VIVA O VINIL! MILTON DORNELLAS – MANDRÁGORA

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Trabalho originalíssimo da verve musical nordestina! Joia-raríssima! A potência criativa independente e livre dos grilhões da indústria fonográfica capitalística. A Mandrágora que o paraibano Milton Dornellas presenta aos vinilesquizofílico é um verdadeiro respeito aos mesmos, dado o elevado corpo sensível de cada música.

A bolacha crioula é uma produção do ano de 1993, com o selo Musi Clube com patrocínio da FUNESC – Fundação Espaço Cultural da Paraíba e Secretaria da Educação e Cultura.P1000446

Uma breve observação que toca de leve no tema gravação independente. Embora, os Discos Marcus Pereira e o Estúdio Eldorado tenham sua origem como produção independente, entretanto, logo em seguida eles apresentaram alguns aspectos formalizados, como seleção e escolha de músicos. Mas os artistas de várias regiões do Brasil continuaram a produzir suas obras independentes, como é o caso de Milton Dornellas. Esse é trabalho tão independente que é difícil encontrá-lo. Esse exemplar do  acervo musicosófico da Associação Filosofia Itinerante (Afin) foi um presente de uma amigo do próprio Dornellas.P1000447

Leiamos a apresentação da bolacha crioula realizada Totonho, músico e ativista.

O TABULEIRO ENCANTADO DE DORNELLASP1000448

“Era tardinha em João Pessoas e estávamos reunidos no prédio do Círculo Operário, onde funcionava a sede do Musiclube da Paraíba. Nessa reunião específica, tratávamos de uma TOCATA na Favela São Raphael, nas imediações da Mata do Buraquinho.

Milton Dornelas era um dos diretores da entidade e abriu o discurso sobre posteridade. O que ele preferia naquele instante era quais os caminhos possíveis, para nós compositores reunidos em assembleia todos os sábados para discutir música e política, para guardar novas composições nos cofres da posteridade.

Definimos o elenco da TOCATA daquele final de semana. A TOCATA era uma espécie de Conferência Cantada, onde analisávamos a conjuntura nacional através de músicas específicas. Proferíamos discursos, através de poemas relâmpagos, para que aquela casta de moradores despossuídos, entendessem a diferença entre classes sociais, políticas públicas e políticas compensatórias, movimentos associativos. Cooperativismo etc.

O tempo passou, e num de seu vagões, Milton Dornellas trepou sua razão posteridade. Gravou fitas alternativas, um disco vampiresco e histórico (um disquinho compacto com uma capa de LP), participou do Etnia, perdeu a compostura e colocou o ASSALTARTE na rua com Xisto Medeiros e Marcos Fonseca.

O tempo apitou e veio de volta. A ousadia de Milton o nomeou motorneiro. Ele, com a coragem de poucos naquela estação, dispôs sua máquina a uma aventura subjetiva e carimbou definitivamente sua obra, rumo a posteridade tão pleiteada.

O resultado foi um tabuleiro sonoro com obras inesquecíveis. De MANDRÁGORA a BARQUEIRO DE LUANDA, a alucinação de um inventor de músicas maduro, completo dentro das aspirações que o nosso grupo miragva ser. Constrói um xote saltitante, MACHUCADO CORAÇÃO, tipo aqueles que qualquer cantor de forró seria idolatrado quando o trabalhador, ao sair às cinco para o trabalho, ouvisse. Alcança um limite indescritível e dulcíssimo protegido pelo CÉU DE THOR, além de botar o AMORÉRIO de Adeildo Vieira pra queimar em sua fornalha de bom gosto.

Dornellas alcançou o tempo da sabedoria musical, isto é, ao saber que a música recusava-se a sustentá-lo. Propôs sustentá-la, como se, com este ato, sustentasse os movimentos de ternura e sonho dos seus. Aqueles que ficaram na estação, perderam o trem ou o tomaram em outro sentido, o sentido de que existir já era o próprio fenômeno da posteridade.

Bote pra tocar e cole o ouvido na caixa…”P1000450 P1000449

LADO – A

Barqueiro de Luanda/Céu de Thor/Machucado Coração/Pedra e Mel/Flamboyant.

LADO – B

Pernas e Bocas/Amorério/Mandrágora/Sereno/ Overdose Natalina.

Arte Final/Capa – Milton Nóbrega.

Foto – Gustavo Moura.

Participação especial em Pedra e Mel, Dida Vieira.

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