Música e debates alertam população sobre retrocesso da redução da maioridade

image_large (3)Festival Amanhecer, na zona sul de São Paulo, promove discussão com a comunidade para reverter o apoio à proposta da Câmara que ganhou ampla divulgação nos meios de comunicação.

por Gisele Brito

São Paulo – Com boné da Vila Fundão, Paulo Magrão cita Mano Brown: “A maioria foi contra Jesus. Mas lá tinha uma minoria. A gente é a minoria agora. E somos contra a redução da maioridade”.

Os acessórios da Vila Fundão, Magrão, fundador da ONG Capão Cidadão, e Mano Brown, rapper do Racionais MCs, são referências para a periferia, especialmente os bairros com mais quebradas da zona sul. Eles lutam para impedir a aprovação da PEC 171/93, que quer reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos.

A ideia tem aprovação da maioria da sociedade, segundo pesquisas, inclusive nos bairros mais pobres. Mas é considerada um retrocesso para quem luta há anos para promover a melhoria da vida nas periferias da cidade. “Eu acho que é o momento de jogar para o futuro, não jogar no passado”, afirma Neide Abati, outra liderança que é referência na região. “A gente trabalha tanto, há tanto tempo, já conseguiu tanta coisa, e agora eles querem retroceder tudo. A gente conseguiu luz na favela, água na favela, saúde, escola. Enquanto estávamos lutando por isso já estávamos lutando pela redução da criminalidade”, afirma.

capao 7Neide avalia que as novas gerações estão mais comprometidas e preparadas para educar seus filhos a lutar por avanços e, assim, conseguir frear a criminalidade – suposta motivação para a aprovação da lei –, mas a redução da maioridade pode interromper esse processo. “Eles lá (Congresso Nacional) só pensam neles. Não vêm aqui ver como é difícil para as mães educar seus filhos tendo três, quatro jornadas de trabalho. Eles não estão confiando nessas famílias de agora que lutam por cultura, educação”, lamenta.

Magrão e Neide são figuras centrais na construção do Festival Amanhecer Contra a Redução, que ocorre hoje (15) no Jardim Valquiria, na zona sul. O festival reúne músicos, artistas e moradores do entorno e tem o objetivo de sensibilizar a comunidade para as consequências negativas da aprovação da PEC, em votação na Câmara dos Deputados. “A gente sabe que muita gente apoia, mas isso porque os meios de comunicação têm transmitido essa mensagem”, acredita Magrão, consciente de que a violência atinge em cheio a periferia. “Em 100 dias, a gente teve 23 assassinatos por aqui. Teve chachina no Nakamura, duas chacinas no São Luiz, agora essa em Osasco. Sempre com indícios de  participação da polícia”, lembra.

Os assassinatos foram lembrados pela cantora e deputada estadual Lecy Brandão, que realizou um show no evento. “É muito ruim fazer um minuto de silêncio, então vou pedir uma salva de palmas para as famílias que perderam suas familiares esta semana”.

A polícia, aliás, apareceu no festival antes mesmo de a primeira banda começar a tocar. Por volta das 14h, cerca de 20 policiais militares se posicionaram nas duas saídas do beco onde o palco está montado e trouxeram tensão à festa. Jovens circulando em motos foram revistados. “A gente faz festa sempre aqui, ações de cidadania e nunca teve polícia. É uma provocação”, definiu Magrão. Depois de os organizadores do evento mostrarem que só havia crianças no campo, eles se retiraram. Horas depois, voltaram a revistar pessoas na avenida que dava acesso ao local.

Para Dona Neide, a polícia hoje tem a mesma mentalidade do período da ditadura. Ela se lembra bem do dia em que soube do assassinato do sindicalista metalúrgico Santo Dias, ao lado da esposa dele, na porta de uma fábrica onde reivindicava melhores condições de trabalho. “Às vezes a gente até precisa da polícia. Mas não essa que a gente não confia, que tem a mesma mentalidade da ditadura”, afirma.

image (2)O festival se inspira na estratégia do Uruguai para sensibilizar a população sobre o assunto. No vizinho latino, deu certo. O apoio popular cresce e a redução não foi aprovada.

Mas os organizadores querem que esse apoio se fortaleça justamente entre aqueles que são mais atingidos pelas políticas de encarceramento e violência.

“Se isso aí for aprovado, a polícia já vai entrar aqui arrastando as crianças tudo, moça. Olha quanta criança. Para eles é tudo filhote do mal”, afirma Wesley João Santos, de 38 anos.

Os jovens e crianças formaram o principal público do evento. Os mais pequenos passaram a tarde abrindo buracos e fazendo castelos na areia do campo ou correndo atrás de bolas, mais ao estilo rúgbi do que futebol. “Essas crianças aí são a esperança desse lugar aqui. Do mesmo jeito que eu fui e hoje estou aqui, vivão, na responsa”, refletiu.

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