TRÊS POEMINHAS DE CECÍLIA MEIRELES TOCANDO DE LEVE NA CRIANÇA

Cecília-Meireles1Cecília Meireles! Quem é Cecília Meireles, esquizofílico? Você sabe muito bem! Que Bom! Cecília Meireles é Cecília Meireles nada mais do que Cecília Meireles. Por isso que ela nos concedeu seus três poeminhas para tocar de leve na criança que sempre será o tempo como devir-poiético.

Este devir-criança nos descodificou e nos deveio Criança, A Menina e a Estátua e As Formigas. Três poeminhas extraídos dos livros Viagem e Mar Absoluto e Outros Poemas contidos em sua obra completa publicada no ano de 1994, pela Editora Nova Aguilar S.A.

Como o poema é fluxo evanescente, devir-criança, a poetisa Cecília Meireles nos devém leveza-singela. O que não é assinalável, formado, pessoalizado e significado. É tão somente movimento.

Então, vamos nessa leveza-singela!

 Cecília_Meireles

                               CRIANÇA

Cabecinha boa de menino triste,

de menino triste que sofre sozinho,

que sozinho sofre, – e resiste.

 

Cabecinha boa de menino ausente,

que de sofrer tanto se fez pensativo,

e não sabe mais o que sente…

 

cabecinha boa de menino mudo

que não teve nada, que não pediu nada,

pelo medo de perder tudo.

 

Cabecinha boa de menino santo

que do alto se inclina sobre a água do mundo

para mirar seu desencanto.

 

Para ver passar numa onda lenta e fria

a estrela perdida da felicidade

que soube que não possuiria.

 cecilia20meireles

                          A MENINA E A ESTÁTUA

A menina que brincar com a estátua da fonte,

que é uma criança nua, em cuja cabeça os passarinhos

pousam, depois do banho,

antes de voarem para longe.

 

A menina, com muita precaução,

Toca o braço da estátua,

e fala com ela essas coisas com outro sentido

que as crianças dizem umas as outras,

ou aos objetos com que conversam,

ou a si mesmas, quando estão sozinhas.

 

A menina insiste com a estátua,

Convida-a a descer do plinto,

Passa o dedo pelos seus pés de bronze,

Examinando-os e persuadindo-a.

 

E diante de tal silêncio,

fica séria e preocupada,

mira a estátua de perto,

como a um pequeno deus misterioso,

caminha de costas, mirando-a,

e fica de longe a mirá-la,

por um momento prolongado e respeitoso.

 vida-cecilia

                         AS FORMIGAS

Em redor do leão de pedra,

as beldroegas aramam lacinhos

vermelhos, roxos e verdes. No meio da areai,

um trevo solitário

pesa a prata do orvalho recebido.

As areias finas são de ouro,

e, as grossas, como grão de sal.

Cintila uma lasca mica,

junto ao cadáver de um cigarro

que a umidade desenrolou.

E o cone torcido de um caramujo pequenino

pousa entre as coisas da terra

o vestígio e o prestígio do mar,

que elas não viram.

Nessa paisagem tranquila,

umas formigas pretas,

de pernas altas,

atravessam num tonto ziguezague

as areias grossas e finas,

e vêm pesquisar por todos os lados

cada folha de beldroega,

roxa, vermelha e verde.

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