VIVA O VINIL! CARTOLA – DOCUMENTO INÉDITO

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O passeio esquizo da bolacha crioula de hoje é a joia rara, a verdadeira relíquia do vinilesquizofílico, Cartola – Documento Inédito, gravado em 1982, pelo Estúdio Eldorado, Série: Luxo.

Como já é do conhecimento até do mundo mineral, como diz o jornalista-filósofo, Mino Carta, o Estúdio Eldorado tem um trabalho similar ao de Marcus Pereira: produzindo obras de cantores e compositores que escaparam e escapam da captura do buraco negro das gravadoras multinacionais que proporcionam dejetos musicais a ouvintes com audição obstruída. Isso porque seu fator maior é o som alienante de mercado. No estilo Roberto Carlos, Chitãozinho e Chororó, Paula Fernandes e congêneres.

O Estúdio Eldorado tem trabalhos da música verdadeiramente caipira ou sertaneja, dependendo da audição e inteligência de cada uma, passando pelo samba e outras maravilhas das variadas localidade deste Brasil de tantos e ocultos talentos. Desfilam nessa bolacha crioula as joias raras como Inverno do Meu Tempo, Autonomia, Quem Me Vê Sorrindo, Dê-me graças, senhora entre outras relíquias poéticas musicais.

E mais, a apresentação é feita por ninguém mais talentoso no ofício do que Aluízio Falcão. Falcão traça coerentemente, no texto que escreveu o trabalho desse Cartola – Documento Inédito. Vejamos! Ou melhor, leiamos!

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“Este LP contém um depoimento de Cartola e mais oito obras-primas que eles mesmo canta, acompanhando-se ao violão. É a reprodução de um programa com o fundador da Mangueira na Rádio Eldorado de São Paulo, pouco antes de sua morte. Foi a última vez que Cartola entrou em um estúdio de gravação. Ele estava feliz com um novo disco, mas já era visível o abatimento provocado pela doença que o mataria meses depois.

Quis poupá-lo de uma conversa demasiadamente inquiridora e cansativa. Pedi que ele próprio escolhesse as músicas e as comentasse rapidamente, durante a gravação. Tudo transcorreu como um encontro de boteco. Conversa, violão e conhaque. Mas Cartola falou mais do que a encomenda e, graças a isso, podemos agora apresentar esse documento inédito.

O que Agenor de Oliveira diz nessa conversa musicada já é mais ou menos sabido pelos estudiosos da nossa canção popular, porém acho importante que também seja conhecido pelo ouvinte comum. Até brinquei com ele no começo do papo: “Vou te fazer uma pergunta originalíssimas, de onde vem esse apelido de Cartola?” É que todo repórter jovem, ao entrevistá-lo, começa desse jeito. Essa e outras respostas, entretanto, perderam-se em publicações efêmeras de jornal. Agora, registrada por ele, mesmo em disco, soam como um registro importante, levam ao grande público alguns traços básicos de sua biografia.

São informações prestadas pela fonte mais confiável, o próprio biografado. Só quando fala na idade das suas músicas, Cartola, não é mais exato. O samba “Quem me vê sorrindo” nasceu antes de 1940 e neste depoimento, prestado em fins de 1979, ele calculou “vinte ou trinta anos”.

Este disco é u auto-retrato falado onde aparecem, dissimuladas , rugas que marcaram sua vida. Cartola não era uma pessoa queixosa, ressentida, como tantas que habitam o território da arte. E aqui fala sem amargura das vicissitudes que o obrigaram a vender direitos a intérpretes famosos (Chico Alves, por exemplo). Do tardio aparecimento em disco próprio. Da paciência com que enfrentou a obscuridade até quase o final da existência. E, entre outras revelações, afirma sua curiosa preferência pelo samba-canção.

Participei do lançamento do LP de estreia de Cartola na “Discos Marcus Pereira”. Eu era o diretor artístico da gravadora e o produtor João Carlos Botezelli (Pelão) procurou-me num bar, certa noite de 1974, para sugerir o trabalho. Fiquei empolgado. Botezelli, com o seu exagero peninsular, implorou dramaticamente a produção imediata do disco. Respondi, lembrando a renúncia de Jânio Quadros, que estávamos bebendo e não era aquele momento adequado para uma decisão histórica.

Adiei a resposta para o dia seguinte, quando falei com Marcus e, juntos, decidimos lançar aquele famoso primeiro LP. Agora, estou escrevendo essa nota de apresentação para o último LP. Um disco sem divisão de faixa, arranjos, orquestrais, convenções. Um disco original, simples e bom como o velho Cartola”

São Paulo, junho de 1982.

Aluízio Falcão

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Uma resposta to “VIVA O VINIL! CARTOLA – DOCUMENTO INÉDITO”

  1. Carlos Lourenço de Almeida Says:

    PARABÉNS! MEU MUITO OBRIGADO PELA OBRA.

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