O DIA QUE EU DEIXEI DE TORCER PELO FLAMENGO*

bola de futebol

Não sei quando comecei a torcer pelo Flamengo. Só sei que quando dei por mim, já era mais um torcedor compondo a massa rubro-negra no Brasil. E quem sabe no mundo. Porque dizem que o Flamengo é como capital: encontra-se em todos os lugares. O que sei mesmo, é que sofri e vibrei de felicidade com as partidas que ele jogava.

Na rua onde morava, na escola e por todos os lugares que passava fazia questão de divulgar meu amor pelo mais querido do futebol brasileiro. Colecionava camisas, calções, chuteiras, álbuns de figurinha com seus jogadores, chaveiros, calendários com seu brasão, lápis, canetas, cadernos, DVDs de seus jogos, CDs com o hino gravado por várias orquestras e cantores. Tudo referente a ele. Eu era o que se poderia afirmar de verdadeiro fã.

Quando completei 11 anos, meu pai, que tinha uma irmã morando no Rio de Janeiro, decidiu que nós íamos passar as férias de julho na cidade maravilho. Foi uma notícia vibrante para mim. Era a oportunidade de conhecer o Maracanã, o maior palco do futebol do mundo, e, quem sabe, assistir um jogaço do meu time do coração, mente, corpo inteiro e alma. Desde o momento que meu pai deu a notícia, eu entrei em uma ansiedade flamenguista. Nunca o mês de julho foi tão importante para mim. Dormia e acordava pensando nesse importantíssimo mês.

Julho chegou e lá fomos nós, eu, minha irmãzinha, minha mãe e meu pai, para a terra do “Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara”. Era uma bela sexta-feira. Para mim, naquele momento, era a melhor sexta-feira de minha vida. Durante os minutos que antecediam a aterrissagem e que o avião sobrevoava a cidade, eu disputava a janela com minha irmã. No meu caso, louco para ver se conseguiu vislumbrar o Maracanã.

Já na casa de minha tia, depois dos abraços saudosos e a entrega das lembranças que meus pais haviam levado para ela e sua família, eu pedi ao meu pai para sair e ver a cidade para comprar alguma coisa sobre o Flamengo. Meu pai disse para esperar um pouco, porque estava cansado da viagem e ao mesmo tempo disse que tinha uma surpresa para mim. Contou que havia pedido ao meu tio para ele comprar dois ingressos para o jogo de domingo no Maracanã entre o Flamengo e o Vasco. Tive um ataque de loucura flamenguista. Envolvido pela expectativa da viagem não lembrei do jogaço entre os dois maiores rivais do futebol do mundo.

Chegou à tarde do domingo, e lá fomos nós para o templo da arte futebolística. Eu era verdadeiro pinto no meio do lixo de tanta alegria. Entramos no colosso do futebol, sentamos em nossas cadeiras numeradas, e aumentou minha ansiedade. Eu olhava o estádio em todos os seus pormenores. Era a alegria mesclada com o inusitado da ocasião. Todo momento perguntava para meu pai às horas. Não acredita no que ia vivenciar. Meu perguntava se eu queria alguma coisa como um refrigerante, e eu não queria nada, só ver meu Mengão e poder vibrar.

Quando o meu time despontou na entrada do gramado eu dei grito tamanho, cheio de emoção, que meu pai me segurou, passou a mão na minha cabeça, me deu um beijo e disse que meu sonho já era realidade. Começou o jogo e aconteceu comigo algo que eu não esperava. Eu pensei que quando visse o Flamengo jogando eu ia me concentrar só nele. Não, eu era atraído também pelas jogadas do Vasco. Envolvido, também, pela torcida com seu canto, eu entrei em uma névoa de indiscernibilidade. Parecia que eu havia desmaterializado. Foi então que eu comecei a entender o futebol. Quando eu via um dos times atacando em bando, como um encadeamento de potências, onde o jogador, como um ente individual desaparece, para fazer surgir o devir-jogo coletivo, eu dizia para mim que isso que era o futebol. Não me importava maias que fosse o meu Mengão ou o Vascão do meu tio. O que me importava era vivenciar esse movimento do bando. Essa contínua desterritorialidade. A atualização do virtual gol pelos encadeamentos produtivos proporcionados pelos jogadores-bando.

O jogo terminou empatado em 1 a 1, e meu pai me disse que durante a partida tentou falar comigo, mas parecia que eu estava em transe e não falava nada. Ele me perguntou se eu havia gostado eu respondi que estava maravilhado e que havia feito uma grande descoberta. Ele me perguntou qual fora a descoberta. Eu respondi que eu não torcia pelo Flamengo. Ele tomou um susto e pediu que eu explicasse. E eu expliquei que durante todo esse tempo que dizia torcer pelo Flamengo não era verdade, porque eu não sabia o que era o futebol. Olhei bem em seus olhos, lembro como se fosse agora, e disse que eu descobrira que gostava mesmo era do futebol e que um time sozinho não podia criar. É preciso de outro time. O futebol só existe nos times. E completei afirmando que o Vasco me ajudou a fazer essa descoberta. Ele deu um sorriso meigo e cumplice e saímos do estádio.

De volta às aulas, em uma segunda-feira, ao entrar no pátio da escola, uns colegas vascaínos, tentaram tirar um sarro de mim falando que o Mengão havia perdido de 4 a 0 do Fogão. Eu fui em direção a eles pulando e gritando de alegria o nome do Fogão, Garrincha, Nilton Santos, Zagalo, Jairzinho Amarildo… Os colegas me abraçaram e fomos para a sala. 

*Conto do livro em preparação, Contos Sem Dez Contos.

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