Archive for Julho, 2014

12ª FEIRA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PARATY FAZ HOMENAGEM A MILLÔR FERNANDES

Julho 31, 2014

A cidade de Paraty, no litoral sul fluminense, recebe a partir desta quarta-feira (30) a 12 Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que este ano homenageia Millôr Fernandes (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Começou ontem, dia 30, e vai até domingo, dia 3, a 12ª Feira Literária Internacional de Paraty (Flip) que homenageia nessa edição Millôr Fernandes. Escritor, jornalista, desenhista, chargista, roteirista, cartunista e defensor da liberdade de expressão, posição que o colocou como um dos intelectuais brasileiros sob a opressão da ditadura civil-militar, Millôr Fernandes, escapa, em virtude de sua realidade ontológica, prescinde de homenagem, mas como se trata de formalizar um evento literário da importância e honestidade da Flip, é aceitável a homenagem. Sem dizer que seu reconhecimento também vem de seu talento de tradutor. Traduziu de Shakespeare a Ibsen.A cidade de Paraty, no litoral sul fluminense, recebe a partir desta quarta-feira (30) a 12 Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que este ano homenageia Millôr Fernandes (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Como ocorre em toda edição da feira, haverá uma programação orientada para criança, a já conhecida Flipinha. Uma parte dessa programação expressará danças dos índios guaranis, já que a questão indígena é uma dos temas da feira.925001-feira%20do%20livro-5950 925002-feira%20do%20livro-5974

A Flip, além de realizar os debates com os temas referentes a sociedade e a literatura, também realizará o tradicional evento gastronômico onde são apresentadas receitas dos chefs de Paraty, assim como os nomes de restaurantes.

Na parte artística-musical, a cantora Gal Costa juntamente com o canto Felipe Guaraná, fizeram a abertura da Flip. Na agenda constam 200 atividades entre projeções de cinema, lançamento de livros, debates e shows. Os organizadores da feira acreditam que o evento vai receber mais ou menos 25 mil pessoas.925000-feira%20do%20livro-5945 924998-feira%20do%20livro-5794

Para edição deste ano, os organizadores tiveram um saque democrático que antes não tiveram: colocaram um telão na Praça da Matriz onde serão projetadas as ocorrências literárias internas. Antes era só para privilegiados. Como alguém poderia dizer: “Coisa de literatos burgueses”.

“Sempre tivemos essa preocupação com a inclusão. Este ano temos um telão na Praça da Matriz e queremos divulgar ainda mais a transmissão ao vivo online para as pessoas de todo o país verem e a Flip não ficar restrita a quem está dentro da tenda e em Paraty”, observou Paulo Werneck, o curador da Flip.

 A verdade de que a Flip era emburguesada se encontra na observação feita por Daniel de Jesus Lima, 53 anos, produtor cultural e propagador de um sebo itinerante e que mora em Paraty há literariamente 20 anos.

“Nas outras Flips as pessoas diziam que havia os privilegiados do outro lado de dentro e os que não tinham dinheiro não podiam ver, então, abrir foi muito bacana”, analisou a questão antes emburguesada.     

VIVA O VINIL! NELSON SARGENTO – SONHO DE UM SAMBISTA

Julho 30, 2014

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Em fevereiro de 1979, o Estúdio Eldorado gravou uma das mais importantes obras musicais do cancioneiro brasileiro: “Sonho de Um Sambista com Nelson Sargento”. Bolacha crioula joia-raríssima, raridade no mundo sonoro brasileiro, principalmente por se tratar do ritmo democrático: o samba.

Hoje o vinilesquizofílico tem três potências intensivas para desterritorializar-se : o Viva o Vinil, o primeiro LP do sambista e a comemoração dos 90 anos desse sambista original, Nelson Sargento, que ocorreu no dia 25 desse mês. É só alegria e muita vibração.

Sem mais delongas, vamos logo ao tema revelador que trata do assunto, o sambista Nelson Sargento que no auge de seus saudosos e ativos 90 anos, continua mandando ver ou mandando brasa. Como diz Nietzsche, ele não pediu descanso à vida.

Mas quem tem que escrever sobre a bolacha crioula é Arley Pereira que apresentou a obra em sua contracapa. Manda ver, Arley Pereira.

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 “São Paulo, fevereiro, 79.

Nelson,

Ontem o Pelão telefonou: ”Guardei pra você a contracapa do LP do Nelson Sargento, que a gente acabou de gravar”. E a velha raiva-amor voltou ao peito. A raiva santa contra o Pelão, que mais uma vez chegou primeiro, uma abençoada pressa que já deu à música popular brasileira o registro do trabalho-antologia de gente como os nossos Cartola, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho e tantos mais, um trabalho de necher o peito de inveja.

Quem não gostaria de ter feito?

E o home não para por aí, não.Sem mais aquela, joga na cara do mundo a importância de ter gravado – no selo prestígio Eldorado – nada menos, nada mais que Nelson Sargento.

É quando o amor se funde à raiva. O amor de ouvir vendo o velho amigo. Reconhecendo na voz a figura magra, calva e sorridente que conheci debruçado num inacreditável violão pintado de verde, contribuindo com parcela básica para a ressureição da música popular brasileira participando com seus sambas “Rosa de Ouro” musical-ventre que gerou o interesse de toda uma geração pela nossa cultura musical popular, acabando com o “rock” da mesma maneira como não se deixará sufocar pela “discoteque”.

Quantas vezes “dividimos” o “Rosa”, vovê no palco (mais Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Anescarzinho do Salgueiro, Clementina de Jesus e Aracy Cortes), eu na plateia! Os improvisos dos partido-alto-descobertos então pela classe média, que chamava qualquer samba de empolgação de “partido-alto” – rimando brincadeiras entre os sambistas e nós, os mais chegados. Quantas vezes, madrugada fria de São Paulo requerendo a competente cachaça ou a sua favorita “caipirinha”, ouvi casos e coisas da mangueira, cantadas nos seus sambas ou cantadas nas suas gargalhadas, que estremeciam as mesas do “Parreirinha”?

Quantas vezes, Nelson Sargento, nesse início de amizade que desagua em tantos bons momentos, principalmente no meu amor pela Mangueira, pelo qual – único mangueirense no “Rosa”, além da mãe Clementina – cabe à você parte da responsabilidade, o samba esteve presente? Acredito que em todas.

Não tenho lembrança de Nelson Sargento, sem o violão verde – cordas de aço sambas de fina ironia, se competente humor, de deslumbrado amor – sem um samba na boca, seu ou da “gente grande” da Mangueira, já que sabe tudo que os velhos da “Manga” compuseram. Lembra aquela tarde, na casa de Carlos Cachaça, quando você cantou para o Cartola oito sambas dele, que ele mesmo já não lembrava? E da sua promessa, provocando o Velho Divino: “Se me der parceria, canto mais oito”?

Entrar de graça em samba alheio é coisa que seu talento jamais permitirá, Nelson Sargento. Mesmo sem as fulgurações da fama, sem o faturamento do sucesso, guardada em sua humildade, a altivez do sambista respeitado e acatado na colina verde-e-rosa, reduto de gente como Cartola, Xangô, Padeirinho, Preto Rico, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Darcy, Pelado e outros tantos, resistirá sempre. Fazendo sambas de qualidade de “Cântico à Natureza” (ah, vivo fosse o Alfredo Português, padrasto de parceiro, marcado ritmo nos tamancos e quantas outras belezas como estes versos de antologia: “Desabrocham as flores/nos campos nos jardins/e nos quintais/A Primavera é a estação/dos vegetais”) e tantos outros que se não chegaram ao triste destino das paradas de sucesso, alcançaram o respeito e a admiração de seus pares nessa corte maravilhosa que é o Reino Mangueira, do qual só faz parte quem nasce sambista de verdade.

A última vez que nos vimos, foi no seu barraco, lá no “Chalet” da Mangueira. Como você mesmo diz, “se virar o morro de cabeça para baixo, minha casa é a segunda, à esquerda de quem sobe…” Lá no alto, entre um gole e outro, lembrando coisas (como aquela vez que você pintou meu apartamento de sala-e-quarto, num tempo recorde de… dois meses: para cada pincelada, eram necessários dez sambas no violão verde e três “bem geladas” nos copos), você dizia que um dia as coisas mudariam, uma flor iria se abrir. Você já não ora no Chalet, deixou de pintar paredes para se transformar num quase bem sucedido pintor de telas e a flor ameaça se abrir.

O canteiro é este Lp inteiro, feito por quem sabe, para os que sabem ou pretendem saber. Esta é a tua flor, queira Deus que a primeira de todo um jardim. Uma flor importante não só para você, mas também para a música e a cultura popular, feitas por gente que como você tiram da sensibilidade, da inspiração e da arte das quais são íntimos o que não foi possível buscar nos livros.

Acabaram-se raiva e inveja. Maiores que elas, o prazer de estar ouvindo você, enquanto escrevo, a certeza de que a importância do seu trabalho começa a ser reconhecida. E já que daqui de São Paulo, não posso dar o abraço que queria, mando uma certeza: o violão verde que você me deu está aqui na parede, na minha frente, as cordas de aço mudas. Mudas e tristes por não terem sido elas as que acompanham a sua voz, no LP de estreia. Mas disso a culpa é minha, culpa inteiramente justificada pela certeza de que o presente foi sincero. Como sincero é o desejo do sucesso que eu acredito esteja – finalmente – reservado para você, seu talento e sua esplendida figura humana.

 Um abraço verde-e-rosa do

Arley Pereira”

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Lado – A

Triângulo Amoroso/Falso Moralista/Agoniza Mas Não Morre/A Noite Se Repete/Muito Tempo Depois e Minha Vez de Sorrir.P1000421

 

Lado – B

Sonho de Um Sambista/Infra Estrutura/Primavera/Por Deus Por Favor/Falso Amor Sincero e Lei do Cão.

Ficha Técnica

Regência: Luiz Otávio Braga.

Arranjos: Luiz Otávio Braga, Maurício Lana Carrilho e Luiz Moura na faixa A Noite Se Repete”.

Músicos eu participam do Disco.

Luiz Otávio Brag, Maurício Lana, Luciana, Renato, Téo, Lelei, Bigode, Bibi, Mussum, Branca de Neve, Chiquinho, Azevedo, Gersão e Aeloá.

Capa: Zé Maury.

Foto: Sérgio Pimentel.

Escute e veja o vídeo onde Nelson Sargento e a cantora Tereza Cristina, cantam Samba Agoniza, mas não Morre. 

COORDENADORA DO FESTIVAL LATINIDADE: GRIÔS DA DIÁSPORA NEGRA AVALIA O EVENTO E DIZ QUE O PRÓXIMO SERÁ, CINEMA NEGRO

Julho 29, 2014

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Com o fim do Festival Latinidade: Griôs da Diáspora Negra, realizado do dia 23 ao dia 28, ontem, em Brasília, a coordenadora do evento, Jaqueline Fernandes, fez uma avaliação sobre sua realização e já adiantou qual será o tema do festival de 2015: Cinema Negro. Ela também tratou da importância de Brasília sediar o festival. Para ela, Brasília, é um lugar de grande expressividade da cultura negra.924793-festival%20latinidades_vac9633

“Queremos discutir o papel da mulher negra nessa cadeia cinematográfica, o seu protagonismo na produção e também como atriz. Na África, por exemplo, as pessoas não conhecem a vasta produção da Nigéria, em obras que se espalham pelo mundo.

Queremos formar cineclubes que possam sair do Plano Piloto, assim como estamos hoje em uma casa de santo na periferia.

Não tem no imaginário a presença de negros em Brasília – as pessoas pensam que são minoria, quando na verdade uma pesquisa do Codeplan, iz que a população negra do Distrito Federal é mais que 50% do total. A pesquisa fala também onde essa população está presente: nas periferias e nas paradas de ônibus do Plano Piloto.

Tem pessoas do mundo todo vindo para Brasília discutir igualdade racial e de gênero, debater políticas públicas. É esse o espaço de protagonismo da mulher negra, aqui é a capital e que espera-se que ela seja um espelho para o país.

Tivemos ali gente discutindo sobre os griôs da diáspora e pontuando diversos saberes. Lançamos um olhar sobre o que é mesmo um griô, essas mulheres incríveis, que têm conhecimento em várias áreas, com práticas em diferentes momentos, oficina de capoeira, trabalho de benzedeiras, encontro de saberes dentro da academia, da cultura popular e do samba, por exemplo”, avaliou Jaqueline Fernandes.

COM O TEMA REFLEXÕES SOBRE A PALAVRA SERÁ REALIZADO DO DIA 1° AO DIA 10 O FESTIVAL LITERÁRIO DE VOTUPORANGA (FLIV)

Julho 28, 2014

Contando com as participações dos escritores Paulo Lins, Ronaldo Correa de Brito, Chacal, Ignácio de Loyola Brandão, Alice Sant’Anna, Cristovão Tezza, Luiz Ruffato, Antônio Geraldo Figueiredo Ferreira, e os roteiristas Fernando Bonassi e Luiz Bolognesi, além do músico Marcelo Yuka, será realizado entre os dias 1° e 10 de agosto o 4º Festival Literário de Votuporanga organizado pela Associação Cultural Moinho de Ideias, tendo como parceria a prefitura.

O tema do festival será a reflexão sobre a essência ou eidos da literatura: a palavra. Os participantes estarão discutindo esse tema em suas várias formas de expressão singular. Os autores falarão para o público como fazem o uso da palavra em suas criações literárias. É lógico, que tentaram mostrar que a palavra vai além da nota shakespeariana: “palavras são palavras nada mais do que palavras”.

Mas o debate não fica apenas no sentido da palavra nas obras literárias, mas também como a palavra é usada nas ruas, nos locais públicos e nos territórios virtuais como a internet.

 “Numa época sem utopia, a palavra oferece a sua resistência à massificação. Levanta bandeiras, cria histórias e procura se expressar na prosa e na poesia. É a palavra ganhando corpo nas manifestações, sonhando um caminho para o Brasil”, observou o curador do evento, Heitor Ferraz Mello.

Para o roteirista Fernando Bonassi, sua ideia é mostrar as relações entre a literatura e o cinema.

“A ideia é mostrar as semelhanças entre as duas linguagens, sobretudo na criação de narrativas, roteiros e universos fictícios”, disse Bonassi.

Durante a realização do festival haverá participação de alguns artostas, como Chico César, Sérgio Reis, Renato Teixeira, Viola Caipira, Orquestra Paulistana Viola Caipira, Jorge Aragão e Biquini Cavadão.

Vamos nessa, moçada, debater quem é o sujeito coletivo de enunciação e o sujeito do enunciado. Onde a semiótica é arborescentes, aquela que oprime, e onde ela é rizomática, aquela que carrega potência intensiva de fluxos libertadores, como poderiam ensejar os filósofos Deleuze e Guattari.  

JUREMA WERNECK, DOUTORA EM COMUNICAÇÃO E CULTURA, DIZ QUE O SAMBA FOI O GRANDE FATOR DA LUTA DAS MULHERES NEGRAS

Julho 27, 2014

O Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, será lembrado com uma série de atividades no Festival Latinidades Edição 2014 Griôs da Diáspora Negra(Antônio Cruz/Agência Brasil)

Falando no Festival Latinidade: 2014, a médica, doutora em comunicação e cultura, Jurema Werneck, afirmou que o samba foi o grande fator na luta pela emancipação das mulheres negras. A luta vem de muitas décadas, disse Jurema. Essas mulheres ativistas eram conhecidas por ialodês. De acordo com o tempo, suas lutas passavam a outros seguimentos necessários a liberdade delas.

Nas décadas de 30,40 e 50 suas lutas eram por educação, creches demandas do Estado. A própria história de Jurema confirma essas lutas. Sua avó era analfabeta, sua mãe fez até o ensino fundamental. É preciso continuar lutando porque o racismo não desapareceu.

Para sua tese de doutorado, Jurema, tomou como elementos de pesquisa as criações e atuações das sambistas como, Jovelina Pérola Negra, Elza Soares, Leci Brandão. Martinália e Alcione. Segundo seu entendimento, Jovelina Perola Negra, luta para afirmar que todas negras eram como ela: uma pérola negra. Jurema disse que Jovelina mostrou sua posição logo na capa do primeiro disco quando colocou seu rosto em close, sem maquiagem e com um pano na cabeça.

“Com que se parece? Com minha tia, minha mãe, minha vizinha”, disse Jurema.

Ela disse também, que a luta contra o racismo é cotidiana e que essa luta aparece claramente na cultura popular.

“Hoje está difícil, mas não se compara. O racismo não desaparece por decreto, desaparece na luta cotidiana. Se o racismo é essa coisa horrível imagina a conquista dessas mulheres para aparecerem na cena pública.

Se se pensar em nome de mulher negra que não é anônima, vai-se pensar em nomes que estão na cultura popular. O caso de Elza Soares, ela cantou para ganhar dinheiro para poder alimentar o filho. Por isso, afirmou que o planeta do qual vinha: o planeta fome.

Se forem ler uma entrevista com a Elza Soares, todo mundo quer que ela conte essa história e sempre dizem em seguida, ‘apesar disso, ela tem força, foi longe’. Como se o problema estivesse resolvido e só ela tivesse nascido neste contexto. Tentar isolar ela da comunidade, mas todo mundo sabe que têm pessoas que tem essa carga de desafios”, analisou Jurema.

Escute o vídeo com Leci Brandão, cantando sua composição comprometida socialmente, Zé do Caroço, com a talentosa Mariana Aydar.

CAROLINA MARIA DE JESUS SERÁ HOMENAGEADA POR SEU CENTENÁRIO NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER NEGRA, LATINA E CARIBENHA

Julho 26, 2014

No começo da década de 60, o jornalista engajado Audálio Dantas, conheceu em uma favela no Canindé, na Zona Norte de São Paulo, uma mulher talentosa, inquieta e ativista: a negra semialfabetizada e catadora de lixo, Maria Carolina de Jesus.

Na verdade, uma escritora que escreveu a obra: Quarto de Despejo – Diário de Uma Favelada, que chegou a vender mais de 80 mil exemplares e traduzido para 15 línguas estrangeiras. Além do Diário, Carolina, também escreveu outros livros, como Pedaços de Fome, Provérbios e o Diário de Bitita, publicado postumamente.

No ano de 1971, a cinegrafista alemã, Christa Gottmann conheceu o Diário e realizou um documentário. Só que ficou durante anos em uma cinemateca do interior da Alemanha. Dizem que foi resultado de um acordo entre o governo militar brasileiro da época, com o governo alemão, porque os militares repudiavam criações que abordavam temas sociais. Todas as ditaduras usam da mesma prática coercitiva.

Mas, historicamente, para o bem da arte e do público, não adiantou nada a censura-militar. Pesquisadores do Instituto Moreira Salles encontraram o filme na dita cinemateca, realizaram a restauração e a legendação. E a obra ficou joia, pronta para ser exibida e assistida.

Como esse ano reflete o centenário do nascimento de Carolina, seu registro mostra que ela nasceu em 1914, e hoje, dia 26, é comemorado o Dia Internacional da Mulher Negra, Latina e Caribenha o Programa AfroeducAção no Cinema decidiu realizar uma homenagem à autora exibindo três filmes sobre sua vida.

Os filmes são:

Favela – A Vida na Pobreza, documentário da cineasta alemã Gottmann.

Vidas de Carolina, documentário de Jéssica Queiroz e Débora Garcia.

Carolina, roteirização realizada por Jefferson De, das principais passagens da vida da escritora localizadas em um quarto onde ela mora com a filha Vera Eunice.

Detalhe do evento-fílmico: haverá um debate, após as exibições, com as participações de Jéssica Queiroz, Débora Garcia e a filha de Carolina, Vera Eunice de Jesus. A entrada, mano? É grátis. Vai lá!

Vejam e escutem os comentários sobre Favela feitos por Otto Engel e Ricardo Stein.

PASSEIO KINEMA-HISTÓRICO

Julho 25, 2014

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“Os iniciadores do processo cinematográfico foram os inventores, mas somente na obra dos artistas é que a invenção adquiriu sua função criadora”  John Howard Lawson.

O passeio de hoje percorre, além de alguns elementos da criação cinematográfica, imagens, também conhecidas como lâminas ou fotogramas e os primeiros estúdios. Como diria Godard: ”Cinema é a vida se repetindo 24 fotogramas por segundo”. Antes, porém, com toda vênia dos ilustres passageiros-kinema-históricos, gostaríamos de oferecer esse imagético passeio a um companheiro engajado nessa estética audiovisual. Que em verdade, é mais visual. O kinema-real é a arte da visão. A sonorização é um corpo sedutor acoplado no movimento imagético.

O companheiro em questão, é o cinegrafista argentino, Lyonel Lucini. Lyonel Lucini foi professor de cinema da Universidade Nacional de Brasília (UNB) cassado pelos militares no começo da década de 70 e criador de um dos melhores documentários sobre manifestação cultural-sacra: A Festa do Divino, além de outros documentários. Como cineclubista, foi também um dos criadores do Cine Clube de Brasília, um dos mais importantes do Brasil. Escreveu sobre cinema no Jornal Correio Brasiliense, no seu Caderno de Cultura.

Lyonel sabia da dimensão filosófica do olhar. Mesmo quando não estava com a câmara focada seus olhos pareciam evidenciar um objeto que logo era transposto para a situação de imagem. Há um fato na produção de Lyonel que poucas pessoas conhecem. Embora tenhamos tido pela primeira vez contato com ele em Brasília, todavia nossa relação permaneceu por alguns anos. Volta e meia ele se fazia presença aqui em Manaus. Numa dessas volta e meia ele participou de um trabalho sobre doença de Chagas feita com pescadores.capa 002 capa 004 capa 005

Uma companheira nossa, que é médica, ainda em 70 elaborava um trabalho de tese sobre a doença e seu campo de pesquisa era a beira do Mercado Municipal, onde ela colhia sangue dos pescadores que chegavam em seus barcos com seus pescados para distribuir aos vendedores. Lyonel durante o trabalho não desperdiçou a ocasião e passou a fotografar. Um trabalho inédito dele.

Foi ele que nos apresentou o cinema como uma arte revolucionária e necessária para desvelar a dominação sobre os sentidos e a inteligência. E ainda nos proporcionou um bom número de literatura kinemasófica quando do nosso primeiro encontro, em Brasília. Que por intenção, estão sendo usadas nesse Passeio Kinema-Histórico.

No ano de 2005, o engajado Lyonel Lucini, realizou seu Plano Panorâmico. Um plano em que a câmara se movimenta sobre seu eixo em 360º.capa 003 capa 007

Então os irmãos Lumieré diante de seu cinematógrafo disseram: “No futuro, o cinema só poderia vir a servir como curiosidade científica”. George Méliès imaginou: “Curiosidade científica, é? Pois tá! Deixa comigo”. Comprou, por um bom preço, dos desesperançados irmãos, o brevet, e com seu tino comercial, passou a realizar, com sua imaginação, filmes com crivo fantasioso através de truques inventados por ele. Em 1902, realizou a famosa Viagem à Lua. Na época, (e por que não dizer, ainda hoje?) os cenários arrepiaram os espectadores, assim como as indumentárias e adereços cênicos. Observemos as lâminas. Vejamos a Conquista do Polo e a Fantasia Submarina. Loucura, manos!capa 006

Mesmo assim, os irmãos cinematografamentedesesperançados, ainda realizaram  A Saída dos Operários da Fábrica, O regador, Regado, A Comida do Bebé, O Mar, a Pesca, a famosa Chegada do Trem na Estação da Cidade.

Vejamos mais duas lâminas, uma de Charles Pathé que aproveitou o Kinetoscípio de Edison e realizou várias películas. Outra do primeiro grande mestre do cinema David Wark Griffith. No caso em questão, Nascimento de Uma Nação. Uma apologia a luta sulista-racial da Ku Klux Klan contra os negros e A Queda da Babilônia.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     

ARIANO SUASSUNA O CANTO ALEGRE DE DIONÍSIO

Julho 24, 2014

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O filósofo alemão Nietzsche em sua obra Origem da Tragédia, pergunta: “O que é o espírito dionisíaco?” Ele responde: “É a alegria, a vontade, a saúde exuberante e o excesso de vitalidade”. Em sua outra obra A Visão Dionisíaca do Mundo, ele afirma que “as festas de Dionísio não afirmam apenas a ligação do homem entre os homens, elas também reconciliam homem e natureza”. E em outra parte da obra, ele demonstra que “o caráter artístico dionisíaco não se mostra na alternância de lucidez e embriaguez, mas sim em sua conjugação”.

Analisando sua obra e compreendendo seu modus de ser não como não perceber a vontade de alegria, a vitalidade criativa e a reconciliação homem natureza dionisíaca em Ariano Suassuna. Por onde transita, Ariano Suassuna, sopra a potência do cômico criador e transformador que nos oferece o deus da vida: Dionísio. Ele soube como capturar seu espírito e seu caráter artístico que servem às vibrações do existir.

Todas suas obras carregam potências alegres necessárias para se conjugarem como bem do existir. Elas também são encontradas em suas formas pessoais de relação com os outros. O socialismo que ele carrega mostra claramente essas potências alegres que propiciam aos homens, em comunalidade, a vitalidade do viver. Não se trata de uma ideologia regrada e sedimentada, mas uma cartografia de desejos produtores de forma de existências coletivas alegres.  Daí porque Ariano Suassuna encontra-se sempre disposto aos outros como amigos.

Suas conversas, os causos que apanha e despacha, suas aulas dionisíacas são referendos à sua criatividade cotidiana. Nascido na Paraíba, mas habitante de Pernambuco, porém sua estética existencial não se territorializa. Salta sempre em desterritorialização produtiva. Não há como fixá-lo, porque há em sua “saúde exuberante”, “o excesso de vitalidade” que impede que seres como ele transmutem-se em sujeitos de habitação. Essa sua prova pública de seu “caráter artístico”.   Ariano Suassuna

Para um homem como Ariano Suassuna, as honrarias não lhe afetam, e não lhe causam orgulho. Suas criações são seus meios ontológicos de confirmar a existência. Chegam e se distribuem em outras composições singulares convidadas pelas pessoas. João Grilo, O Auto da Compadecida, O Santo e a Porca, Uma Mulher Vestida de Sol, A Farsa da Boa Preguiça, Romance d’A Pedra do Reino, outras, são meios ontológicos de celebrar dionisiacamente a vida.Ariano Suassuna (Foto: Estadão Conteúdo)

“Quem são os homens mais do que a aparência do teatro? A vaidade e a fortuna governam a farsa desta vida”, diz Suassuna.

FESTIVAL LATINIDADE

Julho 24, 2014

 Griôs da Diáspora Negra, o maior festival de mulheres negras da América Latina. Na foto, a ecritora de Moçambique, Paulina Chiziane (Valter Campanato/Agência Brasil)

Começou ontem, dia 23, em Brasília, e vai até segunda-feira, dia 28, o Festival Latinidade, que nessa edição de 2014, traz como tema principal as características da diáspora da literatura negra no século XV saída da África para a América Latina e Caribe. O festival congrega mulheres negras escritoras dos dois territórios onde foi difundida a cultura negra.

Na abertura do festival a escritora costa-riquenha Shirley Campbell expos sobre a arte africana e sua diferença com a arte da diáspora e as raízes que as unem. Para ela, as artes por terem funções sociais os artistas têm a obrigação de conceder vozes às artes que ainda não têm. Campbell disse que a forte união entre as negras da África, América Latina e Caribe encontra-se caracterizada na memória de seus antepassados e a defesa do conhecimento e das crenças tradicionais.

“A arte africana é muito ligada a manifestação sobre descrições do cotidiano. A da diáspora, por outro lado, fala sobre a interação da arte negra com outras comunidades. Os artistas da diáspora negra interpretam o sentir comum e o expressam com suas habilidades individuais”, disse Campbell.

O movimento das mulheres negras mostra que suas identidades falam por suas próprias bocas, observou a escritora Nina Silva, uma das participantes.

“O movimento de mulheres negras faz que as suas identidades sejam faladas por suas próprias bocas e não pelas de outros. Há uma sintonia entre as vozes, pois há raízes profundas, mantidas por espiritualidade, memória e genética. Somos uma grande rede e nos retroalimentamos por meio de conhecimento, experiências e dizeres”, observou Nina Silva.

O festival será composto por debates, exposições, projeções de filmes sobre os temas e show musical. No dia 25, sexta-feira, será executado um sarau na parte externa do Museu Nacional. Já, no sábado, dia26, a partir das 19h serão realizados shows.

VIDE A CAPA

Julho 23, 2014

Hoje, nobres filoloesquizos o passeio é de visão e entendimento deslocador dado o grau de esteticismo das capas que vale muito um Vide a Capa. Não saõ caps sugestivas, mas vibrátil. Uma espécie de desterritorialização por sopro spinozista.

O passeio puramente esquizo deslocas em conteúdos e expressões pela história universal, ensaios fotográficos, romance e educação. Ou melhor, antieducação castradora.capa 001

A obra História Moderna, de André Corvisier, dividida em cinco parte se deslocando da Afirmação da Europa (1492-1560), transitando pelo Mundo Extra-Europeu nos Séculos XVI e XVII, chegando Em Direção À Época Contemporânea, publicada pela Editora Difel, em 1976, tem como responsável pela Capa Thelma Lunardi Lopes que a criou através da foto do quadro de Sauveur Le-Conte: Luís XIV. A Travessia do Reno. Uma verdadeira capa piracional.capa 002

Seguindo sem seguir, os nobres têm a obra Ensaios Sobre a Fotografia, de Susan Sontag, que vai do ensaio Na Caverna de Platão, passando por O Heroísmo Sem Visão até Breve Antologia de Citações, publicada pela Editora Arbor, em 1983, e que tem como criador da Capa Grafite/Raul Rangel. Só essa Capa oferece uma profunda inferência sobre o espírito da fotografia.capa 003

No contínuum, salta o romance revolucionário de George Orwell, uma verdadeira porrada-literária no capitalismo com sua força sedutora da propaganda, Moinhos de Vento, publicada no Brasil pela Editora Nova Fronteira, em 1984, com a Capa de nosso conhecido, Victor Burton sobre o desenho de Karl Hubbuch, que viveu entre 1881 a 1980: “Publicidade”.

Um brinde-esquizo de Orwell. “Dificilmente haveria alguém ali que não tivesse perfeita consciência de que a publicidade – os anúncios – é o fruto mais sujo já produzido pelo capitalismo”.

Intensiva desterritorialidade, não?

capa 004Um educador sabe que a potência poiética do educando é revolucionária. Com esse saber ele compõe junto com os educandos os corpos que efetivam as mudanças, as ultrapassem de um estado de coisa determinado para outro estado de coisa móvel. Foi o que fez o educador francês Jules Celma e que ele mostra em sua obra Diário de Um Educastrador, publicado no Brasil pela Summus Editorial, em 1979, com a Capa instigante de Edith Derdyk. Uma Capa que desloca, sem cumplicidade com a castração, o inquieto filoloesquizo.

Bons passeios Capas-Esquizos! Vide a Capa quantas vezes forem necessárias!