ENTREVISTA HISTÓRICA COM JOSÉ CELSO EM PLENA A DITADURA PARTE II

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Conforme o combinado, esse Blog Esquizofia publica hoje a segunda parte da entrevista histórica com José Celso Martinez Correa feita por Tite de Lemos para o segundo número especial da Revista Civilização Brasileira, Teatro e Realidade Brasileira publicada em julho de 1968.

José Celso, o vanguardista-eterno, apropria-se da realidade da época e dialetiza a conjuntara dominante expressa pela consciência burguesa reacionária e insensível. E de quebra analisa o teatro se referindo ao teatrólogo alemão Brecht, além de mostrar suas realizações teatrais como a encenação do Rei da Vela de Oswald de Andrade.

A ENTREVISTA – “A GUINADA DE ZÉ CELSO”

JOSÉ CELSO – Depois de tudo, o teatro como o único lugar fora das comunicações de massa, sem os entraves dos produtores e sem a necessidade de encarar o espectador como simples cifra de consumo tem que se encaminhar no sentido de despertar a inciativa individual Isto pode ser escoteiro, mas é a única condição para um país onde tudo tem que ser inventado, criado, onde o fator de castração pessoal em função de ortodoxias políticas importadas e atitudes que somente revelam um supercomodismo e a absoluta falta de criatividade, tem sido a nota mais importante.

O teatro não pode ser um instrumento de educação popular, de transformação de mentalidade na base do bom meninismo. A única possibilidade é exatamente pela deseducação, provocar o espectador, provocar sua inteligência recalcada, seu sentido de beleza atrofiado, seu sentido de ação protegido por mil e um esquemas teóricos abstratos e que somente levam a ineficácia. Num momento de desmistificação o importante é a procura de caminhos a ações novas. Neste momento portanto, o sentido da inovação da descoberta, do rompimento com o passado no campo do teatro deve ecoar, ser o reflexo e ao mesmo tempo refletir todo um esquema de projetos e de conscientização de nossa realidade.

Talvez muito mais importante do que uma peça bem pensante ultra bem conceituada, cheia de verdades estabelecidas (que ainda não são verdades, nem podem ser, num momento como este de perplexidade), uma peça inventiva e confusa, que excite o sentido estético, seja mais eficaz politicamente.

Este é um momento de invenção de uma saída para uma situação nacional insustentável. Esta sápida terá que ser encontrada dentro de um contexto de um mundo já distante dos bons anos pacíficos do após-guerra. Hoje, no mundo da terceira guerra mundial, na violência que acaba com todos estes conceitos bonzinhos, no momento em que eclode o fenômeno de guerras e das revoluções quase impossíveis no Vietnã e na própria América Latina, fenômenos onde o fator invenção, criação é fundamental, a eficácia do teatro tem que estar ligada à existência deste mundo de violência, a tão grande distância dos caminhos de transformismo, do reformismo, da educação das massas e tudo o mais.

Uma peça como Galileu Galilei, que pretendo montar em breve, por exemplo, corre o risco de mistificar o público. Foi escrita em 39 quando se operava a luta contra o nazismo. A peça é toda escrita dentro de um sentido historicista – a história como movimento, uma fase negra que será superada (todos sabemos que um dia o pensamento de Galileu terá vigência aceita). Depois da bomba de Hiroshima o próprio Brecht reescreveu a peça, já impressionado com o fato de que o tipo de eficácia do pensamento de Galileu passava a ser outro, diametralmente oposto do que ele imaginava. E passou a ver as consequências da ciência desvinculada da política (continua).

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