BOM ENCONTRO*

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A senhora era branca, cabelos claros nos seus 50 anos, e tinha uma banca na praça principal da cidade que além de salgadinhos, doces e bolos, vendia, também, o saboroso tacacá. Iguaria regional feita com goma, tucupi, jambu e camarão. Todas as guloseimas, que eram feitas por ela mesma, lhes causam satisfação, entretanto, era o tacacá que ela se sentia mais satisfeita em sua preparação. Poderia se dizer, que o tacacá era sua menina dos olhos.

Porém, ocorria algo que não agradava à senhora no momento da venda. Ela conseguia vender bem as outras iguarias, mas o tacacá, nada. Às vezes ela conseguia em uma tarde vender no máximo duas cuias. O que significava que ela tinha que voltar com quase todo o tacacá que havia feito com dedicação e desvelo.

Em uma tarde, uma senhora negra, gorda, nos seus, também, 50 anos, chegou até a banca e pediu da senhora um copo com água. A senhora prontamente a atendeu. Como não havia fregueses as duas ficaram proseando. A senhora negra disse que estava com sede porque andara muito. A outra senhora falou sobre sua venda. No meio da conversa chegou um casal de jovens e pediu duas cuias de tacacá. Em seguida três senhoras se aproximaram também pedindo tacacá. Entre uma cuia e outra, elas continuaram conversando. A senhora negra disse que precisava ir, pois morava em bairro longe. Despediu-se e partiu.

No fim da tarde a dona da banca percebeu, com grande alegria, que tinha vendido muitas cuias de tacacá. No outro dia a senhora da banca chegou contente imaginando vender tacacá como havia vendido no dia anterior. Entretanto, o tempo foi passando e ela só vendeu duas cuias. Ela ficou triste, mas logo se sentiu consolada ao lembrar, da venda passada, que para ela significava que seu tacacá tinha agradado outras pessoas.

Na outra tarde, lá apareceu a senhora negra, desta vez não para pedir água, mas para uma prosa. A senhora da banca sorriu contente e começaram a prosear. Logo cinco pessoas pediram cinco cuias de tacacá. O grupo logo começou a elogiar o tacacá, afirmando que ia avisar para os conhecidos que deveriam tomar a gostosa iguaria. Dessa vez não deu para quem quis: acabou todo o tacacá. A senhora negra se despediu, e a vendedora voltou para casa muito contente.

Quando deitou em sua cama para dormir, a dona da banca começou a raciocinar sobre a venda do tacacá. Alguma coisa lhe intrigava. Ela já trabalhava em sua banca alguns tempos, mas jamais experimentou o que ocorrera nos dois dias que vendeu tacacá além do esperado. Ela procurou resposta, mas não encontrou. Veio o sono e dormiu.

Durante os quatro dias da semana seguinte ela pouco vendeu tacacá. Na sexta-feira, que era um bom dia para a venda, a praça estava cheia de gente, ela estava pensativa, e não apareceu ninguém comprar tacacá. Quando ela menos esperava ouviu alguém dizendo que hoje queria água. Era a senhora negra. A dona da banca sorriu afetuosa e deu o copo com água. Nesse momento começaram a surgir pessoas pendido tacacá. De repente, um senhor se dirigiu à senhora negra e disse que nunca havia tomado um tacacá tão bom como o preparado por ela. Outras pessoas que ouviram a consideração, também elogiaram a senhora negra, pelo tacacá.

A dona da banca ao ouvir os elogios ficou maravilhada. A senhora negra disse que já ia embora, mas a dona da venda pediu que ela esperasse. Terminou a venda, a proprietária da banca contente perguntou se a senhora negra queria trabalhar com ela. E foi dizendo que descobrira que a venda do tacacá era porque os fregueses acreditavam que quem preparava é ela. Ela descobriu, porque a venda do tacacá aumentava toda vez que ela estava na banca. E concluiu afirmando que como por tradição cultural foram os índios que começaram o preparo do tacacá, juntamente com os negros, para os fregueses o melhor tacacá é feito pelos negros.

A senhora negra disse que agradecia, mas não sabia fazer tacacá. A dona da banca sorriu e disse que não era problema, ela a ensinaria. Elas se abraçaram, e não deu outra: a senhora negra aprendeu, as duas formaram uma sociedade e hoje quem quiser tomar tacacá das duas senhoras, tem que entrar na fila.

As duas senhoras ficaram tão famosas com o tacacá que entraram na lista turística da cidade que é distribuída nacional e internacionalmente.  

*Conto do livro em preparação, Contos Sem Dez Contos. 

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