AS LEMBRANÇAS*

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Antes, logo depois que se aposentara, ele não saía de casa. Tinha receio. Sua função havia lhe deixado uma marca: a desconfiança do outro. O vizinho, a rua, o mundo. Mas o tempo se encarregou de enfraquecer a desconfiança e lhe permitir recobrar uma parte de seu sentido de segurança.

Pois foi movido por essa parte de segurança que ele passou a frequentar a praça em frente ao prédio que morava e lá observar as pessoas que passavam e condensá-las em sua névoa-imaginária. Mas não eram todas as pessoas que ele permitia se encadearam em sua névoa-imaginaria. Não, ele tinha sua preferência. Uma preferência que se tornou frequente no tempo em trabalhava e era tido como um homem eficiente e dedicado.

Ele gostava de observar os jovens. Precipuamente as jovens. Não por um desejo sexual. Mas pelo o que elas lhe proporcionavam de sublimação de um ódio que ele não conhecia a origem.

Uma tarde, sentado no banco que sempre sentava de costas para o prédio onde morava, ele viu uma moça de uns vinte anos, alta, cabelos longos que em sua altivez lhe perturbou. Ele então permitiu que ela se condensasse com suas lembranças. Lá estava ela, nua, amarrada sobre uma mesa diante dos olhos dele. Dominada, ela não esboçava qualquer sentimento de medo. Ele então iniciou a sessão de tortura. Mas a jovem não gritava. Ele desatinou e intensificou sua perversão obrigando que ela olhasse nos olhos dele. Ela não obedeceu, fechou os olhos, e ele gritou ensandecido para ela abrir os olhos, enquanto aplicava choques elétricos em todo seu corpo.

De repente, a névoa-imaginária se desfez, e ele viu a moça se abraçar com um jovem de cabelos longos carregando um violão. Ele praguejou com ódio. A imagem do jovem se confundiu com a imagem de outro jovem correndo em uma viela e ele atirando em suas costas. Ele se aproximou e disse que esse era o fim de todo comunista.

Eram lembranças de ódio, ressentimento, inveja, impotência. Aposentado com 74 anos, ele se perguntava de que lhe valia o presente onde o passado não se atualizava como real. No fim de uma tarde, ele, sentado em seu banco-comum, viu uma turma de jovens cantando alegres e fazendo patomímicas. Teve impressão que uma jovem muito sorridente havia lhe concedido um olhar. Então, aproveitou a impressão e se viu invadindo uma casa, onde se encontravam alguns estudantes, e ele disparava alguns tiros.

Nesse momento ele ouviu uma freada brusca, uma batida forte, e quando se virou para se certificar o que era, viu um fio de alta tensão caindo sobre. Os jovens correram e de longe, abalados, gritavam que havia um velhinho eletrocutado perto do caminhão que batera no poste.

*Conto do livro em preparação, Contos Sem Descontos.

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