A PEÇA “TRÁGICA.3” UM TEATRO NO TRÁGICO DO AMOR FATI

A palavra tragédia vem do termo grego, tragos, bode. No sentido dionisíaco, significa o canto do bode. Tragos é o bode das festas das colheitas da uva na Grécia agrária. Com sua manifestação libertária do espírito através de sua festa dionisíaca-musical-lírica, com o ditirambo, encontra a força de limitação apolínea. Então ocorre o ordenamento do Devir-Dionísio na forma Apolo. Para onde converge teatralmente como teatro-trágico.

Agora, os brincantes não são mais os participantes das dionisíacas, eles são os espectadores da tragédia. Agora, eles não executam suas próprias purgações, seus êxtases por si mesmos, eles precisam dos atores e dos personagens. Seja através do Carro de Tespis, o primeiro ator do teatro grego, ou nas encenações das tragédias de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes.

Mas o trágico não se resume ao teatro. O trágico é a forma de existência. O viver como atual, onde não se pode fugir do que se é, e do acontece. Existir sem trapaça, já que nada pode mudar o que eu sou agora, como diz o filósofo Nietzsche, com seu amor fati. “Minha fórmula para a grandeza no homem é Amor fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para frente, seja em toda eternidade (Ecce Homo)”. Do qual o filosofo Clèment Rosset tomou como devir-filosófico.

Portanto, a tragédia grega não só expressa o teatro, mas também o princípio filosófico da existência. O Édipo Rei de Sófocles mostra uma verdadeira ventura trágica. O que Freud com seu Complexo de Édipo não entendeu. Consultado pelos resi de Tebas Laio e Jocasta, Oráculo de Delfos lhes diz que eles não devem ter filhos caso tenham, a desgraça abatera a cidade de Tebas, Laio será morto pelo filho e Jocasta o desposará. Eles têm o filho. A desgraça ocorre. Jocasta manda um soldado matar o filho na floresta. Lá um pastor o toma para si. Políbio, rei da cidade de Corinto, cuja mulher, Mérope, não pode ter filhos, recebe o menino do pastor, seu amigo, o conduz para o palácio e o cria como seu filho. Como ficou por muito tempo pendurado pelos pés em uma árvore, ficou com o pé torto, daí seu nome Édipo, aquele que tem o pé torto.

Um dia, em uma festa no palácio, Édipo encontra um bêbado que lhe diz que ele é um usurpador do trono de Corinto, e que não é filho de Políbio. Aí, começa a desventura de Édipo. A tragédia do desespero. Ele sai à procura de sua identidade. Na estrada mata seu pai, sem saber, e depois de decifrar o enigma da Esfinge, na frente do palácio, casa com a mãe que era a recompensa para o andarilho que decifrasse o enigma. Desse casamento nascem dois meninos Etéocles e Polinice, e duas meninas, Antígona e Ismênia.

O Édipo Rei tem como substrato trágico não só a busca de identidade de Édipo, mas fortemente a luta pelo poder de Tebas que é constantemente ambicionado por Creonte, irmão de Jocasta. Inimigo de parte da linhagem de Édipo, a ponto de impedir sua permanência em Tebas. Forçando a peregrinar por várias terras até chegar a Colono, onde é liberto da maldição. Além de proibir que Polinice seja enterrado em Tebas. O que é a luta de Antígona contra o tirano, Creonte.

 A peça Trágica.3 dirigida por Guilherme Leme, ordena uma trama envolvendo os trágicos gregos, Sófocles, com Antígona e Electra e Eurípedes, com Medeia. No encadeamento desenrolam-se os fios condutores do trágico. Embora tragédias de dois autores, esses fios, o singular da vida grega, se encadeiam sem se emaranharem-se. O que possibilita perceber os estilos dos dois trágicos.  Como se sabe, se a tragédia de Ésquilo tem como sentido os deuses, em Sófocles os deuses ainda atuam sobre os mortais, mas sendo os mortais responsáveis por seus destinos, como mostra Édipo. E já em Eurípedes todo o sentido trágico é humano. O que leva alguns críticos afirmarem que Eurípedes é o primeiro autor existencialista. Mas o certo mesmo, é que o teatrólogo alemão, Brecht, o teve também como inspiração para o seu teatro.  

No elenco encontram-se, a global (teatro não tem qualquer relação com o artificialismo das telenovelas), Letícia Sabatella, Denise Del Vecchio e Miwa Yanagizawa. Para assistir é preciso se deslocar para o Centro Cultural Banco do Brasil.

Se a encenação não agradar, pelo menos o público terá tido oportunidade de entrar em relação com alguns rastros do trágico.

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