TRÊS POEMINHAS DE MARCUS PEREIRA TOCANDO DE LEVE NAS “INCONFIDÊNCIAS”

2014-768310060-79-2497-03.jpg_20141219É sabido até pelas pedras que não rolam, por isso criam limos, que Marcus Pereira é um insigne produtor musical e que lançou, através de seu selo-musical Discos Marcus Pereira, talentosos compositores e cantores como Chico Maranhão, Cartola, Marcus Vinicius, entre outros. Mas o que é pouco sabido é que ele também é poeta.

Marcus Pereira, o poeta, é que vai, por esse talento, nos apresentar três poeminhas de sua poética “Inconfidências”, publicada no ano de 1977 pela Editora Hucitec. Trata-se de uma obra histórica no universo dionisíaco e apolíneo brasileiro.

Se na produção dos discos de compositores e cantores revelados por si, Marcus Pereira recorreu à sofreguidão criativa de Dionísio, na criação de seus poemas é visível à formalidade-estética de Apolo. Porém, há em cada poema seu, o misto dionisíaco e apolíneo. Em alguns momentos, é Dionísio quem transpira. Em outros é Apolo quem inspira.

Leiamos os três poeminha!

  SENHA

Tome da brisa a parte mais perfeita

– a que ondula a penugem dos pássaros.

Tome do amor a breve circunstância

em que, da coragem de ousar, se guarda o frêmito.

Tome da lágrima o silêncio que ela quebra.

Tome do medo a paz que vem depois.

Tome do riso o que ele tem por trás.

E o que faltar agora,

Você já pode achar.

             (São Paulo, 1971)

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                                          ADEUS

O mar, debruçado no horizonte,

Entregou o navio em que eu parti

Ao nada que fica dele adiante

E engole a ele, a mim e a ti.

 

Depois – é só lembrança da partida,

Agora – é só olhar e não ver nada

E a lágrima de há pouco é esquecida

Porque o adeus não espera a madrugada.

               (São Paulo, 1967)

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                                CONVALESCENTE

Minha durabilidade comprometida

Eis-me.

Tornei-me de repente, precário

Como um punhado de espuma.

Por isso o vento me dispersa.

Não tenho nenhuma energia:

Nem a que produz os movimentos

Nem a que produz brados ou apelos.

Restam-me os gemidos

Porque condoem.

Resta-me também a certeza

De que me tornei

Solúvel.  

                         (São Paulo, 1975)

“Pois Marcus Pereira é um desses híbridos, ou mestiços, às vezes perfeito, às vezes negligente, mas cheio de sensibilidade, de lirismo e quase sempre com grande talento”.

Escreveu seu amigo, Paulo Duarte, no prefácio de sua obra poética.

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