TRÊS POEMINHAS DE FERNANDO PESSOA TOCANDO DE LEVE NAS INTENSIDADES DO TEMPO

Fernando Pessoa poeta escritor writer bebendoPalavras do Pórtico

“Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: “Navegar é preciso; viver não é preciso.”

Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar…(Nota solta de Fernando Pessoa)”

Não há o que falar sobre um poeta. Data do seu nascimento, data de sua morte, nomes de seu pais, e até sua nacionalidade, nada há o que falar, porque o poeta é um devir e como devir não se mostra como corpo perceptível. O poeta é uma hecceidade, impessoal, evanescente, sempre transcendente. Muito diferente de um sujeito estriado, segmentado, organizado, identificado e subjetivado expresso como sujeito de enunciado.

Os poetas se distinguem por seus movimentos que liberam a linguagem de suas armaduras sociais aprisionada na tirania do significante. Quem tenta identificar os poetas são os que não poetizam. Eles afirmam: esse é um poeta simbolista, realista, naturalista, romântico, popular, modernista… E por aí vão clivando, inscrevendo, laminando os poetas, mas eles escapam.

É porque a poesia é linha de fuga, corte, variável, livre. A poesia não é um canto de liberdade, como acreditam os incautos. Não há na poesia categorias que possam ser capturadas para serem analisadas e qualificadas. A poesia só se movimenta. Ela é só devir. Nada mais.

Fernando pessoa escreveu na revista Águia, depois no Atheneu e na Atena, mas não se tornou uma letra-morta após suas expressões literárias. As revistas foram apenas vetores desterritorializantes de seus corpos ontológicos poetizantes.

Os três poeminhas que vocês esuizofílicos vão ler mostra o movimento intempestivo de Fernando Pessoa. Sempre deslocamentos sem territórios fixos. Na verdade, desterritorializações sem reterritorializações. 

 pessoa1“Uns COM OS OLHOS postos no passado,

Vêem o que não vêem; outros fitos

Os mesmos olhos no futuro, vêem

O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir por o que está –

A segurança nossa? Este é o dia,

Esta é a hora, este o momento, isto

É que somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora

Que nos confessa nulos. No mesmo hausto

Em que vivemos, morreremos. Colhe

O dia, porque és ele.

Fernando-Pessoa00                            

NÃO QUEIRAS, Lídia, edificar no ‘spaço

Que figuras futuro, ou prometer-te

Amanhã. Cumpre-te hoje, não ‘sperando.

                   Tu mesmo és tua vida.

Não te destines, que não és futura.

Quem sabe se, entre a taça que esvazias,

E ela de novo enchida, não te a sorte

                 Interpõe o abismo?

 

NÃO SEI de quem recordo meu passado

Que outrem fui quando o fui, nem me conheço

Como sentindo com minha alma aquela

Alma que a sentir lembro.

De dia a outro nos desamparamos.

Nada de verdadeiro a nós une –

Somos quem somos, e quem fomos foi

Coisa vista por dentro”.

Os poeminhas encontram-se na obra Ficções do Interlúdio 2/3 – Odes de Ricardo Reis Para Além do outro Oceano de C[oelho] Pacheco.

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