ÚLTIMA PARTE DA ENTREVISTA HISTÓRICA COM O ETERNO-REBELDE-INOVADOR TEATRÓLOGO JOSÉ CELSO

capa 001

Chegamos à última – sem a final – da entrevista histórica com o eterno-rebelde-inovador do teatro brasileiro José Celso Martinez Correa, realizada por Tite de Lemos para a Revista Civilização Brasileira para o segundo número do caderno especial Realidade do Teatro Brasileiro.

Nas antes publicadas José Celso expos os recalques da burguesia paulista que com seu reacionarismo impede a clareza e a concretização de uma cultura original brasileira. Zé Celso também tratou da condição do teatro do ano de 1968, época da histórica entrevista, assim como do pensamento de Brecht, a importância nacional do cinema Terra Em Transe do premiado cinegrafista Glauber Rocha, a inovação em suas montagens, O Rei da Vela, Oswald de Andrade e a revolução de sua arte antropofágica. Agora, chegamos nesse 1° de abril, dia da mentira, na última parte da entrevista histórica que revela a mentira imposta pela concepção de uma estética burguesa.

A ENTREVISTA – “A GUINADA DE JOSÉ CELSO”

JOSÉ CELSO – Isso não pode ser julgado, como foi pelo crítico Décio de Almeida Prado, como uma questão de equilíbrio: primeiro ato, circo, segundo: revista, terceiro: ópera. Ora, porque não “cinema”, porque não “TV”, porque não “ballet”? Se o terceiro ato foi concebido em termos de ópera (aliás, foi a primeira intuição de “misennscène” da obra: o terceiro ato ficou de pé em três dias de ensaio tal o entrosamento do conteúdo e forma que obteve) é por razões que a crítica deveria interpretar. Não por um equilíbrio idiota. Esse negócio de equilíbrio é absurdo no espírito de um espetáculo como este. Porque disso nós começamos a conceituar no programa, mas não é função nossa, mas sim, do crítico ler o sentido desta forma. Mas como crítico é insensível à política, por exemplo (não deve ter esses problemas!), o terceiro ato desaparece da crítica, não existe. Mas o que se vai fazer? Realmente o espetáculo como Onde Canta o Sabiá de Grisolli, muitos de Abujamra e de outros diretores são tentativas de estabelecer entre nós um tipo de arte – a arte da direção, a do “texto” da direção. Dirigir não é como no tempo do TBC, manter o equilíbrio dos atos, iluminar direitinho, fazer o ator falar impostado, dar ritmo aqui e ali, meter uns cenários bem pesados de compensado e pronto. Há já mais de um século de arte supercriadora de direção que hoje é a única forma de produzir um teatro como arte. Recriação que é criação. Aliás, muita gente sabe disso. Isso já foi feito e somente ainda não foi mais desenvolvido por falta de uma crítica que se constituísse em interprete, em exegese desse tipo de teatro. Nós temos que criar entre novos realizadores, enfim, entre a mentalidade nova de teatro, atores, cenógrafos, diretores, um órgão de imprensa que permita que nós falemos de nossa experiência. Dirão: basta inovar que as coisas espontaneamente serão tidas como novas. Mentira a ideologia do novo, da demonstração de que algo de novo, por mínimo que seja, aparece em um espetáculo é um fator importantíssimo.

fito 001

O Sr. Décio de Almeida Prado, por exemplo, é mestre em retirar as cargas explosivas de todas as inovações. Tudo que se faz de novo neste país em teatro ele elogia e incorpora dentro de uma tradição calma do “já feito”. E a coisa que poderia ter um aspecto novo, recebe um golpe de esterilização e entra na rotina de um processo mole e anêmico do teatro brasileiro. O Rei da Vela é o novo numa série de coisas. Mas não há a ideologia de um novo setor que hoje faz a crítica. Portanto, a crítica que deveria ser a consciência de uma classe teatral é a consciência de um teatro morto, ou melhor, uma consciência morta.

O grande aspecto novo quem percebe é que está criando arte neste país. Assim o pessoal do Cinema Novo, da música brasileira, vê e revê o Rei da Vela, incorpora sua experiência em suas realizações, em seus projetos. Eu ouço as músicas, vejo e revejo filmes e vou descobrindo que alguma coisa nova está nascendo no país. E se até no teatro isto chega, é bom sinal.

Resumindo, o que há de mais novo no Rei da Vela é um estilo de direção que fala través das maquiagens, dos mínimos acessórios, das interpretações, do fato de serem atores jovens que fazem papeis de personagens maduros, etc. Tudo isso é uma opção nova. Se tudo isso for julgado a partir de categorias do teatro quadrado tradicional, não funciona. Neste caso, nossa bomba, Quatro num Quarto funciona bem mais. Para mim foi uma grande descoberta. Pela primeira vez eu falei com inteira liberdade. Estou presente no espetáculo conforme me encontrei com Oswald. Assim como cada ator o cenógrafo. Todos nós fazemos O Rei da Vela. Transformamos a peça num comentário nosso, ultrapessoal, inclusive, sobre o todo da realidade brasileira. Cada um de nós assina o espetáculo. Quem se abre e quer descobrir tudo que nós queremos comunicar, vai encontrar uma abertura imensa de nossa parte. Há toda simbologia fálica e não fálica da peça para ser lida e interpretada pelo espectador. Há toda a colocação do problema do ator da nova geração perante uma tradição de teatro de chanchada, interrompida abruptamente pela aridez cafonamente aristocratizante do TBC. Há milhões de coisas. Para mim, inclusive, o problema é grande. Como me atirei de cabeça, acabei descobrindo coisas que nunca cheguei a imaginar. E que me comprometeram.

TITE DE LEMOS – Quais as reações do público no espetáculo?

JOSÉ CELSO – O público reage ao espetáculo até não reagindo. Temos essões silenciosas, trágicas. O público parece não entender nada. Ou então se revolta. Ou está apático ou não acha nada, sei lá. A plateia muitas vezes lotada, sai sem nenhuma reação. Outras vezes, entretanto, o espetáculo recebe adesão total e histérica da plateia, que se manifesta a favor. Às levantam-se da sala e retiram-se, em protesto. Alguns saem silenciosos. Outros se manifestam em voz alta. Um espectador teve um ataque quase histérico e chegou a chamar Oswald no peito, para leva-lo ao DOPS. Chegaram mesmo a fazer um poema, afirmando que nós deturpamos o sentido da peça. Nele se pedia que Oswald lavasse “com sangue” nosso pecado de tê-lo deturpado. Enfim, é uma relação de luta. Luta entre atores e público. Metade deste, praticamente não adere. Ou detesta. Ou não entende. A peça agride intelectualmente, formalmente, sexualmente, politicamente. Isto é, chama muitas vezes o espectador de burro, recalcado e reacionário. E a nós mesmo também. Ora ela não pode ter a adesão de público que não está disposto a se transformar, a ser agredido. Ela não vai com as boas consciências, com as boas almas. Mas em compensação ela tem a adesão de um grande setor da plateia que se comunica coma violência do espetáculo. Tem servido para mim e para o Oficina como ponto de contato com tudo que vem surgindo de criativo e novo no Brasil. Antes de O Rei da Vela, nós vivíamos isolados. Depois da encenação nós fizemos grandes amigos e um bom número de inimigos também. Mas como compensou! As novas relações todas que o grupo fez e faz através da peça, com gente que está criando em todos os setores da arte, abriu o comércio que sempre faltou ao teatro e outros setores da cultura. O Rei da Vela deu-nos a consciência de pertencermos a uma geração. Pela primeira vez eu sinto isso.

Há uma geração que vai começar a intercambiar, a começar a criar. Fui violentamente influenciado por Terra Em Transe. Hoje fico satisfeito em saber que Arnaldo Jabor, Cacá Diegues, Leo Hirschman, Gustavo Dahl e tantos outros receberam o que eu quis comunicar com o espetáculo. Fico satisfeito de Caetano Velloso ter escrito que agora compõe “depois” de ter visto a peça. Que Nelson Leirner acha a coisa para o teatro tão importante como o neodadaísmo na pintura. Enfim, eu não deveria citar nomes, pois tanta gente falou e ainda fala na comunicação da peça, mas serve para ilustrar. Eu sinto que a obra se comunica violentamente, mesmo quando a plateia permanece silenciosa. Ela está agindo mentalmente. Ou para se achar, o fim da burrice ou para destilar veneno (que destila pelo telefone ou então no que escreve no questionário que nós mantemos permanentemente no teatro). Ou então para se comunicar conosco. Os 50% que se comunicam com a peça, valem. E par falar a verdade são muito importantes os outros 50% que a detestam.

cena 001

O interessante é justamente que ela divide o público. Sempre. O público estudantil, inclusive. O que é igualmente muito positivo. Queira-se ou não, um público dividido política e socialmente. Ela também divide o público intelectual. Une as plateias que paga sete cruzeiros novos aos sábados, unânimes em não entender nada ou em reagir violentamente contra. Mas une um público novo, sintoma de mentalidade nova, que se forma neste país. E mais positivamente une o público mais popular. Fizemos, como experiência, uma sessão par o público do bairro; a reação foi a mais genial possível. Reação de riso livre, do deboche de toda problemática de que eles realmente somente podem rir pra valer.

Mas a maior reação, em todo caso, foi minha mesmo. E dos que fizeram o espetáculo. Esta entrevista eu nunca daria a propósito de outra peça. O Brasil de hoje, ou o Oswald, ou nós, não sei, tem uma coisa estranha. Atribuo tudo, um pouco espiritamente, ao espírito de Oswald mesmo. Depois de O Rei da Vela tenho vontade imensa de debater, de espinafrar. O espetáculo tem defeitos aos milhares. Mas não é isso que impede sua comunicação. O caso está na esfera dos valores. Hoje já adivinhamos de antemão as pessoas que aceitam ou não a peça. As reações começam a passar a ser previsíveis.

O espetáculo é um diálogo terrível com o público. A comunicação negativa da peça, entretanto, já nos trouxe problemas. Tanto que o espetáculo terminou por ser mutilado e exatamente no “texto de direção”. Por pressões do público que ficou atingido pela violência. Pelo canhão do boneco… Imaginem, uma pessoa sair de casa para ir fazer uma reclamação contra um pedaço de madeira e de repente a segurança do país passa a ser, ter ou não ter aquele canhão naquele boneco? Enfim, estas reações determinaram que não tivéssemos mais debates, o que é uma pena. Fico hoje satisfeito em saber que o teatro tem o poder de suscitar essas reações fortes. Enfim, o teatro comunica pela porrada alguma coisa. Confirma assim tudo que se prevê de recalque infantil que esta plateia tem. Ela está toda mistificada e merece receber mesmo, violões* e outros bichos pela cara”.

*Referência ao violão que o cantor, compositor, cinegrafista, poeta, contista Sérgio Ricardo, jogou contra o público do Festival de Música Popular que o agredia e impedia que ele continuasse a cantar sua música.

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: