TRÊS POEMINHAS DE AUGUSTO DOS ANJOS TOCANDO DE LEVE NA MATERIALIDADE DO ESPÍRITO

P1010367Eu? Não! Eu? Sim! Augusto dos Anjos! EU, se movimenta no devir 1912. Augusto dos Anjos ainda liberava potência-materiais. Depois é total intempestividade do EU. Os poetas não nascem. Eles são do mundo. Os poetas só nascem para os não poetas. O tempo: cronologia das imobilidades pausadas. Então, 1889 e 1913 o que diz para o poeta dos Anjos?

P1010368Os poetas não ocupam territórios. São desterritorializados por natureza. A natureza dos poetas é não estar-aí, mas ser evanescente. O EU de Augusto dos Anjos não é uma unidade freudiana, como também não é uma essência fenomenológica, visto não-ser!                                                                                                                                                                                                              

Os poeminhas foram extraídos da obra Augusto dos Anjos EU & OUTRAS POESIAS, publicada pela Livraria Itatiaia Editora Limitada, no ano de 1982.

Só para excitar os ilustradores da história vejam a capa e o contrato da primeira edição dessa obra acontecida em 1912. E com a assinatura do poeta. É claro que não é a assinatura do poeta, já que poeta não é uma entidade instituída pela linguagem social estratificada pela inscrição do Estado. Quem tem assinatura é o cidadão. E alguém enquanto cidadão não é poeta. Já dizia Lucano.

           “Oh! trabalho sagrado e magnífico dos poetas!

              Tu arrancas todas as coisas ao destino, tu dás

              Imortalidade aos povos mortais”.

 P1010370

PSICOLOGIA DE UM VENCIDO

Eu, filho do carbono e do amoníaco,

Monstro de escuridão e rutilância,

Sofro, desde a epigênese da infância,

A influência má dos signos do zodíaco.

 

Profundissimamente hipocondríaco,

Este ambiente me causa repugnância…

Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia

Que se escapa da boca de um cardíaco.

 

Já o verme – este operário das ruínas –

Que o sangue podre das carnificinas

Como, e à vida em geral declara guerra,

 

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,

E há de deixar-me apenas os cabelos,

Na frialdade inorgânica da terra.

                                A IDEIA

De onde ela vem? De que matéria bruta

Vem essa luz que sobre as nebulosas

Cai de incógnitas criptas misteriosas

Como as estalactites duma gruta?

 

Vem da psicogenética e alta luta

Do feixe de moléculas nervosas,

Que, em desintegrações maravilhosas,

Delibera, e depois, quer e executa!

 

Vem do encéfalo absconso que a constringe,

Chega em seguida às cordas da laringe,

Tísica, tênue, mínima, raquítica…

 

Quebra a força centrípeta que a amarra,

Mas, de repente, e quase morta, esbarra

No molambo da língua paralítica!

                           AGONIA DE UM FILÓSOFO

Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto

Rig-Veda. E, antes obras tais, me não consolo…

O Inconsciente me assombra e eu nele rolo

Com a eólica fúria do harmatã inquieto!

 

Assisto agora à morte de um inseto!…

Ah! Todos os fenômenos do solo

Parecem realizar de polo a polo

O ideal de Anaximandro de Mileto!

 

No hierático areópago heterogêneo

Das ideias, percorro como um gênio

Desde a alma de Haeckel á alma cenobial!…

 

Rasgo dos mundos o velório espesso;

E em tudo igual a Goethe, reconheço

O império da substância universal!

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: