ENTREVISTA COM RICARDO FLECHA, COMPOSITOR E CANTOR PARAGUAIO QUE CRIOU O PROJETO “CANTO DE LOS KARAI”

A América Latina é pródiga em criar talentosos, intrépidos e engajados artistas em todos os conteúdos e formas da estética. E quando se trata de música o universo desse tipo de artista brilha contagiante. Todos ligados, tantos as raízes de suas terras, como também as realidades da chamada sociedade modernas.

Embora o mercado da música de consumo capitalista seja cruel e voraz se impondo fortemente através dos meios de comunicação que são seus lugares tenentes no processual de alienação do ouvinte, esses artistas têm uma participação intrínseca na vida de uma grande parcela da sociedade América Latina. Visto que suas obras refletem e pensam a situação de opressão em que vive essa sociedade por força colonial e do imperialismo financeiro que não pretende espírito singular aos povos autóctones.

Ricardo Flecha, que a RBA entrevistou, e nós desse Esquizofia transcreve, faz parte deste devir-musical que implica, complica e explica a relação da arte musical com as tradições, lutas e anseios dos povos desse continente historicamente saqueado. Hoje, ele, além de participar de seus shows em várias do mundo, é membro da Comissão da Verdade, Justiça e Reparação do Paraguai que investiga os crimes de prisões, torturas e assassinatos cometidos pela ditadura do general Alfredo Stroessner que infelicitou o Paraguai entre os anos de 1954 e 1989, deixando atrás de si 425 pessoas assassinadas e mais de 20 mil pessoas presas.

Ricardo Flecha é autor do projeto Cantos de Los Karai onde gravou algumas obras raras do cancioneiro da América Latina, inclusive a Banda de Chico Buarque, em trilíngue: guarani, espanhol e português. Participaram no projeto insignes personagens como o escritor uruguaio, Eduardo Galeano, a música argentina, Mercedes Sosa e o cubano Sílvio Rodrigues, além de Chico. No ano passado ele lançou o álbum Donde La Guarania Crece.  

Leia a entrevista, se deleite e comente o devir-musical-politico da América Latina.

Seu último trabalho, lançado no final do ano passado, é o disco Donde la Guarania Crece. A guarânia, criada em 1925, reuniu importantes compositores paraguaios. Por que lançar um disco de guarânias hoje?

A arte é importante para ajudar as pessoas entenderem a realidade em que vivemos. É elemento de mudança e de construção de um país melhor. A guarânia é o nosso único gênero musical, criado por José Asunción Flores. Mas sua difusão foi ficando cada vez mais difícil. Durante a ditadura, tentaram proibir seus criadores e silenciá-los. Hoje, queremos renovar esse compromisso social, mas com voz própria, criando guarânias que falem de nosso tempo. Assim como o guarani, as guarânias nos identificam. Donde la Guarania Crece não é só um disco, realizamos também conversas e conferências sobre esse gênero musical, preocupados com a discussão da música popular. A guarânia resume o sentido do Paraguai: nasce na década de 1920 e 1930, quando tínhamos muitos problemas, como agora, e servia para nos unir. Nessa época de enfrentamento que vivemos, ela pode servir para unir nosso país.

Você é apontado como um dos representantes do Novo Cancioneiro Popular da América Latina. Como você definiria esse movimento?

Esse movimento continental reuniu, por exemplo, brasileiros da MPB como Chico Buarque de Holanda e Fagner, os chilenos Violeta Parra e Victor Jara, Tito Francia e Mercedes Sosa na Argentina, a Nova Trova cubana, com Silvio Rodríguez, e o nicaguarense Nicolas Godoy. Buscamos nossas raízes no folclore popular do nosso povo, não somente para inovações na música, mas principalmente por um compromisso social. Fomos, por isso, censurados durante as ditaduras latino-americanas, muitos também foram perseguidos, exilados e até mesmo assassinados. Esse movimento continental também estava, de alguma maneira, respondendo às agressões estrangeiras e às intromissões culturais de países hegemônicos, como os Estados Unidos. E daí, formamos essa corrente política, musical e filosófica sonhando com uma América Latina unida, com liberdade de expressão, livre de “ataduras” e ditaduras.

A ditadura paraguaia durou 35 anos e deixou profundas marcas, inclusive em seu trabalho.

Sim, afinal, fomos perseguidos e presos. Outros exilados. Mas seguimos, conseguimos sobreviver, embora a conjuntura política não tenha permitido a mesma sorte a outros companheiros. Durante o “stronismo” desenvolvemos nosso trabalho na clandestinidade, trabalhando próximos ao movimento campesino e aos operários, sobretudo junto ao movimento estudantil.

E a música também foi importante na conquista da democracia e no combate a essa realidade cruel?

O que a música faz, na verdade, é ser reflexo dessa realidade. Acredito que é muito arrogante pensar que uma canção transforma o mundo. Existe um ditado que diz que a música pode não mudar o mundo, mas, quando as coisas mudam, sempre vêm acompanhadas de uma canção. E é isso. A música, de alguma maneira, resume sentimentos, paixões, medos, alegrias, tristezas e nos faz pensar ao plantar interrogações. Mas o que transforma as coisas são as ideias coletivas, que primeiro nos fazem pensar o que fazer para, aí sim, mudar.

Dando um salto histórico, em 2012 o Paraguai viveu um golpe das elites do país. Como essas “ideias coletivas” estão sendo articuladas agora?

O Paraguai vive um momento complicado e estamos em retrocesso. Vivemos um período de transição que nunca acabava, até que, em 2008, o bispo Fernando Lugo chega ao poder graças à acumulação de anos de luta sintetizados nele. Lastimosamente, não pôde concretizar seu governo por uma série de fatores, mas teríamos que nos sentar em outra entrevista para analisar esse problema. O fato é que estamos de volta à resistência.

O presidente atual do Paraguai (Horacio Cartes) é suspeito de contrabando, com vinculação ao narcotráfico. Então estamos lidando com grande poder econômico e, sobretudo, com intervenção do Departamento de Estado americano. A luta é dura e o movimento está fracionado devido a esse golpe, mas realizamos muitas discussões em sindicatos e nas universidades sobre quais caminhos tomar. A cultura de resistência agora é muito importante e temos que voltar a nos organizar. Mas não perco a esperança. Mudanças chegarão, muito mais cedo do que se espera, “mais cedo do que tarde”, como dizia Salvador Allende.

Você é membro da Comissão da Verdade, Justiça e Reparação no Paraguai. Esse golpe de 2012 trouxe problemas para as investigações?

Sim, inúmeros problemas. O governo mudou e os que o apoiam tiveram ligação direta ou indireta com a ditadura, o que cria inconvenientes. Encontramos, por exemplo, 120 corpos de vítimas da repressão, mas ainda não foram identificados. Estão resolvendo quem deve pagar pelos exames de DNA. Então, imagine como nossa luta pela verdade se dá.

Como organizar essa cultura de resistência?

Publicamente, isso não posso te contar. Mas o movimento com mais força e consistência são os sem-terra no Paraguai. São os que têm, politicamente, mais claras as reflexões sobre o contexto do país e, sobretudo, com estratégias e formas de luta.

A concentração fundiária parece ser, portanto, o problema mais latente no Paraguai.

Exatamente, é isso que temos de mudar. O capitalismo não se pode humanizar. Quem diz isso não sabe o que é capitalismo. A nossa luta é para suplantar esse sistema com mais democracia. Mas agora não é possível, os representantes que temos não respondem às necessidades do povo paraguaio. Em momentos-chave de nossa história, eles sempre respondem aos interesses de empresas como a Monsanto ou a Cargill.

E caminhamos para uma integração da América Latina?

Os movimentos sociais estão de alguma maneira conectados. Temos problemas com nossos governos, mas há uma consciência de que esses governos são validos e é preciso construir uma democracia que realmente nos represente. O Paraguai, no entanto, está num momento crítico. Mas, como o subcomandante Marcos disse, temos que buscar o poder no povo, não em outras instâncias de poder. E nós não vamos esperar até chegarmos lá em cima, senão a democracia nunca mais desce.

E quanto ao socialismo do século 21, não vê esperanças?

É uma quimera isso, ainda estamos construindo o socialismo. O caminho que marcou Hugo Chávez é válido porque, sim, há que renascer o socialismo. O que parece é que a América Latina necessita pensar esse socialismo sem os paradigmas europeus, mas com nossos próprios pensadores, intelectuais e artistas, desenhando o mundo que queremos. Chávez tinha a ideia do socialismo no século 21, mas é uma ideia. Ainda temos que construí-lo no dia a dia, batalhar o consenso para que a democracia seja uma realidade e não um remendo, como é agora.

E a sua música está embalando essas transformações?
Quero que minha música, mais que nada, acompanhe a luta dos companheiros sem-terra e dos estudantes. Que ajude a pensar no tipo de socialismo que queremos, acompanhando as lutas pela democracia no Paraguai.

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