TRÊS POEMINHAS DE DRUMMOND TOCADO DE LEVE NA SUTILEZA.

Carlos Drummond de Andrade poeta pedraO poeta de Itabira é um democrata singular como singular é a liberdade. O poeta de Itabira não seria poeta se não fosse, em liberdade. O poeta de Itabira se movimenta livre em liberdade contínua transcendendo o sentido da linguagem cotidiana que se presta só a confirmar o confirmado. O poeta de Itabira apanha o sitiado e libera sua potência como os lírios do “Marginal Clorindo Gato”.

O poeta de Itabira é Carlos Drummond de Andrade, o Drummond. O mineiro que não se confunde com as minas do Leblon de Aécio, que jamais será poeta de Itabira, e muito menos da liberdade ontológica. Drummond é poeta porque é o dom do mundo que se fala de sua Itabira fala com a letra humanizada. O mundo Natureza-Homem.

Aí, esquizopoeticofílicos! Três poeminhas de Drummond tocando de leve na sutileza, extraídos da obra, A Paixão Medida, publicada em 1980, pela Livraria José Olympio Editora.

Nos movimentos de Pessoa: poeta é preciso viver não é preciso!

Aproveitam a poiesis de Drummond, esquizopoeticofílicos, porque “Tudo mais, em verdade, são ruídos“!

A FOLHA

A natureza são duas.

Uma,

tal qual se sabe a si mesma.

Outra, a que vemos. Mas vemos?

Ou é ilusão das coisas?

 

Quem sou eu para sentir

o leque de uma palmeira?

Quem sou, para ser senhor

De uma fechada, sagrada

arca de vidas autônomas?

 

A pretensão de ser homem

e não coisa ou caracol

esfacela-me em frente à folha

que cai depois de viver

intensa, caladamente,

e por ordem do Prefeito

vai sumir na varredura

mas continua em outra folha

alheia a meu privilégio

de ser mais forte que as folhas. 

 

OS CANTORES INÚTEIS

Um pássaro flautista no quintal

caçoa de meu verso modernista.

Afinal fez-nos ambos o universo

aprendiz ao sol ou à garoa.

 

A canção absoluta não se escreve,

à falta de instrumentos não terrestres.

Aos mestres indagando, mas se escuta

pingar, de leve, a gota de silêncio.

 

Eu, pretencioso, e tu, pássaro crítico,

vence o mítico amor nossa vaidade:

Os amantes que passam, distraídos,

 

surdos a tais cantos discordantes,

a melodia interna é que os governa.

Tudo mais, em verdade, são ruídos.

 

A PAIXÃO MEDIDA

Trocaica te amei, com ternura ddáctila

e gesto espondeu.

Teus iambos aos meus com força entrelacei.

Em um dia alcmânico, o instinto ropálico

rompeu, leonino,

a porta pentâmetra.

Gemido trilongo entre breves murmúrios.

E que mais, e que mais, no crepúsculo ecóico

senão a quebrada lembrança

De latina, de grega, inumerável delícia?   

 

Drummond, além dos três poeminhas, diz o que diz o poeta:

“ Já não quero dicionários

consultados em vão.

Quero só a palavra

que nunca estará neles

nem se pode inventar…”

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: