A BELEZA DE GONZAGUINHA, ETERNO APRENDIZ

image_largeOlha, esquizofílico! Uma matéria estética/musical/jornalística em intensidade revolucionária: A Beleza de Gonzaguinha, Eterno Aprendiz. Um trabalho do jornalista Danilo Di Giorgi com exclusividade para a Rede Brasil Atual.

Um trabalho que mostra a pulsão-desejo em forma de compositor, cantor, companheiro e coletivo. Gonzaguinha é expressão e o conteúdo da música como estética da liberdade. O desejo que fazia a ditadura tremer e acionar todos os seus tacões repressores, visto que a função básica de toda ditadura é vedar todas as fendas por onde podem vasar linhas de fuga de desejos construtores de liberdades.

Uma frustração para o poder organizado como repressor, já que Gonzaguinha é moleque. O moleque que todo tirano-escravo tem pavor. O moleque, vida ativa, oposto  do reativo. O que diz não a vida.

Leiamos a matéria estética/musical/jornalística

Cantor e compositor carioca, de personalidade enigmática, ficou conhecido pela originalidade, autenticidade e por não fazer questão de agradar nem público nem crítica.

por Danilo Di Giorgi

Zangado, divertido. Amargo, amoroso. Mal-humorado, brincalhão, fechado, delicado, antipático. Adjetivos tão díspares ainda hoje são citados para definir uma das mais enigmáticas personalidades da MPB: Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha, que teria completado 70 anos em setembro. O cantor e compositor carioca criou canções poderosas que marcaram os anos 1970 e 1980, daquelas que todo mundo sabe cantar quando lembradas em uma roda de violão. Algumas celebrizadas em vozes como as de Maria Bethânia (Grito de Alerta, Explode Coração), outras imortalizadas por ele próprio (É, Com a Perna no Mundo, Sangrando, O Que é, O Que é, Começaria Tudo Outra Vez).

Mas, afinal, quem era aquela figura mirrada, com seus 56 quilos distribuídos em 1,76 metro de altura, morta prematuramente em um acidente automobilístico aos 45 anos? Ainda que fosse autor de canções ásperas, comoPiada Infeliz e Erva, como imaginar “azedo” o autor de odes à alegria, como A Felicidade Bate à sua Porta eFeijão Maravilha, sucessos em versões dançantes de As Frenéticas?

“Para saber do Gonzaga você precisa ouvir seus amigos mais próximos. Esses vão falar da pessoa maravilhosa que ele era, brincalhão, bem-humorado, uma pessoa boníssima, que sempre ajudava os outros”, defende a viúva Louise Margarete Martins, a Lelete, casada com o artista de 1980 até o acidente fatídico.

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“Era uma mala sem alça e sem rodinha”, brinca, carinhoso, o filho Daniel Gonzaga. O compositor e cantor Daniel e a cantora Fernanda Gonzaga são seus filhos mais velhos, do primeiro casamento. “Ele era muito autêntico, verdadeiro e transparente. É engraçado que as pessoas sempre buscam clareza e autenticidade, mas quando encontram se assustam”, diz Fernanda, prestes a finalizar a gravação de uma série de inéditas do pai. Lelete concorda: “As pessoas têm medo de conviver com a verdade, e ele era muito verdadeiro, não criava situações folclóricas pelo fato de ser famoso. Hoje ele se daria melhor com aquele jeitão dele”, afirma. “O ser artista compreende muitas vezes estar do lado oposto do público. Mas meu pai sempre teve uma política diferente. Ele não se distanciava do povo, ele gostava de estar perto do povo. Isso fazia ele estar em qualquer lugar e ser a pessoa Gonzaguinha”, diz Daniel.

A jornalista Regina Echeverria conheceu o músico em 1979, ano em que o artista se consolidava sucesso nacional. Regina havia sido escalada para fazer uma reportagem para uma revista semanal. E nasceu uma amizade que resultou na biografia Gonzaguinha e Gonzagão – Uma História Brasileira, publicada somente em 2012. “Cheguei na casa de shows para a entrevista e pediram para esperar. Vi uma pessoa que parecia ser ele no meio dos trabalhadores carregando caixas, e fiquei em dúvida se aquela pessoa simples era mesmo a grande estrela da MPB”, relata a jornalista. “Era uma figura única, detestava dar autógrafo, achava um absurdo a pessoa querer levar um papel assinado. Mas não negava simplesmente o autógrafo, ficava ali conversando com o fã, explicando que valia mais a pena conversar um pouco e levar um pouco da pessoa dele. Ele era meio doutrinador”, conta, aos risos.

Paternidade

É certo que Luiz Gonzaga Júnior nasceu em 1945 no Rio de Janeiro. E que sua mãe se chamava Odaléia Guedes dos Santos, cantora da boate Dancing Brasil. E que ela e Gonzagão, este ainda em início de carreira, apaixonaram-se e tiveram um relacionamento amoroso. É de conhecimento também que Odaléia morreu de tuberculose quando o menino tinha 2 anos. A partir desse ponto, as versões divergem. Muitos afirmam que Odaléia já estava grávida quando conheceu aquele que viria a ser o Rei do Baião; outros sustentam que o filho é de Gonzagão. “Sempre houve desconfiança em relação à paternidade biológica. E eu não tinha nenhuma prova concreta, já que os dois, em vida, não quiseram fazer o teste de DNA”, afirma a biógrafa.

Gonzagão separou-se de Odaléia logo depois do nascimento do menino. Depois viveu com Helena Cavalcanti até o final de seus dias e não teve com ela filhos biológicos. Lelete acredita que a infertilidade não seria problema de Gonzagão e sim de Helena, que nunca aceitou Gonzaguinha. A madrasta teria inventado ou estimulado a versão que ficou para a história para prejudicar a relação entre pai e filho.

lado_esquerdo_peito_foto_Jorge_Gontijo_EM_D_A_Press“Seria estranho que um nordestino tradicional e conservador como meu sogro colocasse seu nome em um filho que não era seu, você não acha? Eu tenho certeza de que o Gonzaga era filho biológico do Gonzagão”, afirma Lelete, lembrando que sua filha Mariana é a cara do avô. “Ele fez uma música para a neta, e sempre falava que a boca dela tinha o mesmo formato e a mesma cor da boca dele”, diz. O fato é que Gonzaguinha cresceu longe do pai – por conta da morte da mãe, da rejeição da madrasta e das turnês em que Gonzagão passava longos períodos longe. “Imagina a situação dele, crescendo no morro, por vezes com restrições materiais e longe do pai. Ninguém acreditava quando ele falava que era filho do Rei do Baião. Ele teve motivos para colocar uma parede entre ele o mundo. Mas por trás dessa parede havia essa pessoa maravilhosa e muito sensível”, diz Regina Echeverria.

Com seus pais adotivos Leopoldina de Castro Xavier e Henrique Xavier (o Baiano do Violão), o menino cresceu no Morro de São Carlos, uma das mais antigas favelas cariocas e um dos berços do samba, onde foi fundada a primeira escola de samba da cidade, a Deixa Falar. Nomes como Luiz Melodia, Ângela Maria, Grande Otelo, Madame Satã e Aldir Blanc têm sua história ligada ao morro. Baiano do Violão tocava na Rádio Tamoio e foi quem ensinou ao filho adotivo os primeiros acordes.

Gonzagão era pouco presente. “De tempos em tempos ele vinha me visitar, ia me levar pra comprar uma roupa. Geralmente aparecia e eu não estava em casa”, disse Gonzaguinha em uma entrevista de 1979. Quando tinha 16 anos, apesar dos desentendimentos com a madrasta, resolveu mudar para a casa do pai, na Ilha do Governador. “Ele não acreditava em mim pela minha formação, não tinha domínio sobre mim, temia que eu não virasse boa coisa.” O filho vivia trancado no quarto com o violão, não respeitava a rotina da casa nem interagia com a família. Discussões eram comuns e o rapaz não tinha medo de se expressar. O pai acabou levando o jovem para um colégio interno.

Não se sabe ao certo por que Gonzaguinha resolveu estudar Economia, se por desejo pessoal ou insistência do pai, que fazia questão que o filho tivesse “anel no dedo”. Ingressou em 1967 na Faculdade Cândido Mendes e nessa época a divergência entre ele e o pai chegou ao campo da política. Ele se engajou em movimentos estudantis contra o golpe de 1964, mas Gonzagão tinha visão conservadora. “Meu sogro tinha fotos do Geisel e do Médici na parede de casa. Era a referência que ele tinha de política do sertão, onde as coisas eram diferentes”, afirma Lelete.

As diferenças só vieram a ser resolvidas no início dos anos 1980, com a turnê Vida de Viajante, que percorreu o Brasil por quase um ano com os dois lado a lado no palco. “Esse reencontro com o pai foi maravilhoso para ele. Ele se tornou uma pessoa menos zangada, mais alegre, mais feliz, perdeu aquele hermetismo, se abriu para o mundo. O pai finalmente o reconheceu como um grande músico. Era o que ele queria”, conta o amigo íntimo, o cantor e compositor Ivan Lins. “Compusemos Debruçado nas escadas da casa da Rua Jaceguai. Aliás, eu fui o único com quem ele fez parceria. Isso era em parte pelo jeito dele, mais reservado, mas também porque ele era muito bom tanto na composição quanto nas letras, escrevia extraordinariamente bem”, diz Ivan, padrinho de Daniel.

Do MAU

A casa da Rua Jaceguai era a residência do psiquiatra Aluízio Porto Carrero, na Tijuca, berço do Movimento Artístico Universitário (MAU). Aluízio fora instrumentista do Cassino da Urca e gostava de reunir amigos para conversas, jogos de cartas e rodas de violão. Entre os presentes sempre estavam Gonzaguinha, Ivan Lins, Aldir Blanc, Paulo Emílio e César Costa Filho. Servia-se durante os encontros, com concha de sopa, uma lendária batida de maracujá preparada dentro de uma grande panela. Os violões passavam de mão em mão e as pessoas cantavam em coro. Foi lá que Gonzaguinha conheceu Ângela, sua primeira mulher e filha de Aluízio.

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“Éramos um grupo com pretensões de romper as barreiras do mercado de trabalho, com a consciência de que os festivais não projetavam ninguém”, diz Ivan Lins. O MAU acabaria sugado pela TV Globo, que em 1971 lançava o programa Som Livre Exportação, o que provocou desentendimentos entre os membros do grupo. Em 1973, Gonzaguinha participou do programa de Flávio Cavalcanti, apresentando a músicaComportamento Geral. Os jurados ficaram apavorados com a letra: “Você deve aprender a baixar a cabeça e dizer sempre muito obrigado/ São palavras que ainda te deixam dizer por ser homem bem disciplinado/ Deve pois só fazer pelo bem da Nação tudo aquilo o que for ordenado”.

O evento o projetou e chamou atenção da censura. Das 72 canções apresentadas aos censores antes de gravar seu primeiro disco, 54 foram barradas. Sua postura pouco dócil aos olhos dos meios de comunicação custaram-lhe naquele início de carreira o apelido de “cantor rancor”. Com a abertura política na segunda metade dos anos 1970, começou a modificar o discurso e a compor canções mais profundas e menos políticas. Em 1975, dispensou empresários e se tornou artista independente. Em 1986 criou o selo Moleque, pelo qual chegou a lançar dois discos.

Gonzaguinha passou os últimos 12 anos de vida colecionando sucessos e vivendo de forma tranquila com a família em Belo Horizonte. O músico dedicava-se a pesquisar novos sons e raramente passava longos períodos longe de casa. O acidente que tirou sua vida aconteceu na manhã do dia 29 de abril de 1991. Gonzaguinha seguia a Foz do Iguaçu (PR), de onde tomaria um avião com destino a Florianópolis. Um ano e meio antes, em agosto de 1989, havia partido Gonzagão, aos 76 anos, vítima de uma parada cardiorrespiratória.

“Eu acho que estou aprendendo aos poucos. Eu espero que agora eu agrida menos as pessoas do que há alguns anos. Quanto menos eu agredir as pessoas no futuro, para mim é melhor. Eu ainda tenho muita coisa pra aprender, devagar e tal. Mas um dia, quem sabe, eu chego lá. Eu tenho paciência pra aprender.” Essa declaração, feita pelo artista em dezembro de 1990, talvez responda à questão apresentada no início deste texto: Gonzaguinha era apenas autêntico e verdadeiro, em busca permanente e sincera de se tornar um homem e um artista melhor a cada dia. Como a vida devia ser.

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