TRÊS LINHAS-ESQUIZAS DE KAFKA ENTRECORTADAS NA SEMANA SANTA

franz-kafkaA leitura de Kafka é uma não-leitura. Uma leitura que escapa da codificação laminadora do entendimento-síntese da semiótica dominante. ”A linguagem deixa de ser representativa para tender para seus extremos e seus limites”, afirmam os filósofos Deleuze e Guattari.  

O encontro com as enunciações de Kafka é um encontro spinosiano: escapa sempre um novo afeto. Há sempre um deslocamento que nos carrega a nenhum lugar. Nos carrega a um reterritorialização intensiva onde a imobilidade não captura a evanescência da escrita-esquiza.

Em Kafka nunca há ponto de apoio e muito menos linha de equilíbrio. Pelo contrário: sempre fugas disjuntivas. Cortes de lâminas. Nada para contar. Nada para constar. O messias só chegará depois do Juízo Final quando não há mais corpus de sentença. Um Processo não condena: escapa dos pontos territorializantes de uma burocracia-paranoica. Há um outro movimento sem tribunal. Um corpo pleno sem lei. Kafka faz parte do corpo-devir que Deleuze e Guatarri consideram como literatura menor, porque desterritorializa a língua, liga o individual ao imediato-político e é um agenciamento coletivo de enunciação.

franz-kafkaAo que Kafka confirma: “A literatura é menos a tarefa da história do que a tarefa do povo”.

As três linhas-esquizas.

I – “Deus dizia que no dia em que Adão comesse do fruto do conhecimento, terir de morrer. Segundo Deus, a consequência imediata do fato de ter comido da árvore do conhecimento devia ser a morte, segundo a Serpente (é pelo menos assim que podemos compreendê-lo) a assemelhação a Deus.

Um e outro eram inexatos de maneira similar. Os homens não morreram, mas tornaram-se mortais, não se tornaram semelhantes a Deus, mas receberam a faculdade indispensável para o poder ser. Um e outro eram deste modo exatos de forma similar. Não foi o home que morreu, mas o homem paradisíaco; os homens não foram como deuses, mas tornaram-se conhecimento divino”.

II – “Para a queda original havia três castigos possíveis: o mais doce, que de fato se consumou, a expulsão do paraíso; o segundo: a destruição do paraíso; o terceiro: – e esse teria sido o castigo mais terrível – a inacessibilidade da vida eterna, deixando imudado o resto das coisas”.

III – “O Messias só virá quando não for mais já necessário, só virá um dia depois as sua chegada, não virá no último dia, mas no último dos últimos”.

franz-kafka (1)Linhas-esquizas extraídas da Antologia das Páginas Íntimas, de Kafka.            

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