“APRENDI A DIZER NÃO, VER A MORTE SEM CHORAR”, ‘DISPAROU’ JAIR RODRIGUES A MÚSICA REVOLUCIONÁRIA DE THEO DE BARROS E VANDRÉ

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Jair Rodrigues canta. Não é conhecido por ser um compositor, mas um cantor. Algumas vezes foi mais que um cantor, foi um cantador. Um cantador é diferente de um cantor, disse certa vez o cantador, Xangai.

O cantor empresta seu talento vocal a uma obra musical que muitas vezes só ele pode cantar em função de seu estilo: o que lhe é singularmente original. Ele canta em um espaço e um tempo determinado fechado na estrutura da música, como ocorre com a chamada música urbana. Mas não quer dizer que ele não faça a aparição da música como arte.

O cantador não. O catador transdimensiona a arte musical. Escapa do tempo e do espaço da estrutura musical urbana. Transcende uma terra e uma cultura definida com seu canto. São os casos de Elomar, Dércio Marques, Xangai, entre outros cantadores brasileiros. O cantador é o sujeito-estético do deslocamento, mesmo que as notas sejam de constituição afetiva significada. Poderia até se dizer, emprestando um signo móvel dos filósofos Deleuze e Guatarri, que o cantador é um devir apátrida. Ou melhor, desterritorializado.

Jair Rodrigues foi, em sua carreira, muitas vezes cantor, mas encadeou mesmo fluxos desterritorializantes que apanharam os ouvintes como uma rajada de vento que desloca em um indefinido, como cantador. Cantador de Disparada de Geraldo Vandré e Theo de Barros, de 1966, no Festival de Música da TV Record. Disparada, a potência musical revolucionária que incomodou a força repressiva da ditadura instalada no Brasil entre os anos de 1964 e 1985. “Prepare seu coração pra coisas que eu vou contar, eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar”. A potência-sonora-musical, na voz de Jair Rodrigues inquietando os ouvidos capturados e o entendimento estabelecidos dos urbanoides. A potência-sonora-musical literariamente política como deslocamento evanescente do cantador.

Jair Rodrigues cantou com Elis Regina, uma voz urbanamente singular, e se situou no universo do canto. O Fino da Bossa mostrou muita bossa e gingado que o samba pede. Traçou percursos musicais, envolto por sonorizações e poesias de outros companheiros da musa música. Cantou o poeta de Sobral, Belchior, “eu era alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais, como galo, quando havia… quando havia galos, noite e quintais”, como se canta a luta pela liberdade que vem em “Disparada”.

Portanto, cantador de Disparada não pode querer o público “Deixe Isso Pra Lá” acreditando que ele não estava “fazendo nada”. Fez, sim. E faz. Por isso se pede: Canta cantador!

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