Irmãs na vida e na estrada, Celia e Celma registram os muitos estilos do Brasil

image_largeAs cantoras Celia e Celma saíram de Ubá, em Minas, para percorrer o país, registrar cores, costumes e ritmos, em defesa da cultura popular.

por Vitor Nuzz

Estridente, o apito da chaleira invade a sala e outros cômodos da casa, avisando sobre o café, ao lado do fogão a lenha, enquanto se espera os tucanos aparecerem do lado de fora. Costumam ser pontuais. Dia desses, um pica-pau quebrou um vitrô, ficou com o bico preso e precisou de ajuda para sair. O local lembra o interior de Minas Gerais, mas fica em uma área tranquila da zona norte de São Paulo. Não há o que estranhar – ali ficam as irmãs Celia e Celma, cantoras, artistas, pesquisadoras de cultura popular, que a qualquer momento podem pegar o carro e sair pelo país, filmando e gravando, atrás de algum violeiro ou grupo de dança, em mais um registro de tantas expressões de arte às vezes esquecidas.

Elas lembram que, naquela mesma casa, Wilson Simonal era presença constante – e certa vez protagonizou um encontro memorável do samba brasileiro com o semba angolano, com um grupo de músicos do país africano. Teve também uma turma de 26 violeiros tocando catira e quase derrubando o terraço. A dupla Cacique e Pajé, o cacique Juruna, o cantor e compositor Geraldo Vandré, muita gente já andou por ali.

E as irmãs já andaram por muitos lugares. Além de percorrer o Brasil todo, fizeram temporada de seis meses no Japão, em um bar chamado Saci Pererê, com músicos japoneses. “O nosso violonista era um Baden Powell”, lembra Celma. Ela e a irmã praticamente introduziram o carnaval no Oriente.

Quem chegou primeiro?

Desde pequenas elas sabiam o que queriam: fazer arte. Celia foi para a bateria, Celma aprendeu a tocar baixo acústico. Até formaram um grupo, chamado Garotas. As irmãs mais velhas ensinavam – uma tocava acordeom, era locutora de rádio. Também tiveram forte influência do pai, Celidonio ­Mazzei. “Um toscano, amante das artes”, lembra Celia. Inicialmente tocador de bombardino, um instrumento de sopro, na banda da rua, Celidonio foi um conhecido fotógrafo de Ubá, interior de Minas Gerais, onde as irmãs nasceram. Não se sabe qual delas chegou antes ao mundo.

“Há controvérsia”, brinca Celia. “A parteira não sabia que eram duas. Mamãe também não.” Assim, uma das meninas nasceu e a outra ficou esperando ainda três horas.

Antes de partir definitivamente para o mundo da cultura, Celia e Celma tornaram-se professoras. Passaram três anos alfabetizando crianças. Dos pais dos alunos, na zona rural, recebiam o pagamento: galinha, fubá, feijão, cana… E iam ouvindo música, que sempre tocava, principalmente ópera, praticando balé aquático, basquete, aprendendo a cozinhar, a fazer artesanato. A casa tem vários “anjinhos” feitos por elas. Em algumas paredes, fotos do pai, inclusive a de um zepelim sobrevoando Ubá, em 1930.

Tiro de sal no pomar

Até que elas foram para o Rio de Janeiro. “E batemos na porta da televisão”, recorda Celma. Foram contratadas como humoristas, as “gêmeas­ Bond”, por Moacyr Franco. “A gente fazia o que aparecia.” Ainda no Rio, cantaram na orquestra de Ed Maciel e destacam a importância de serem crooners na formação musical, pois tinham de aprender todo tipo de estilo. Entre tantas atividades, cursaram Licenciatura em Música, pelo Instituto Villa-Lobos.

Já em São Paulo, as duas trabalharam com gente como o pianista Luiz Carlos Vinhas e os diretores e produtores Luíz Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli. Ainda no início da carreira, conheceram Carlos Imperial e formaram – com ele, Ângelo Antônio e Gastão Lamounier Neto – um grupo vocal chamado A Turma da Pesada, sucesso nos anos 1970. Pouco antes, no final da década anterior, ganharam um festival em Juiz de Fora, com a músicaMandinga (Ataulfo Alves e Carlos Imperial), ao lado da também mineira e iniciante Clara Nunes.

A cultura entrou na vida das meninas desde cedo, quando aprendiam os bordados, o artesanato popular, com a participação nas encenações litúrgicas e acompanhando manifestações folclóricas da região, as folias (de Reis e do Divino), os congados. Em 2011, elas gravariam o CD Lembrai-vos… das Procissões e Devoções de Minas, com os cânticos sacros dos tempos de infância e adolescência. “É um trabalho de resgate, de uma das vertentes que fizeram parte da nossa formação, que é a religiosidade”, diz Celma.

A cozinha era outra fonte de conhecimento: a mãe, Gioconda, cozinhava em fogão a lenha, com panela de pedra. Mais tarde, as irmãs sairiam pela região colhendo receitas típicas, que resultariam em dois livros –Cozinha Caipira de Celia e Celma e Do Jeitinho de Minas – e um CD com receitas cantadas. Do Jeitinho de Minas ganhou prêmio internacional em 2006, na categoria Culinária Regional, com premiação em Pequim.

Foi uma infância com direito a travessuras, como pular o muro do vizinho para apanhar frutas. Um casarão. “Um pomar!”, exclama Celia, como que visualizando as carambolas, mangas, jabuticabas, laranjas, mexericas, frutas-do-conde, os pêssegos. “Não dava para obedecer pai e mãe…”, completa Celma, responsável por receber as frutas, estendendo a saia, que Celia e um irmão jogavam lá do alto. Uma vez, a aventura terminou com um tiro de sal que atingiu Celia em região estratégica.

Aquarela de Minas

O casarão era da família de um filho famoso de Ubá, o compositor e locutor Ary Barroso (1903-1964). As irmãs colheram preciosidades da obra de Ary, que foi fotografado pelo pai das moças, Celidonio – muitas imagens raras podem ser vistas pela casa. “Ele estava sendo completamente esquecido (em Ubá)”, conta Celia. Em 1997, elas lançaram o LP Ary Mineiro, mostrando faces desconhecidas do autor de Aquarela do Brasil. No garimpo, descobriram pérolas como Aquarela Mineira, composta 11 anos depois da obra mais conhecida do compositor. E também Mês de Maria, que remete à religiosidade tão presente no interior de Minas. Tem também Teus Óio, primeira composição de Ary.

De 1998 a 2007, as irmãs apresentaram um programa no Canal Rural. “Dez anos”, arredonda Celia. “Nove e meio”, corrige Celma. Quando uma irmã fala, a outra acompanha atentamente. Às vezes fazem pequenas correções, em outras acrescentam dados. Complementam-se. No canto, Celia faz a primeira voz e Celma, a segunda. Partilham uma brincadeira desde a infância, de falar “ao contrário”, de trás para a frente. Vale como um código entre as duas, usado também quando não querem que alguém entenda o que estão falando. Chegam a cantar algumas canções nesse “idioma”. No trabalho, a seleção de repertório não causa atritos: “Escolhemos juntinhas, sem nenhuma desavença”.

O programa do Canal Rural retratava a diversidade da cultura popular. Ali, o violonista gaúcho Yamandu Costa fez a sua primeira apresentação. Ali passaram João Pacífico, Mario Zan, Pena Branca e Xavantinho, Dominguinhos, entre dezenas de artistas. Hoje, elas alimentam a ideia de voltar à TV. E, em tempos de redes sociais, pensam qual a melhor maneira de entrar no chamado mundo virtual.

As duas lembram com carinho de passagens como as gravações de Ana Raio e Zé Trovão, novela exibida na extinta TV Manchete, em 1990. Ou as temporadas com Cauby Peixoto, no Rio, em 1984. Agora, Celia e Celma preparam novo projeto, o disco Canto com C, que trará estilos cujos nomes começam com essa letra e remontam à mistura entre índios, africanos e portugueses que desaguou na arte brasileira: congada, ciranda, cana verde, chimarrita, cavalo-marinho. Cantarolam, afinadas, fazendo percussão na mesa: Vem, meu boi bonito/ Vem dançar agora/ Já deu meia-noite/ Já rompeu a aurora

“Nossos discos são atemporais”, diz Celma. “São temáticos”, comenta Celia. Como o CD Brasil na Mesma Toada (2000), um mergulho nesse gênero musical, com obras dos tradicionais João de Barro, João Pacífico e Herivelto Martins e de autores como Raul Seixas, Ivan Lins e Caetano Veloso. “Ninguém pode nos cobrar um estilo. Nosso estilo é brasileiro”, concluem.

A tarde cai, o café é servido novamente, e os tucanos não aparecem. Em compensação, lá fora um bando de papagaios faz algazarra passando de uma árvore para outra.

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