A FRAGMENTAÇÃO ONTOLÓGIA DO SER COMO TRANSCENDENTALIDADE NO TEATRO DA CRUELDADE DE ARTAUD

capa 001

Há homens que nascem intempestivos em dois sentidos. Um quando não é para sua época presente, mas para o futuro. O filósofo Nietzsche, já tratou sobre esse tema: “para uma filosofia para depois de amanhã”. E outro quando é carregado por uma condição ontológica que não encontra respostas junto dos homens que lhe rodeiam. Esse homem intempestivo duplamente é Artaud. Tanto como homem-cidadão e como homem-artista, escapou de seu tempo. A incompreensão sobre seu Teatro da Crueldade confirma essa variável-intempestiva que ele foi.

Certa vez, depois de ouvir centenas de vezes a voz “normal” da psiquiatria, lhe rotular de esquizofrênico, pronunciou seu aforismo filosófico: “Não sofro de doença mental, mas da fragmentação do ser”. A psiquiatria não entendeu o sopro ontológico que Artaud verbalizou. O que ele tantas vezes verbalizou através de seu teatro e que a maioria do público, também, não atingia a dimensão.

Artaud trata do desmembramento do ser não porque ele acredite que haja uma unidade ontológica do ser, mas porque o ser como vida ainda não se deu. Estar fragmentado é ainda não ter se dado. Ele quis dizer que “ainda não nascemos”, por isso a fragmentação.

“Nós ainda não nascemos.

Ainda não estamos no mundo.

Ainda não existe mundo.

As coisas ainda não se fizeram.

A razão de ser não foi achada…”

De seu Tetro da Crueldade poucos tiveram entendimento e profundidade muito menos. Sem ontologia poética é impossível atingir a alma do poeta. A ontologia poética nos faz descarnar, escapar como fruição do que se quer ter como mundo. É o que ele nos diz em Cartas sobre a Crueldade.

“Não se trata, com essa Crueldade, nem de sadismo, nem de sangue, pelo menos de modo exclusivo… Pode-se muito bem imaginar uma crueldade pura, sem dilaceramento carnal. E, aliás, filosoficamente falando, o que é a crueldade? Do ponto de vista do espírito, a crueldade significa rigor, aplicação e decisão implacáveis, determinação irreversível, absoluta.

O determinismo filosófico mais usual é, do ponto de vista de nossa existência, uma das imagens da crueldade.”

Mas Artaud tem uma forma clara e suave de tratar a crueldade para quem tem medo da crueldade como conceito ontológico-ético-estético. O que lhe leva a rejeitar a crueldade sem saber que ela é quem afirma e exalta a vida.

“O Teatro da Crueldade foi criado para devolver ao teatro a noção de uma vida apaixonada e convulsa; e é neste sentido de rigor violento, de condensação extrema dos elementos cênicos, que se deve entender a crueldade sobre a qual ele pretende se apoiar”.

Há sinais por toda parte do desmembramento do ser que ele mostra. Ou, que ele apanhou como sentido de crueldade e que cria pavor aos que abdicaram da vida. Falar de “apetite da vida, rigor cósmico e necessidade implacável”, ameaça à insegura-segurança de quem foge da crueldade.

“A crueldade não é algo que acrescentei a meu pensamento, ela sempre viveu ali: mas eu tinha de tomar consciência dela. Uso a palavra crueldade no sentido de apetite de vida, rigor cósmico e necessidade implacável, no sentido gnóstico de turbilhões de vida que devora as trevas, no sentido dessa dor fora de cuja necessidade inelutável a vida não consegue se manter; o bem é desejado, é o resultado de um ato, o mal é permanente…”

Essa contínua evanescência ou névoa turbilhonante, foi traduzida por Artaud como  “um corpo sem órgão”. Conceito apanhado pelos filósofos Deleuze e Guattari para melhor fazer entendida a Filosofia da Diferença.

Aqui podemos encontrar uma singela mostra do que ele sintetiza como desmembramento do ser de seu Teatro da Crueldade.

“Se o signo da época é a confusão, vejo na base dessa confusão uma ruptura entre as coisas e as palavras, as ideias, os signos que são a representação dessas coisas”.

Artaud nos proporciona a linha intensiva do passeio do esquizo.

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: