SARTRE, O POETA

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O engajadíssimo filósofo Jean Paul Sartre, criador da Filosofia Existencialista da Liberdade, teve sua riquíssima existência marcada por produções não só filosóficas, mas também políticas e artísticas como o teatro, o conto, a novela, o romance e até roteiro cinematográfico, como foi o caso de Freud Além da Alma, que o diretor de cinema John Houston lhe encomendou, mas Sartre não permitiu sua realização porque o diretor queria um Freud, personagem hollywoodiano. Além de desenvolver uma profunda crítica através de artigos e manifestos.

Entretanto, conhecido por essa variada produção filosófica-política- artística, Sartre, jamais foi visto como um poeta. Uma expressão sua desconhecida até de muitos especialistas em sua filosofia. Pois bem, no dia 25 de fevereiro do ano de 1940, quando se encontrava como prisioneiro de guerra ele, depois de ler um poema do jovem poeta Alain Borne, resolveu escrever um poema que agora este esquizofia transcreve.

Leiamos o que ele escreveu para filósofa Simone de Beauvoir, sua Castor companheira, contando de seu estado antes de escrever o poema.

“Hoje recebi os poemas de um jovem chamado Alain Borne, eu os li e cheguei à conclusão de que não entendia nada. Irritado e para me analisar e também porque nestes últimos dias atravesso uma fase desagradável, mas poética, tentei escrever um poema. Transcrevo-o aqui pelo que ele vale, e também por mortificação”.

Agora, esquizofiamente, vamos ao poema.

“Dissolvem-se os estalidos de lua sob as árvores mortas

Em água os mil clarões que ocultam seu nome

Dissolve-se o puto sal do inverno, minhas mãos estão secas.

Comprimo entre as casas a doce estopa oleosa de ar e

O céu é um jardim botânico sentindo a planta que volta.

Nas janelas das grandes praças desertas

Fantasmas empoeirados vêem passar na rua a lenta massa negra.

Dissolvem-se as agulhas de branca alegria no meu coração

Meu coração cheira a peixe.

Primavera venenosa que começa

Não me faças mal

Meu coração enrijecido contra a dor

Abomina agora a primavera.

Primavera que começa no meu coração

Passas tu arder como uma tocha

E que a pedra tórrida do verão toque

 E seque as relvas flexíveis

Sopro ardente, deslizei sobre a pedra

E as sementes arderam, incendiadas pelo vento

Sopro gelado sobre a neve

Deslizei, rígido e transparente,

E o mundo era de mármore e eu era o vento

Mas eis que volta o exílio da primavera”. 

Sartre era dotado de um singelo humor e uma ferina ironia. Uma prova ele apresenta contra si mesmo ao terminar o poema. “Isso é tudo. O resto joga-se fora”.                                          

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