OS CRONISTAS DO ABSURDO DE LEO GILSON RIBEIRO – TRANSFIGURAÇÃO DA POESIA EXPRESSIONISTA

Em 1964, ano do golpe de Estado dado pelos militares apoiados pelas famílias burguesas e reacionárias do Brasil que redundou em 21 anos de ditadura que sequestrou, prendeu, torturou e matou alguns opositores do regime de terror, o intelectual com formação na Alemanha, Leo Gilson Ribeiro, lançou uma obra prima da literatura crítica mundial: Os Cronistas do Absurdo. E para coroar a importância do lançamento, seu prefácio foi do outro intelectual e escritor famosos, Otto Maria Carpeaux, que mandou recado aos falsos intelectuais ao afirmar que a cultura de Leo Gilson Ribeiro “não é fruto de leituras caóticas nem de apressado amaestramento em cursos de verão”.

Pois bem, nos Cronistas do Absurdo, Leo Gilson Ribeiro, apresenta alguns ensaios sobre o Expressionismo Alemão que são verdadeiras obras-primas da literatura. Ele escreve sobre Kafka, Büchner, Brecht e Ionesco, e, também, sobre os conhecidos poetas expressionistas do início do século XX que tiveram mortes prematuras como Ersnt Stadler que morreu em 1914 aos 31 anos e Georg Heym, “o poeta do demonismo das metrópoles modernas”, que morreu com 25 anos, entre outros que foram assassinados pelo regime nazista. E os que conseguiram escapar procuraram asilo na França, Estados Unidos, Argentina (sempre a Argentina, só para tocar em nossa vaidade telúrica) e outros países.

Para o ensaio sobre o Expressionismo Leo Gilson Ribeiro, concede o título de Delírio e Transfiguração e diz contra o que esses artistas se insurgiam. “A revolução expressionista foi uma revolta total: no plano artístico contra as regras “tradicionais” da “Arte” burguesa e contra um esteticismo impressionista, divorciado da condição angustiosa do Homem moderno. No plano moral estruturou-se todo um levante ético  contra a desumanização progressiva do Homem, contra mecanização do mundo, a escravização do proletariado aos senhores da Revolução Industrial.

As palavras do autor refletem, de certa forma, o que crítico Kurt Pinthus, autor da mais importante ontologia documental do Expressionismo (uma relíquia, joia rara), Crepúsculo da Humanidade, afirmou sobre esses poetas em 1919. “Quando, há 40 anos, chamei estes poetas de “um punhado de malditos que aspiravam a um ideal utópico”, eu ignorava quanto esta definição simbólica de então se tornaria mais tarde monstruosa realidade”. Ele também concebeu estes poetas como poetas políticos.

E para presentear os esquizopoéticos, e lhes mostrar o quanto eles eram verdadeiramente malditos e que tinham influências dos filósofos Nietzsche e Marx, entre outros malditos, e de poetas malditos como Hölderlin e Kleist, nós escolhemos o poema Diálogo, de Ersnt Stadler. Vamos a esse Diálogo com Deus que somos nós mesmos.

 

Diálogo

– “Meu Deus, eu Te busco.

Vê-me, ajoelhado à soleira da Tua porta,

A mendigar entrada.

Vê: estou perdido entre tantos caminhos que me arrebatam,

Rumo ao ignoto.

E nenhum deles me conduz de volta ao lar.

Deixa-me suplicar-te abrigo entre Teus jardins,

Para que, na clama das suas tardes,

Minha vida, partida em mil fragmentos, se encontre de novo.

Sempre corri em busca das luzes coloridas,

Ansioso por milagres, até que avida,

O desejo e a meta desapareceram na noite.

Agora amanhece, cinzento, o dia. Agora pergunta-me meu coração,

Prisioneiro na masmorra dos seus erros,

Pergunta, amedrontado, qual o sentido

Das horas confusas e perdidas?

E não encontro respostas.

Sinto que minha nave leva últimas cargas,

Que em meio às tempestades

Sem rumo vagueiam pelos mares,

E que se iniciei minha viagem destemido e esperançoso, na manhã primeira,

Meu navio agora se rompe

Contra a montanha magnética de um destino errante.

– Silêncio, alma! Não conheces teu lar de origem?

Vê: tu és em ti mesmo. A luz incerta,

Que te confundia, era a luz eterna,

Que arde no altar da tua vida.

Por que temes as trevas?

Não és tu mesmo o instrumento

Em que a rebelião de todos os tons

Se desfaz, numa harmonia final?

Não ouves a voz de criança

Que das profundezas do teu ser canta baixinho?

…A rosa dos ventos do teu destino:

Tempestade, noite de vendaval e mar tranquilo,

Tudo é parte de ti mesmo:

O inferno, a ascensão ao céu e o eterno retorno:

Vê: Teu último desejo,

Para o qual tua vida estendera, sôfregas, as mãos,

Já brilhava, flamejante, no céu da tua primeira saudade.

Como dentro de um escrínio.

E nada, de tudo o que passou e sucederá ainda,

Jamais deixou de ser teu, para todo o sempre”.

 

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Uma resposta to “OS CRONISTAS DO ABSURDO DE LEO GILSON RIBEIRO – TRANSFIGURAÇÃO DA POESIA EXPRESSIONISTA”

  1. Anónimo Says:

    eu amei as foto

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