VIVA O VINIL! MARCUS VINÍCIUS – NORDESTINO

P1010067Estamos em 1979, mas por algumas fixações anais-retentivas da libido que produzem obsessivos compulsivos – perversos destruidores das alteridades sociais -, parece que estamos em 2014 ou 2015, na ordem fantasmagórica do ódio de egressos fascistas, como mostra Marcus Vinícius em seu relato sobre os céus de Recife.

Estamos diante da bolacha-crioula joia raríssima da Marcus Pereira – essa semana só deu o cara nesse Esquizofia – Nordestino do talentosíssimo pernambucano Marcus Vinícius, nascido em 1949, em Recife. Entre suas ricas produções como Dédalus, é necessário lembrar, por um compromisso histórico, que ele foi o arranjador da primeira bolacha-crioula de Belchior, gravada na Chanteclet, Mote e Glossa. Outra relíquia para os esquizovinilfílicos.

P1010066A bolacha crioula Nordestino também acerta na roda da transtemporalidade, porque experimenta-se nos últimos anos a fúria nazifascistas dos psicopatas, sujeitos-sujeitados da burguesia-ignara-parasitária, contra os nordestinos. É lógico, que pela codificação afetiva e cognitiva da bolacha-crioula, nenhum desses psicopatas pode vivenciar esse devir-nordestino. É tão estúpido como tentar contestar Marx quando não aprendeu nem o alfabeto social.

P1010068 P1010069Mas, vamos experimentar as enunciações pessoais de Marcus Vinícius, que foi o arranjador e o regente da bolacha-crioula e compositor de quase todas as obras musicais. Quase, porque A Um Passarinho é de parceria com o poeta Gregório de Matos Guerra e Evocação Final, com Marco Aurélio Borba.

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DE UM AVIÃO, CHEGANDO AO RECIFE…

“Daqui de cima o Recife se oferece, belo e luminoso, imerso em mar verde. Entre uma e outra volta, diviso os longes da Várzea e de Afogados, arruados de Olinda e Apipucos, negaças do Capibaribe, sóis de Boa Viagem e Candeias, retalhos de Casa Amarela, antes que o avião resolva mergulhar definitivamente na manhã pernambucana – uma manhã em tudo e por tudo igual àquela em que, há 11 anos, comecei a fazer o caminho inverso ao de agora.

Outra volta, menos altura. Já percebendo coqueiros e alagados, meu coração me surpreende, batendo mais alto, ensaiando pulsares de maracatu, “quebradas” de frevo, sugestões de cocos e emboladas. O que estava dormindo lá dentro, aflora e vira coisa presente: ritmos, impressões, salta tudo das oficinas da memória e vem cá pra fora, acompanhando este suor frio e uma-ou-outra lágrima mais afoita. Recife tá ali, ao alcance da mão! De relance, parece que vejo lá embaixo, o Velho Faceta e suas pastoras com calor na bacorinha; acolá, me acena o Capitão Antonio Pereira, conduzindo seu bumba-meu-boi e seus 92 anos como brincante da vida. Não me engane, coração. Sei que eles não estão lá! Mas aqui dentro, o som das turbinas também se fundem com sons de antigos pistons, trinados de paus-e-cordas num distante frevo de bloco. Nunca foi maior a certeza de estar chegando…

Trago na bagagem, além de um violão viajado, a fita deste meu terceiro disco, recém-saído do estúdio. E antes de pisar meu solo quente, só consigo é recompor, com flashes rapidíssimos, tudo o que foi meu trajeto musical até agora: desde a Feira de Música do Recife, desde os papos musicais com Paulinho da Viola, Caetano e Gil pelos bares de Boa Viagem e Olinda, a chegada ao Rio, os primeiros shows, o contato com a música contemporânea, as primeiras gravações, a discussão sobre a necessidade de uma música pós-tropicalista, os discos e tudo o mais… Percebo, de repente, que este novo disco consegue ser o somatório de todas estas memórias de homem-artista-migrante nordestino. Seja falando dos homens de pedra numa canção de mais de dez anos que consegui recompor; seja fazendo, junto com Marco Aurélio Borba, a evocação final pro poeta dos cabelos cor de talco, Nelson Ferreira; seja flagrando as piruetas de um anjo chamado Faceta; seja agregando em dissonância e sintetizadores os cantores da Zona da Mata, como se exprimindo o avanço das poderosas usinas sobre os pequenos engenhos; seja ruminando numa nota só, um solitário sol, a solidão das minhas paisagens; este disco teria de ser, mesmo, nordestinado…

“A um passarinho” (versos de Gregório de Mattos) integra a trilha sonora da minha peça Boca do Inferno que, premiada no Concurso de Dramaturgia do SNT, espero ver logo montada. E “Hora de Voltar” é dedicada aos nossos irmãos que, longe, no exílio, lutam – como todos lutamos – por uma anistia, ampla, total e irrestrita, capaz de trazê-los de volta para o ensaio geral de um carnaval que esperamos para breve.

Pousamos. E enquanto o Recife vai passando, desembestado e em pedaços, pelas janelas do avião, pego uma carona na emoção da chegada e dedico este disco a Anah, minha mulher, paciente testemunha do nascimento de tudo que nele está contido”.

Marcus Vinícius

LADO – A

P1010071Velho Faceta/Como se não Bastasse/Hora de Voltar/Por Falar Nisso…/Dona Máquina/Evocação Final.

LADO – B

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Sólida/Coração/Zona da Mata/Caboclo/A Um Passarinho/Homens de Pedra.

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