ANDRÉ GIDE POETISA A MANIFESTAÇÃO DO SER NO TEATRO DE ARTAUD

Antonin-Artaud

O passeio esquizo de hoje, dia 10, encadeia-se com a linha de indiscernibildade movimentada ontem, dia 9, sobre o deslocamento do Teatro da Crueldade de Antonin Artaud, onde se observa a busca do ser ou a manifestação do ser como vida para o artista que entendeu muito melhor a filosofia da existência que certos filósofos que trataram intelectualmente esse sentido ontológico.

Para atender melhor os amigos desse esquizofia, vamos transcrever o texto composto pelo escritor e poeta francês André Gide, onde ele faz uma verdadeira movimentação criadora sobre um espetáculo de Artaud. Como os amigos vão perceber e entender, é de uma singela e suave fluência por poética.

A SESSÃO DOS VIEUX-COLOMBIER

“Lá, no fundo da plateia – desta querida e velha plateia do Vieux-Colombier, que poderia comportar aproximadamente trezentas pessoas – uma meia dúzia de gozadores que vieram a essa sessão com a esperança de se divertir”! Oh! Eu pensei que eles seriam contidos pelos amigos fervorosos de Artaud, espalhados pela sala. Mas não: após uma tímida tentativa de vaia, não foi mais preciso intervir… Assistimos a um espetáculo prodigioso: Artaud triunfava, impunha-se à zombaria, à agressão insolente; ele dominava…

Conhecia Artaud há muito tempo, como também sua angústia e seu talento. Jamais ele me parecera tão admirável. De seu ser material só transparecia o que nele havia de expressivo. Sua enorme silhueta desengonçada, seu rosto consumido pela chama interior, aquelas mãos de quem se afoga, procurando um inatingível socorro ou retorcidas pela angústia, no mais das vezes estreitamente coladas ao rosto, escondendo-o em alternância, ao mesmo tempo em que lhe contava a abominável angústia humana, uma espcie de danação sem recurso, sem escapatória possível, a não ser através de um lirismo violento, que só chegava ao público por meio de explosões ordinárias, imprecatórias e cheias de blasfêmia.

E no entanto reencontrávamos aí o ator maravilhoso que esse artista podia tornar-se: mas era ele próprio como personagem que ele oferecia ao público, numa espécie de cabotinice desavergonhada, na qual transparecia uma autenticidade total. A razão batia em retirada; não unicamente a sua, mas a razão de toda a assistência, de todos não, espectadores deste drama atroz, reunidos ao papel de comparsas malévolos, debochados e grosseiros. Oh! Não, mas ninguém, na plateia, tinha vontade de rir; e inclusive, Artaud nos tinha tirado a vontade de rir por muito tempo. Ele nos havia atraído para seu jogo trágico de revolta contra tudo aquilo, admitido por nós, para ele permanecia mais puro e inadmissível:

“Nós ainda não nascemos.

Ainda não estamos no mundo.

Ainda não existe mundo.

As coisas ainda não se fizeram.

A razão de ser não foi achada… “

 Ao sair desta memorável sessão o público se calava. Que se poderia dizer? Acabávamos de ver um homem miserável, atrozmente sacudido por um deus, como que no liminar de uma gruta profunda, antro secreto da sibila, onde nada de profano é tolerado, onde, como em um Carmelo poético, um vate é exposto, oferecido aos raios, aos abutres vorazes, ao mesmo tempo sacerdote e vítima… Todos se sentiam envergonhado de retomar lugar em um mundo no qual o conforto é formado de compromissos”.

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