FIM DO CICLO*

Despediu-se dos amigos no botequim, foi até a rua, acenou para um carro parado próximo, entrou e indicou ao motorista, o itinerário. Olhou a rua molhada pela chuva que caíra uma hora antes, e perguntou ao motorista como estava a praça naquela madrugada chuvosa de um sábado, próximo ao começo da Copa do Mundo. O motorista respondeu que estava boa e calma. Tirando alguns bêbados chatos, no resto tudo estava na santa paz.

Ao chegarem a principal Avenida, ele sorriu saudoso e mostrou ao motorista o colégio que ele havia trabalhado na década de 70. E passou a contar algumas histórias vividas junto com os colegas de trabalho e os estudantes. Disse que nos sábados, eles se reuniam para bater uma pelada, o que na verdade só era um motivo para tomarem umas geladas. Mostrou uma rua a direita, e contou que naquele tempo havia quase no fim da rua a casa de um aluno com um quintal sem muro no qual eles iam tomar cerveja com peixe frito pela mãe do aluno.

A frequência foi tamanha que pessoas que passavam, ao observarem eles bebendo e comendo, entravam no quintal acreditando trata-se de um bar. Mas logo eram informadas que se trata de uma residência. Até que um dia ele sugeriu a mãe do aluno que ela passasse a vender cerveja para outras pessoas junto com o peixe frito. Ela acolheu a sugestão e daquele dia em diante tornou-se o primeiro bar de quintal na cidade com uma frequência invejável.

Sexta-feira e sábado, eram os grandes dias. A moçada com namoradas, namorados, levava violão, cantava, dança tudo no chão de barro com cheiro de peixe frito no ar. Estudantes, artistas, trabalhadores, formavam a comunidade que frequenta o recinto. Da parte deles, formavam um grupo composto por gente de teatro, cinema, poesia, pintura, circo, professores, médicos, gráficos, jornalistas. Tudo em plena a ditadura. Mesmo assim, eles discutiam questões comprometedoras.

O motorista olhou firme para frente, sua face foi tomada por um afeto de revolta, para ir aos poucos relaxando. Suspirou fundo, sorriu e disse que certa vez chegou a ir ao bar de quintal. Confirmando que era um local alegre, descontraído, bom para relaxar. Então, olhou em direção a ele e disse que tinha 70 anos, e que, possivelmente, ele deveria ter uns 65 anos, para logo em seguida ouvir a confirmação.

O certo é que a corrida foi um tempo cheio de recordações. Chegaram até a gargalhar lembrando o pênalti que o Zico havia perdido na Seleção Brasileira na disputa da Copa de 86.

O carro entrou numa rua deserta, local onde ele morava, o motorista parou o carro na frente da casa dele, observou um gato rasgando um saco com lixo, mostrou o valor da corrida registrado no taxímetro, ele tirou uma nota de 50 reais, entregou ao motorista, saiu do carro e ficou esperando o troco. Olhou o final da rua e sorriu. Voltou a olhar o motorista para pegar o troco e o viu com uma pistola na mão direita, disparando em sua direção. Foram três projéteis certeiros no coração.

Calmamente o motorista guardou a pistola, ligou o carro e partiu. Chegou a um posto para colocar gasolina no carro, entregou a chave ao frentista, foi até o banheiro, abaixou um pouco as calças, pegou um latinha com creme mentolado no bolso da calça, passou um pouco no dedo médio da mão esquerda, esfregou com força no ânus e com o pênis entumecido se masturbou. Voltou ao carro, pagou o frentista e saiu.

Parou o carro na frente de uma igreja monumental, desceu, pegou o celular e ligou um número conhecido. Atendeu a voz de uma mulher idosa e, em êxtase, disse para ela passar a régua que chegara o fim do ciclo. E completou afirmando que o último comunista fora se juntar no inferno com Marx. Fez uma pausa, escutou a respiração ofegante da mulher, e para terminar a mensagem disse que filósofo acabara de dançar.

*Conto do livro Contos Sem Descontos, de autores da Associação Filosofia Itinerante (Afin) em preparação.

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