ESOPO, A CIGARRA, A FORMIGA E O TRABALHO-HUMANO

cigarra

O homem, em função de sua impotência e seu medo relacionado aos outros animais, antropomorfizou toda a natureza. Em cada ser-natural projetou sua consciência-humana. Em vários animais viu seus vícios, sua frustrações, suas vaidades, seus anseios, suas inseguranças, suas maldades, todos os signos culturais por ele criados. Por analogia, seu juízo, e semelhança, sua cópia, chamou os animais de burro, cavalo, lesma, preguiça, cobra, jumento, cachorro, veado, vaca, papagaio, macaco, galinha entre outros.

ANTROPOMORFIZAÇÃO DOS ANIMAIS

O homem codificou os animais de acordo com ele mesmo. Então, passou a distribuir sua codificação antropomórfica e zoológica. Ou seja, antropomorfizou os animais. “Esse cara é burro, diz o ignorante que se toma por sábio. Essa mulher é uma vaca, diz misógino que tem pavor de mulher. Ele não faz nada, é uma verdadeira preguiça, diz o ambicioso. Trai como uma cobra, diz o falso honesto. É lento como uma lesma, diz o compulsivo. Aquele cara é um cachorro, diz o campeão da moral. Ele é veado, diz o homossexual latente”. E os animais só na deles.

ESOPO ABERRA A FORMIGA

Foi então, que o fabulista grego Esopo, fazendo uso do antropomorfismo-moral humano, passou a criar algumas fábulas atribuindo qualidades humanas aos animais, entre elas A Cigarra e a Formiga. Cujo tema é o trabalho. Na verdade uma condenação à preguiça e ao ócio. Como a maioria já conhece a Cigarra só queria cantar, enquanto a Formiga só trabalhar. A primeira fazia de seu ócio um prazer. A segunda, de sua insegurança um futuro seguro. Queria um inverno quentinho e com comida necessária.

Na verdade, a Cigarra é um ser original e singular. Seu modo de ser é produzido por sua essência: criar sons. Para Esopo, cantar como forma de não fazer nada produtivo. Viver no inócuo-ócio. Já a Formiga, para ele, trabalhava. Acumulava, poupava para os dias incertos. Mas, filosoficamente, a Formiga, de Esopo, é uma aberração. Não vive seu modo de ser original e singular de formiga. E muito menos trabalha.

 A FORMIGA REFLEXO DO VÍCIO CAPITALISTA

 A Formiga é como o capitalista: vive do que o trabalhador produz. A Formiga guarda o que encontra pela frente já produzido, seja pela natureza ou por outros bichos. A segurança da Formiga, como a do capitalista, é constituída pela alienação do que os outros bichos produzem. A como o capitalista é egoísta e invejosa. Poupa para si e tem inveja do modo de ser da Cigarra que é singular. A Cigarra, como diria o filósofo Spinoza, compõe o que seu corpo pode. A Formiga é uma aberração, porque trai sua essência e não compõe com o que pode seu corpo. Ela compõe com os afetos humanos. A Formiga é uma formiga-humanamente capitalista. O filosofo Nietzsche diria que ela é uma “humana demasiada humana”.

SOBRE A OBRA DE MERCADO QUE SE QUER ARTE

Em tempo de comemoração do Dia do Trabalhador é preciso analisar os fundamentos da estética na pós-modernidade. É preciso distinguir, diferenciar, isolar e examinar o que é uma obra artística cujo interesse é a elevação do espírito humano a um grau além da objetividade estabelecida pela sociedade capitalista e uma falsa obra que se considera artística quando apenas reflete a sustentação dessa sociedade de opulência, como mostra o filosofo Marcuse.

Uma obra de mercado que serve apenas para embalar bocejos vaidosos de uma burguesia alienada sem qualquer critério estético. Uma burguesia, que como a Formiga de Esopo, só lucra, acumula imaginando sua segurança e quer através da “arte” de mercado ostentar uma sensibilidade que não tem. Ela pode até ter na segurança de seu ostentador lar, Picasso, Portinari, Dali, Neruda, Drummond, Manuel, Shakespeare, Brecht, Mozart, Verdi, Chopin, Wagner, Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal e outros personagens representantes da estética elevadora do espírito, mas ela não sente. Sua sensibilidade é produto do mundo abstrato fantasmatizado pelo capital. Onde não há possibilidade alguma da vivência estética que sensibiliza os sentidos para além dos sentidos constituídos.

Moral sem moralidade: a arte é singular expressão de quem é livre em-si, a Cigarra, e não mimeses de quem põe pressupostos já estabelecidos, a Formiga-humana demasiadamente humana. 

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