“A DITADURA E HOMOSSEXUALIDADE” LIVRO DE RENAN QUINALHA

ditadura-lgbtRena Quinalha, advogado e membro da Comissão Estadual da Verdade em São Paulo, reuniu vários artigos e concebeu seu livro A Ditadura e Homossexualidade. Trata-se de um testemunho de como os homossexuais eram vistos e tratados no período da ditadura civil-militar que se instalou no Brasil entre os anos de 1964 e 1985.

Mas, o livro não mostra apenas a perseguição contra os homossexuais realizada pelos agentes do regime de exceção. Ele mostra, também, como alguns grupos de esquerda entendiam e se relacionavam com camaradas homossexuais. Com a mesma forma discriminatória, condenatória e excludente. E não era porque a causa-política estava em jogo e deveria ficar em primeiro lugar obrigando que os homossexuais reprimissem sua vida sexual. Na fórmula irônica, invertida da moral burguesa, apresentada por Brecht, “primeiro a barriga depois a moral”, primeiro a revolução depois o prazer sexual.

Freud diria que a discriminação tanto dos agentes da ditadura como dos camaradas da esquerda, tinham causas únicas: conflitos anais-edipianos. Impulsos-sádicos-sexuais-paranoicos. Para o filósofo Sartre ficaria: “o inferno são os outros”. Ou: os homossexuais com suas condutas me incomodam porque me colocam em suas mesmas condições, visto que também sou humano. Mas, os perseguidores de homossexuais sublimavam esses sintomas agindo da forma como agiam sem tomarem conhecimentos de suas causas. Ironicamente diria Marx, “mais faziam”

O autor ilustra uma das posições de perseguição aos homossexuais realizada pelo delegado da Polícia Civil, Wilson Richetti, que ao assumir a delegacia seccional do centro, com todo o apoio da imprensa, afirmou que iria fazer uma “limpeza das ruas da reagião”. E respondendo a um editorial do jornal reacionário Estado de São Paulo, vulgo, Estadão, que pedia uma ação da polícia contra travestis e prostitutas que transitavam no centro de São Paulo, afirmou:

“Retirar os (sic) travestis das ruas residenciais da capital e reforçar a delegacia anti-vadiagem do Deic, destinar um prédio exclusivo aos homossexuais e fixa-los em uma parte específica da cidade”.

Ilustrando um exemplo de perseguição da esquerda contra homossexuais, o autor cita uma passagem de quando dois camaradas da Aliança Racional Revolucionária (ANL) passaram a viver juntos. Membros do grupo mostram a intenção de eliminá-los, pois, para eles, os dois “atentaram contra a moral revolucionária”.

Outro exemplo de homossexual perseguido pelos camaradas foi o escritor, sociólogo e militante Herbert Daniel. Ele conta, em seu livro Passagem para o próximo Sonho, que teve que ficar dividido entre sua sexualidade e a revolução. “Como optei pela revolução, ‘tive que esquecer minha a sexualidade’”.

Na verdade, a homofobia não é posição exclusiva de um indivíduo, grupo, entidade, etc., mas da própria condição existencial do homofóbico. Para eles, alguém tem que pagar pela recusa que eles têm deles mesmos. E no caso específico, o homossexual. Assim, como alguns homens são misóginos: odeiam as mulheres porque não conseguiram realizar, em si, a imago da mulher. Daí ela aparece para eles – e muitas delas – como ameaça castradora. 

O certo é que o livro não é só um documento-histórico, mas um corpo-político que serve para melhor compreensão da causa homossexual que ainda é tida como ameaçante para os Bolsonaros, Felicianos, Malafaias e outros implicados.

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