SEM PERDÃO

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Eram nove horas de uma terça-feira quando o homem, com seu 74 anos, entrou na igreja da matriz e sentou-se no meio da última fila de cadeiras. Observou com atenção o interior do templo religioso com sua abóbada composta de anjos que rodeavam Deus envolto em nuvens. Depois sua atenção voltou-se para as colunas, os castiçais e os vitrais. Permaneceu nessa observação por alguns minutos quando foi despertado pela chegada do padre.

O padre entrou no confessionário, orou e ficou a espera do primeiro fiel para o ato da confissão. O homem suspirou fundo, levantou-se lentamente e se dirigiu ao confessionário com seus passos contidos. Ajoelhou-se com o ouvido esquerdo encostado na janelinha perfurada e, entre a respiração ofegante e a angústia, pediu a bênção do padre afirmando que era a primeira vez que se confessava. O padre respondeu que para Deus o importante são as decisões dos homens que os levam a se encontrarem com Ele em qualquer tempo, e convidou-o a contar seus pecados.

O homem começou sua confissão dizendo que desde criança jamais acreditou em Deus, e sempre acreditou que poderia viver muito bem sem essa crença. Quando cresceu essa certeza aumentara ainda mais. Deus uma pausa profunda, e depois continuou afirmando que essa certeza se tornara mais forte quando se tornou agente no tempo da ditadura. Confessou que sua missão como agente era prender, torturar e matar os comunistas inimigos do regime.

Dominado por um intenso calor em seu corpo, confessou que nesse tempo suas maiores alegrias eram matar os comunistas e religiosos. Pediu perdão ao padre pela segunda informação e explicou por que. Tinha alegria em matar comunistas porque eles eram, como ele, ateus e ele disputava a supremacia em ser o principal ateu. E quanto aos religiosos, gostava de sentir sua superioridade no ato da execução porque o preso clamava por Deus e o único deus presente era ele. Dessa forma mostrava que o religioso não acreditava em Deus, visto que Deus não o socorria porque não existia. A crença do religioso era pura ilusão.

Depois de contar mais detalhes de sua vida passada falou que o motivo de sua confissão era conseguir o perdão de Deus, pois entendia que havia se convertido ao catolicismo. Não aguentava mais viver com todos os pecados sem poder contar a ninguém. O perdão para si era o que poderia avivar seus últimos momentos sem culpa na terra. Parou de falar interrompido por um abundante choro entrecortado pelo pedido desesperado de perdão. O padre tentou acalmá-lo e quando o homem parou de chorar pediu que ele rezasse um Padre Nosso, voltasse para casa, meditasse muito sobre sua intenção e depois retornasse na sexta-feira pela parte da tarde que ele receberia sua confissão para o encaminhamento do perdão perante Deus. O homem agradeceu ao padre e partiu.

Na sexta-feira, às 16 horas, o homem entrou na igreja matriz e sentou-se no mesmo lugar que antes havia sentado. Dessa vez não mostrou interesse pelo interior do templo sagrado. Ficou de cabeça baixa. Minutos depois, ouviu passos na sacristia, levantou a cabeça e viu o padre se dirigir ao confessionário. O homem levantou-se com pressa, seguiu ao confessionário, se ajoelhou e foi logo clamando que estava vivendo em desespero. Os dois dias passados foram de intensa luta e dor. Pedira perdão aos ativistas políticos que havia preso, torturado, assassinado. Viu a fúria de Deus expulsando Lúcifer. Passou por Sodoma, Gomorra, Satanistas, todos os inimigos de Deus. Desceu ao inferno, vociferou contra Satanás, lutou contra Judas, Barrabás, beijou a mão de Paulo… Um sofrimento sem fim. Uma angústia sem fim. Um conflito sem fim. Medo e desespero o dilaceravam.

O padre pediu que ele se acalmasse. Foi então que o homem falou baixinho dizendo que a prova de Deus era que Ele continuava não existindo. Que Ele não teve a onipotência de lhe converter e que ele continuava o mesmo ateu que odeia comunista e religioso. Pediu que padre colocasse seu ouvido mais próximo, o padre atendeu seu pedido, ele abriu uma bolsa porsche, que carregava, tirou uma pistola com silenciador e atirou no ouvido do padre.

Guardou a pistola respirando ofegante, levantou-se com pressa, atravessou a igreja com os passos mais velozes do que sua idade permitia, chegou à porta, virou-se para o interior da igreja, fixou o olhar na imagem  de Cristo crucificado e falou baixinho, a sentença: sem perdão!

*Conto do livro em preparação, Contos Sem Dez Contos.    

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