularização do choro

Por: Guilherme Bryan, especial para a Rede Brasil Atual.

Uma das últimas imagens públicas da cantora Ademilde Fonseca é no excelente DVD “Sexo MPB O Show”, que registra a edição de 2010 da entrega do troféu de mesmo nome, organizado pelo pesquisador musical, produtor e jornalista Rodrigo Faour. Naquela noite, ela foi a grande homenageada e, assim, glorificada pelos colegas deve ser sempre lembrada. Afinal, poucas cantoras fizeram tanto pela música brasileira, a ponto de ficar conhecida como “rainha do choro”.

“O choro de agora em diante volta a ser apenas solado, porque ninguém mais conseguirá cantar suas melodias sinuosas, com a velocidade, a graça e a afinação de Ademilde, que um dia, informalmente durante uma festa na casa de Benedito Lacerda, sacou do bolso uma letra que conseguira do velho choro “Tico-tico no Fubá”, e mostrou ao flautista. Ele, extasiado, tratou de encaminhá-la à gravadora Columbia (depois Continental). Isso foi em 1942. Com isso, sem saber, estava criando um gênero: o choro cantado”, conta Faour.

Ademilde Fonseca trabalhou por mais de dez anos na rádio Tupi e gravou centenas de discos, dos quais vendeu mais de meio milhão de cópias, numa época em que atingir esses números era algo tremendamente difícil. A interpretação dela para “Brasileirinho”, de Waldir Azevedo, e “Tico-Tico no Fubá”, de Zequinha de Abreu, é inigualável e marcou uma virada na música brasileira, quando o choro deixou de ser basicamente instrumental e passou a ser também cantado. Outros clássicos indispensáveis em seu repertório foram “Urubu Malandro”, “Galo Garnizé”, “Pedacinhos do Céu” e “Na Baixa do Sapateiro”, entre tantos outros.

“Ela simplesmente teve a honra de lançar alguns clássicos da música brasileira com letra, caso de ‘Apanhei-te cavaquinho’, ‘O que vier eu traço’ e ‘Brasileirinho’ – pérolas imortais. E ainda ‘Pedacinhos do céu’ e o baião ‘Delicado’, de Waldir Azevedo, que correu o mundo. Também lançou ‘Teco-teco’, depois regravada por Gal Costa. E um sem-número de maravilhas que estarão no CD duplo da série ‘Super Divas’, que pretendo lançar via EMI Music até o meio do ano. Infelizmente, ela não ficou viva para ver este disco, mas pelo menos me ajudou a concretizá-lo, me ajudando a localizar fonogramas raros e tecendo comentários faixa a faixa sobre suas 36 faixas. Como se não bastasse, tinha uma cabeça maravilhosa. Numa das minhas festas, disse que era preciso respeitar os artistas jovens, porque ‘até esses meninos que fazem funk, se você for ver tem uma dificuldade. Se você quiser fazer aquilo, não vai conseguir’. Ou seja, não tinha um pingo de recalque”, acrescenta Faour.

Ademilde Fonseca tinha 91 anos e sofria de problemas cardíacos. De acordo com a neta, Ana Cristina, ela teve um mal súbito e morreu em casa, no Rio de Janeiro, na noite de terça-feira, 27 de março. Nascida no Rio Grande do Norte (RN), ela deixa uma filha, a cantora Eimar Fonseca, três netas e quatro bisnetos. Seu último registro em disco foi no CD da jovem cantora Anna Bello, produzido pelo músico Edu Krieger.

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