A ÚLTIMA SESSÃO*

BR.CINEMAES.F.072

Ele era fã de Charles Chaplin. Tinha uma coleção completa do talentoso cômico. Um gosto que floresceu quando ainda era criança e fora estimulado pelos pais que pediam sempre algumas imitações do artista.

Quando cresceu se tornou agente policial. E como agente policial, no período da ditadura civil-militar, passou a usar o codinome Chaplin. Entre seus comparsas passou a ser assim tratado forçado pelo fato de continuar fazendo imitações do autor de Carlitos. Nos aniversários de sua família ou de colegas, ele não pedia a oportunidade para fazer as mímicas.

Todavia, o momento em que tinha mais prazer em recorrer ao cômico era quando interrogava um preso. O preso ficava algemado na frente dele, e, antes do interrogatório, ele fazia sua pantomímica. No meio do interrogatório ele parava e reiniciava sua apresentação mímica. Mas, o momento de maior júbilo para ele era quando ia realizar o último interrogatório e sabia que a partir daquele momento o preso desapareceria. Ele chegava, olha para o preso e dizia que aquele seria a última sessão.

Embora tivesse a coleção de DVDs de Chaplin, ele gostava mais de assistir seu ídolo no cinema. Informado que uma casa de projeção estava passando um Festival Charles Chaplin, ele, contente, nos seus 74 anos como seguidor de Carlitos, foi assistir o ídolo.

Ele chegou e viu que a sala estava vazia. Sentou em uma poltrona no meio da sala, e logo em seguida começou a sessão. Quando iniciou O Garoto, ele sentiu uma intensa alegria. Olhou às poltronas vazias, só ele na sala, ficou mais alegre: Chaplin era definitivamente só seu.

Envolvido na comicidade de Carlitos, não viu quando dois rapazes sentaram na fila de poltronas em que ele estava sentado. Um na última poltrona da direita, e o outro na última poltrona da esquerda.

A sessão foi se sucedendo até que chegou ao seu final. As luzes foram acesas, e os dois rapazes começaram a imitar Chaplin. Ele viu a imitação, sorriu e também fez alguns gestos chaplianos. Os rapazes foram se aproximando dele, e ele sorrindo em sua imitação, ficou paralisado quando percebeu que os dois rapazes estavam armados, com duas pistolas lhe obrigando a entregar tudo que tinha de valor. Ele balançou a cabeça lembrando um gesto de Chaplin, e tentou sacar sua arma, mas foi inútil: os rapazes disparam quatro tiros em sua cabeça.

Em seguida, tiraram-lhe todos seus pertences, e saíram da sala dizendo que aquela era a última sessão do otário.

*Conto da obra, em realização, Contos Sem Dez Contos.

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