TÊNIA

tenia 001

Marcos Ney*

Escreve com o cuspe!

A cabeça está entre os joelhos. Há sessenta anos se senta no ânus. No chão de espuma. Tão distribuindo chupetas para a multidão de provetas. O bebo, bebe, bebês de leite. De repente se explodem fogos nucleares. Uma banda do ouvido estoura. Pega a navalha. Corta a barriga. Tira de dentro da tripa, uma latinha de cerveja. Do lado de dentro do prédio está atrás das grades. Só com o movimento de um olhar exibe os olhos de sempre. Dono do território dentro da cabeça. As pernas são bandas de bundas levando o desbundado.

Na poça de saliva as cordas de tripas parecem solitárias. A tênia joga só. Teve que se dividir em quatro para jogar. A quantidade de tolice aumenta com a quantidade de tolos. Para cada atração uma rejeição. O micropolítico, esse micróbio tem risinhos em todas as partes da boca. Morde a língua. Berra pelos dos olhos. Toma um copo de leite para satisfazer a barriga.

Se abrirmos o estômago veremos fios, estiletes, arames e lixo. O frio está com frio. Hoje não ventou nem venta. A terra parrou de girara para cair de uma vez por todas. Os olhos de vidros estão todos quebrados. Os cacos estão quebrados por toda face. Uma tênia para cada barriga solitária. As nádegas batem palmas. Na dobra aparece outro corredor correndo.

A multidão de androides se manifesta no labirinto do intestino. O meio urbano é uma barriga solitária cheia de tênia. As pessoas passeiam com as vermes encolerizadas. Gente de colares. Tênia de coleira. As pessoas passeiam solitárias com suas tênias. A rua é festa de passos. O dedo sente prazer em tirar remela dos olhos. O nariz chega a ser obstruído pelo catarro.

Há quantos anos o ânus é atravessado pela merda? A boca saboreia vidas mortas que estão em pedaços. Hoje as almas dormem dentro da geladeira. O rosto que aparece na tevê é real.

O rosto dessa gente de carne é desacreditado. O mundo dos crentes está degenerado. Partidos degenerados. Políticos degenerados. Operário degenerados. Putas degeneradas. Computadores degenerados. Crianças degeneradas. Dados degenerados. Dedos degenerados. Bêbados degenerados.

Fragmentos fragmentados. Pedaços de corpos nos copos quebrados. Tênia passeia pelo intestino. Vermes saindo pelo buraco do destino. Dedos nos dados. Tênia eterna por todos os lados. Ruas. Fugas. Becos. Casas. Intestino. Pessoas dentro da barriga da cidade.

Escreve o nome com o cuspe!

Se senta na espuma. Estar junto de si no conjunto vazio. É querer ser preenchido pelo nada. Fragmentos fragmentados. Tudo em pedaços. Em cada parte, tudo. E cada pedaço um eu. Tênia é a multidão solitária.

A palavra libertária é a seguinte: pedaços de tudo unidos pela solidão de estarem juntos do diferente. O eu é a cópia de nós. Dizemos: a cabeça do dedo. A boca do estômago. O olho do ânus. A flor da pele. O coração do sistema. Uma parte da multidão é igual à outra parte.

Tênia solitária. Multidão só. A verme tem gosto de saliva.

*Marcos Ney é filósofo, escritor-esquizo e educador nas zonas ribeirinhas de Manaus.

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