OS FILHOS SÃO OS TESOUROS DOS PAIS*

A médica da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), uma senhora na faixa dos 60 anos, encontrava-se observando um jovem de 20 anos, que estava em coma depois de ter sofrido um grave acidente de carro que lhe deixara com traumatismo craniano, além de várias fraturas, quando a enfermeira-chefe avisou que o pai do rapaz encontrava-se no corredor do hospital querendo falar como ela sobre o estado de seu filho.

A médica foi até ao homem, que aparentava mais de 70 anos em uma estatura alta e magra, e encontrava-se andando ansioso pelo corredor. Ela se aproximou dele e o levou até sua sala. Ele sentou em uma poltrona e ela sentou a sua frente. Quase chorando, ele disse que o rapaz era seu filho caçula. O filho que ele mais amava entre os outros quatro. E apreensivo, com a mão direita sobre a perna direita, a movia em três momentos: esticava os dedos, em seguida contraia-os até o meio da mão, e depois fechava com força a mão. Ela olhou o gesto que o homem repetia e sua memória se contraiu entre 40 anos passados, quando tinha 20 anos.

O homem começou a chorar perguntando sobre o estado do rapaz dizendo que não queria que ele morresse porque ele era o tesouro de sua vida, o filho que ele conseguiu mais amar. A médica, como que hipnotizada, fixou o olhar na mão que se contraia e seus gestos lhe trouxeram terríveis lembranças que lhe comoveram fortemente e, pela primeira, depois dos 40 anos passados, tomaram conta de sua consciência como lembranças de antigos companheiros presos, torturados e mortos ainda nos 20 anos.

Ela sabia quem era aquele homem que no momento chorava copiosamente e causaria piedade e compaixão em quem o visse, sem saber de quem se tratava. Foi então que ele confessou que se o filho morresse sua vida não teria mais importância e ele colocaria fim a dor que o luto causa pela perda de um filho tão amado.

Chorando, ele perguntou se o filho tinha chance de vida, porque não era certo ele morrer tão jovem, com tanto futuro pela frente, e que 20 anos é a mais bela idade da vida. Ela olhou profundamente nos olhos dele e disse que o rapaz, infelizmente, não suportara a cirurgia e morrera. O homem soltou um grito lancinante e caiu morto. Enfartará fulminantemente.

 Ela chamou a enfermeira-chefe e disse que o homem havia enfartado e que ela tomasse as devidas providências junto ao corpo. Depois voltou para a UTI, observou o rapaz, e confirmou que seu estado de saúde não indicava qualquer possibilidade de falecimento. Como já tinha se cientificado, anteriormente, seu estado estava evoluindo bem.

*Conto do livro, em inscrição, Contos Sem Dez Contos.

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