ENTREVISTA HISTÓRICA COM O TEATRÓLOGO VANGUARDISTA JOSÉ CELSO MARTINEZ NO AUGE DA DITADURA

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No ano de 1968, a Revista Civilização Brasileira publicou três cadernos especiais. O de número dois causou um profundo contágio-político nos leitores, porque se tratava do Teatro e a Realidade Brasileira, já que o teatro é a arte mais expressiva da condição política do homem. Não é por acaso que as sociedades que alcançaram grande dimensão histórica tiveram uma sublime existência teatral. Não é por acaso, também, que nas ditaduras a primeira arte que sente o tacão destruidor das tiranias é o teatro. É por isso, que o teatro, junto com a filosofia, são os discursos mais perseguidos pelas ditaduras. Mas, também, são os discursos que mais rapidez tem de recuperação no contexto da liberdade.

O CORPO-POLÍTICO DOS ENGAJADOS

O caderno Teatro e Realidade Brasileira, é de uma riqueza ímpar – ou par, como queiram -, porque seus conteúdos são compostos por eminentes, talentosos, inquietos, engajados e irrepreensíveis personagens. Augusto Boal, Fernando Peixoto, Luiz Mendonça, Tite lemos, Nelson Werneck Sodré, Anatol Rosenfeld, Dias Gomes Paulo Pontes, Maria Helena Küner, Luiz Carlos Maciel, Hermílio Borba Filho, José Celso Martines Correa, Joracy Camargo, Oduvaldo Viana Filho, Abidias do Nascimento, é de uma loucura estética revolucionária.

Daí que no meio dessa loucura estética revolucionaria se movimenta como um cometa transformador a entrevista histórica que Tite de Lemos fez com o teatrólogo vanguardista José Celso Martinez Correa, criador do escrachado Teatro Oficina, com provocou o título, A Guinada de José Celso. Zé analisa todo os sistema burguês que infecta a cultura, faz referências sobre o teataro do alemão Brecht, e de suas montagens, principalmente o Rei da Vela.

OS ESQUIZOS NOS 50 ANOS

Como estamos no mês e ano de lembrança-triste – cultuamos o sofrimento? – dos 50 anos da imposição cruel da “gloriosa”, este Blog Esquizofia da Associação Filosofia Itinerante (Afin) que é comprometido com as artes, decidiu publicar em quatro partes a histórica entrevista ocorrida no mês de julho de 1968, o ano em que o “pau torou” com a implantação do Ato Institucional N° 5. O tenebroso AI5 que fechou os territórios que expressavam liberdade democrática.

A ENTREVISTA – “A GUINADA DE JOSÉ CELSO”

TITE LEMOS – Neste contexto politico, Brasil 68, que eficácia tem o teatro?
JOSÉ CELSO – Depois de ajudar a mistificar a boa consciência burguesa, antes e imediatamente após o golpe, qual poderia ser a eficácia política do teatro hoje? O que poderia atuar politicamente sobre a plateia dos teatros progressistas, vindo majoritariamente da pequena burguesia em lenta ascensão ou da camada da “alta-burguesia” da classe estudantil? O que vai exatamente procurar este público que dentro de uma certa instabilidade de opções vai aos pouco se beneficiando das raras e magras possibilidade que o subdesenvolvimento brasileiro oferece? No teatro, e no caso de toda cultura, este público em geral tem procurado consumir uma justificativa de mediocridade de soluções que seu status oferece, enquanto participação na vida nacional.

Esta justificativa ideológica tem girado em torno de um maniqueísmo que o colocou como vítima, emocionada ou gozadora, das pedras do seu caminho. Isto é: os militares, os americanos, ou burgueses reacionários. Estas figuras então impedindo sua realização e participação mais profunda no processo brasileiro e ao teatro se vai para rir ou chorar por causa delas. “Nós somos o bem e nada temos com isso”. Ou então esta justificativa partirá para o historicismo. “esta situação medíocre de hoje é um momento de um processo”.

Nós somos os termos de uma contradição, mas como canta Vinicius de Moraes, um dia virá “e eu nem quero saber o que este dia vai ser até o sol raiar”. E vamos esperar por esse dia. Ou então essa ideologia pode ainda se beneficiar com a imagem mística do homem brasileiro “sempre de pé”, “o sertanejo antes de tudo é um forte”, o “carcará que pega mata e come”. E não se dá uma transformação social. Este é o público mais progressista. E não me refiro ao outro. O que economicamente decide o teatro em São Paulo: província do TBC, a burra e provinciana burguesia paulista que ainda quer que o teatro lhe forneça a ilusão de que ela é uma grande burguesia.

Esta classe, que tem em Primo Carbonari seu mais fiel retratista, ainda espera que a mistifiquem criando subliteratos e dignas Antígones, ou fresquíssimas mulheres de branco ao lado de homens de smokings, assexuados e belas vozes empostadas, tomando chá ou guaraná nas garrafas de uísque estrangeiro e soltando leves plumas falando o que esta burguesia julga ser o “bom-gosto”. Vamos falar do melhor público até agora. O público que procura pelo menos uma ideologia na cultura e não simplesmente uma badalação.

Entretanto, hoje com o fim dos mitos das burguesias progressistas e das alianças mágicas e invisíveis entre operários e burguesia, este público mais avançado não está mais muito longe do outro. Ele faz um bloco único ainda na mesma expectativa de uma mistificação (em níveis diferentes, não importa). E tomado no conjunto – a única possibilidade de eficácia política que pode sofrer será a da desmistificação – a da destruição de suas defesas, de suas justificativas maniqueístas, historicistas (mesmo apoiadas nos Gramscis e nos Lukács). É a sua reposição no seu devido lugar. No seu marco zero. Esta plateia representa a ala mais privilegiada deste país, ala que vem se beneficiando ainda que mediocremente de toda falta de história e da estagnação deste gigante adormecido.

O teatro tem hoje a necessidade de desmitificar, colocar este público no seu estado original, cara a cara com sua miséria, a miséria de seu pequeno privilégio feito às custas de tantas concessões, de tantos oportunismos, de tanta castração e recalque e de toda a miséria de um povo. O importante é colocar este público em termos de nudez absoluta, sem defesa, incitá-lo à iniciativa, à criação de um caminho novo, inédito, fora de todos os oportunismos até então estabelecidos – batizados ou não como marxistas.

A eficácia política que se pode esperar do teatro para este setor que ele atende – para a pequena burguesia – é a eficácia de ajudar a estabelecer em cada um a necessidade de iniciativa individual – a iniciativa de cada um começar a atirar sua pedra contra o absurdo brasileiro. O importante é mostrar que o de brasileiro não é quebrar seu próprio galho e depois apelar para os Garaudys. Mas, sim, começar a mandar sua pedra contra este absurdo que é a vida cotidiana deste país (continua na próxima)…

 

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