UM PASSEIO ESQUIZO DE KAFKA

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O filósofo francês Deleuze, diz que “a literatura é saúde”, quando “ela arrasta a língua para fora de seus sulcos costumeiros” e estabelece fronteiras de linguagem. É devir. Não imita, não identifica, não cria forma, cria zonas de indiscernibilidade, elementos a-significantes, impessoais, zonas de vizinhança. É uma literatura cujo autor desloca-se em um passeio-esquizo. Uma literatura menor. Menor não de tamanho, mas constituída de intensidade rizomática não capturada. Ao contrário da literatura maior segmentada por uma semiótica arborescente inscrita como delírio paranoico despótico.

O contrário da literatura como saúde ocorre quando se cai na clínica com personagens formalizados em lembranças, amores, lutos, sonhos, fantasmas, corpos imóveis da neurose. O objeto próprio para uma indústria literária de consumo que se mantém de tipos psicológicos. Aí não há saúde porque há personagens em processo interrompidos que o leitor identifica suas próprias interrupções neuróticas. Não há passeio do esquizo. Há situações molares. Ciúmes, invejas, ressentimentos, amarguras, ambições, hipocrisias, orgulhos, impotência, afetos-tristes. Impossibilidade de encontros.

Kafka com suas névoas movimento, repouso, velocidade e lentidão literária proporciona aos seus leitores deslocamentos como devires e potências. O trabalho de desenho fotografado entrecorta pelo devir Kafka apresentado nesse Blog Esquizofia pelo filósofo e historiador Alci Madureira nos empurra para essas zonas deslocadas pelas linhas inatingíveis. Não são propriamente imagens-delineadas como expressões concretas, mas esboços impossíveis de serem fixados com uma forma acabada, nítida e acomodada na percepção.

Trata-se, portanto, nada mais do que um passeio-esquizo kafkiano. Sem nenhuma pretensão estética formal, mas uma empurrada deslocadora.

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Na Catedral

[…] – Você tem um pouco de tempo para mim? – perguntou K.

– O tempo de precisar – disse o sacerdote, passando a K. a lamparina, para que ele a carregasse.

Mesmo de perto, o sacerdote não perdia uma certa solenidade, que vinha do seu ser.

– Você é muito amável comigo – disse K., enquanto andavam de lá para cá, um ao lado do outro, na escura nave lateral. – Você é uma exceção entre todos os que pertencem ao tribunal. Tenho mais confiança em você do que em qualquer um dos outros tantos que já conheço. Com você posso falar abertamente.

– Não se engane – disse o sacerdote.

– Em relação a que deveria me enganar? – perguntou K.

– Em relação ao tribunal você se engana – disse o sacerdote. – Nos textos introdutórios à lei consta o seguinte, a respeito desse engano: Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo dirige-se a este porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde. “ Possível”, diz o porteiro, “mas agora não.”Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta, e o porteiro se põe de lado, o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso, o porteiro ri e diz: “Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala, porém, existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a visão do terceiro”. O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo e a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta. Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido, e cansa o porteiro com os seus pedidos. Muitas vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios,pergunta-lhe a respeito da sua terra e de muitas outras coisas,mas são perguntas indiferentes, como as que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que havia se equipado para a viagem com muitas coisas,lança mão de tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Este aceita tudo, mas sempre dizendo: “ Eu só aceito para você não achar que deixou de fazer alguma coisa”. Durante todos esses anos, o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiros parece-lhe o único obstáculo para entrada na lei.Nos primeiros anos, amaldiçoa em voz alta o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil, e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião. Finalmente, sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está escurecendo em volta ou se apenas os olhos o enganam. Contudo, agora reconhece no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro.

Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem. “ O que é que você ainda quer saber?”, diz o homem. “Como se explica que, em tantos anos, ninguém além de mim pediu para entrar?” O porteiro percebe que o homem já está no fim, e para ainda alcançar sua audição em declínio, ele berra: “ Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a”.

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