O DOCUMENTÁRIO, “OZUALDO CANDEIAS E O CINEMA”, DE EUGENIO PUPPO

O grande mestre do cinema marginal brasileiro da década de 60, Ozualdo Ribeiro Candeias, que morreu no ano de 2007, encontra-se expressado no documentário longa-metragem do cinegrafista Eugenio Puppo e que estreou ontem, dia 3.  

Candeias que antes de ser cinegrafista foi agricultor, office-boy, caminhoneiro, militar, operário e motorista de taxi dizia que gostava de realizar seus filmes na contramão dos tradicionais cineastas. Enquanto estes filmavam a vida da classe média ele filmava a vida da classe média para baixo, a vida dos classificados pela moral-burguesa. Os alcunhados tipos marginais. Os que escapam da ordenação e controle promovido pela consciência-abstrata da burguesia-ignara.

Foi exatamente na locação desse movimento-imagético, considerado marginal e conhecido como Boca do Lixo, a pornochanchada e Rua do Triunfo, em São Paulo, polo da filmografia brasileira na década de 70, que Eugénio Puppo fundamentou seu documentário Ozualdo Candeias e o Cinema. Para tornar mais convincente seu trabalho, Eugénio Puppo usou os mesmos recursos linguísticos e cênicos de Ozualdo: o deboche, a ironia e a provocação.

O cinema de Ozualdo Candeias trabalha com personagens e conteúdos próprios da sociedade brasileira da época que expressavam a conduta reacionária, machista, preconceituosa e violenta. À Margem, seu primeiro trabalho realizado em 1967 e com baixo orçamento, traz essa realidade crua que não foi digerida pela chamada crítica. Diante da realidade crítica que lhe rejeitava com suas provocações, Ozualdo, resolveu adaptara Hamlet de Shakespeare com elementos da cultura brasileira. Dançou outra vez. Foi rejeitado. Ele não entendia, como diz Zé Celso, que a crítica é o reflexo da ideóloga burguesa: estúpida e retrógada.

“Me ocorreu que eu deveria fazer um tipo de fita que não estava sendo feito. Todas contavam a história da classe media para cima e eu quis contar a história da classe media para baixo.

Eu achava que pegando o Shakespeare e passando para o bang-bang, os produtores, que eu sempre achei uns caras inteligentes, poderiam se interessar por esse tipo de coisa. Era um espetáculo e poderia ser o que também chamam de ‘cultura’. Daí eu fiz uma espécie de adaptação, mas quebrei a cara. Ninguém se interessou.

Noventa por cento de pessoas que entendem de Shakespeare e Hamlet só sabem dizer ‘Ser ou não ser’. Por causa dessa fita, eu tive que andar me defendendo porque eu estava avacalhando Shakespeare. Era uma transferência que eu estava fazendo: uma Ofélia poderia ser negra porque seria mais brasileiro. Mas quando eu dizia transferência de valores ou de situação, ninguém entendia.

Meus filmes, me parece, têm algumas coisas diferentes – um pouco – dos outros. Não sei bem o que é, mas é um pouco diferente como proposta, como estética também, a maneira de ver. Eu penso no cinema-linguagem e naquele cinema de informação. A maneira de ele ser feito, francamente, isso não me preocupa em nada”, analisa Ozualdo Candeias.

Veja o trailer. 

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