“PARA MAU BEBEDOR MEIA GARRAFA BASTA”

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Racine Santos, que não tem nada do comediógrafo francês a não ser a erudição com expressões europeias, é nordestino da gema, potiguar, de Natal, terra onde os três Reis Magos foram criados e abençoados, só para chacoalhar cristãos-bairristas orientais, é um escrevinhador de acordo com sua autoclassificação ‘etilicalírica’. Embora traspassado de humor, ironia e imaginação-criativa, jamais imaginou, segundo ele, escrever sobre esse tema ecumênico que vive em total movimentação pelo mundo de Deus.

Um dia – quem sabe, uma tarde, uma noite – ele se encontrava no Bar do Lourival quando ouviu um enunciado revolucionário que lhe abriu a perspectiva ‘etilicalírica’. Em meio a uma contagiante discussão, ele ouviu a sentença que negava totalmente a moral aristotélica tal a potência filosófica de sua verdade: “Aqui ninguém desmente ninguém”. Pronto! Foi como se ele tivesse sido intimido pelos deuses para testemunhar, através de sua verve-debochada, a fundamentação daquele recinto que provocou a pedra filosofal.

 Assim, diante da convocação, ele, experimentador dos bares, bodegas, quiosques, botequins ordinários e não ordinários, como canta o sambista Luiz Carlos da Vila, mandou ver. Como escrevinhador escreveu o livro Para Mau Bebedor Meia Garrafa Basta, publicado no ano de 1978, pela Coleção Edição Clima com as provocantes ilustrações de Aucides e a capa de Newton Navarro. O bar e a embriaguez, temas que lhe levaram a se render ao provérbio estimulante de Proust: “Não esqueçamos que aquilo que nos fatiga é também aquilo que nos sustenta, e o que nos gasta é o que nos anima. Vivemos um pouco daquilo que nos mata”.

 Só a título de degustação esse Blog Esquizofia vai transcrever suas 14 estações com introdução de seu amigo João Gualberto Aguiar. Agora, se algum internauta ficar embriagado não é da nossa responsabilidade. A conta quem paga é você.

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 “Racine, o bardo, escreveu 14 estações, estações poéticas sem nenhuma queda etilírica. Fez o que todos boêmio faz: uma via sacra pelos bares. Em vez de um porre literário, seu trabalho é um tira gosto acadêmico, mas com cadeira cativa de imortal longe das academias e perto das estações térmicas de copo e mesa.

O bar para ele é um “templo ecumênico”. Entre o copo e a mesa os deuses vão beber sua poção infernal: chopp, vinho, cachaça, conversa, companheiros. Nessas 14 estações de alcoolirismo não houve queda, mas um epílogo: beber nunca passa de um vício.

Racine, evidentemente, sabe beber e redimir a embriaguez. As provas, anti-trovas, estão aí”.

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João Gualberto Aguiar

AS 14 ESTAÇÕES

O BAR

Templo ecumênico onde mora

Baco e Eros se excita

Onde o amor renasce

E a dor defunta ressuscita.

A MESA

Me envolve de cansaço

Sua geometria rígida

Quadrada e silenciosa

Qual uma fêmea frígida.

O COPO

De vidro, cristal ou prata

É um grande poço abissal

Onde os deuses vão beber

Sua poção infernal.

O CHOPP

Como a popular cachaça

Não é bebida imperial

Mas cumpre bem sua missão

De paraíso artificial.

O VINHO

Parvo, sábio ou poeta

O vinho não faz ninguém

Porém molhar a alma

Ele mostra quem é quem.

O GARÇÃO

O sacerdote deste templo

Tem outro nome: garção

Na taça ele serve o vinho

E na bandeja o pão.

OS COMPANHEIROS

Que não sentem em minha mesa

Não quero comigo amizade

Os bêbados que quando lúcidos

Mudam de personalidade.

1ª QUEDA (que não houve)

Fere a linha do equilíbrio

O tombo inesperado

Dando dinâmica a um corpo

Que permanece sentado.

2ª QUEDA (Que não há)

A iminência da queda existe

Como ameaça mais uma vez

O corpo pêndulo/oscilando

Entre o êxtase e a lucidez.

3ª QUEDA (Que não haverá)

A queda, a derrota, o tombo

Fique na ameaça somente

E se o corpo desiquilibra

Que permaneça estática a mente.

A CONVERSA

Aos bares não ia ninguém

Se conversar fosse proibido

Pois no perímetro de uma mesa

O silêncio mora investido.

A EMBRIAGUEZ

A negação da tristeza

Que em todos bares habita

Tem o poder de classificar

A embriaguez de bendita.

O ATO DE BEBER

Que o beber seja solene

Como o perdão ao pecado

E o êxtase do alcoolirismo

Redima o nosso gesto embriagado

EPÍLOGO

Que rezem comigo os que bebem

O que faço minha fé de ofício:

Beber bem todos sabem é uma arte

Beber mau nunca passa de um vício.

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