VISITA DA JUVENTUDE*

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Madrugada de um dia de abril, do ano de 1972. O ônibus transita no meio da estrada de barro Belém-Brasília (BB) com destino à capital paraense. De repente, o motorista observa uma barreira feita por um caminhão do Exército. Um militar faz gestos para que ele pare o ônibus. Ele para, abre a porta do veículo e o militar, acompanhado de outros militares, se aproxima e diz que vai ter que revistar os passageiros, porque há informação de que guerrilheiros-terroristas estão agindo na região.

Os passageiros descem, e os militares iniciam a revista. Um soldado se aproxima de um jovem de 20 anos e pede que ele lhe entregue a mochila. O rapaz entrega, o soldado abre a mochila e despeja todos os objetos contidos nela, no chão. Ele se abaixa para revista-la e observa, entre as roupas do rapaz, três  livros: o Teatro Dialético de Brecht, O Teatro Político de Erwin Piscator e Contribuição à Crítica da Economia Política de Marx e algumas revistas em quadrinho. O soldado, com ímpeto ficou em pé e chamou o Capitão.

O capitão se aproximou e ele disse que o rapaz carregava livros subversivos. O capitão pegou os livros, deu um sorriso sádico, e afirmou que era verdade: os livros eram comunistas. Olhou com ódio o rapaz e disse que ele ia saber os que eles faziam com comunistas. E mandou o soldado algemar o rapaz. Em seguida, mandou tirar o caminhão da estrada e ordenou o motorista continuar a viagem.

O rapaz tentou explicar que era estudante universitário e que fazia parte de um grupo de teatro, e que os livros, um professor da Universidade Nacional de Brasília, havia lhe dado, mas teve como entendimento um forte murro no estômago que o levou ao chão. O capitão ordenou que o conduzissem para a floresta. Depois de ser violentamente torturado os militares o fuzilaram

Três horas da madrugada, de um dia do ano de 2014. O professor-aposentado acordou em pânico. A respiração ofegante e o coração palpitando fortemente expressavam sua angústia. Foi até cozinha, tomou um copo com água, ainda dominado pelas imagens oníricas, voltou para o quarto e sentou na beira da cama. O rapaz sorriu para ele balançando a cabeça. Ao seu lado, o professor da Universidade de Brasília disse que a repressão à guerrilha do Araguaia, Xambioá, estava braba, e que era melhor ele ir pela Belém-Brasília, e desapareceu.

Ele também sorriu e perguntou ao rapaz, se diante de toda a repressão, ele não tinha imaginado que poderia acontecer o que aconteceu. Ao que o rapaz respondeu afirmando que o que ele mais queria era devorar aqueles livros e montar novas peças-populares. E que para ele, foi o melhor legado daquela viagem pelo Brasil, vivendo no meio dos falsos malucos, delirantes, desempregados, mendigos, retirantes, perseguidos, hippies, gente que chegou atrasado para o Festival Woodstock. E acrescentou, que a prova maior de o que ocorreu foi transgressão, era o que tinha se dado a pouco com.

O professor-aposentado pegou-o pela mão esquerda, conduziu até a biblioteca, tirou o livro Teatro Político da estante, abriu na primeira página e mostrou a assinatura do professor da Universidade Nacional de Brasília. O rapaz soltou uma gargalhada amigável balançando a cabeça com assentimento, pegou o livro, abriu na página 143 e leu o trecho que estava sublinhado:

“O nosso teatro nada mais será do que um teatro revolucionário que intervém para libertar ideologicamente o proletariado, para propagar uma transformação social que, com o proletariado, liberte também o teatro de todas suas contradições”.

O rapaz devolveu o livro ao professor-aposentado que o recolocou na estante e convidou o rapaz para tomar uma cerveja. Quando o rapaz deu o primeiro gole, ele percebeu que o rapaz estava estranhando o sabor da cerveja. Não era a que tomava junto com os companheiros e companheiras. Mesmo assim, não tomaram uma, mas várias cervejas conversando sobre seus fatos da vida. Amigos, amores, trabalhos, greves, loucuras, cinema, teatro, música tudo implicado em enunciados políticos.

O sol já mostrava seus primeiros clarões quando eles se levantaram e foram para o quarto. O professor-aposentado deitou na cama, cerrou os olhos, sentiu um beijo em seu rosto e dormiu.

*Conto do livro, em preparação, Contos Sem Dez Contos. 

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