“A base fundamental para os direitos humanos é a democracia”, defende secretário em mostra de cinema

09-12-15_mostra-divulgacaoA 10a Mostra de Cinema e Direitos Humanos no Mundo busca a conscientização e educação através da cultura. Para secretário de Direitos Humanos, Rogério Sottilli, “a expressão cultural é constituinte da luta dos movimentos sociais”.

Da Redação

Em comemoração ao aniversário da Declaração Internacional de Direitos Humanos, a 10a Mostra de Cinema e Direitos Humanos no Mundo acontece em todas as capitais federais do Brasil. O evento tem como objetivo desmistificar o significado de Direitos Humanos e debater pela cultura as violações de direitos cotidianas que passam despercebidas.

09-12-15_filme-mostra-divulgacaoEm entrevista ao Brasil de Fato, o secretário especial de Direitos Humanos do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, Rogério Sottilli, debate a importância do evento e do uso de diferentes linguagens para abordar as temáticas de direitos e igualdade.

Brasil de Fato – Qual a importância da produção artística para a produção de uma cultura de direitos humanos no país?

Rogério Sottilli – A gente sempre trabalhou com a perspectiva de direitos humanos a partir da cultura, da educação e especialmente a partir da linguagem cinematográfica. É uma linguagem que sensibiliza muito as pessoas para discutir novos valores. A ideia de trabalhar com essa linguagem, com a cultura, nasce de uma percepção de que há uma interpretação muito equivocada de direitos humanos, que resume apenas a defesa de bandidos. Não há uma interpretação dos direitos humanos em enxergar a pessoa, independente de raça, de gênero, de classe, mas todas elas como seres com direitos. O movimento de direitos humanos destaca e defende os direitos dessas pessoas de forma universal. A linguagem cinematográfica, quando faz um filme que aborde a identidade de gênero, promove uma reflexão, promove um debate sobre valores. E o debate você faz em qualquer ambiente. O debate cultural é importante para discutir estes valores.

Quais outros projetos previstos para promover os direitos humanos?

Eu quando vim pra secretaria [de Direitos Humanos] de São Paulo, eu vim com essa intenção de trabalhar através da cultura os direitos humanos. Aqui na cidade nós fizemos o festival de direitos humanos e o show de direitos humanos que está fazendo um belo sucesso. A mostra de cinema completa dez anos e está muito bem distribuída em todos os estados. Eu quero trabalhar a partir de agora com os festivais de direitos humanos [em âmbito federal]. Vamos ver a questão de recursos e analisar também se é o caso de retomar com o show de direitos humanos. Porque quando você faz um show de direitos humanos em São Paulo já impacta de forma muito importante, mas imagina fazer um desses em Rondônia, em Palmas. O impacto é muito grande, até porque a quantidade de atividades culturais não é tão grande quanto São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte. Eu quero tomar o debate a partir da cultura, porque ela causa uma mobilização na população. Para você não ficar com aquela agenda reativa em defesa dos direitos humanos, mas você começar a promover através da cultura e sensibilizar a sociedade civil.

Como você tem avaliado esse momento na disputa de valores com a sociedade brasileira?

Nós estamos vivendo no Brasil um momento muito difícil. Momento em que as forças conservadoras, as forças reacionárias perderam a vergonha e vieram para a sociedade fazer a disputa a partir de seus valores, tentando derrotar os direitos conquistados e promover retrocessos. Isso tem colocado os movimentos sociais na defensiva e, dentro desse quadro, se faz muito mais importante fazer esse debate. Nós precisamos chegar pra sociedade e ir pra rua e debater por que é importante mudar o nome do elevado Costa e Silva. Por outro lado, não adianta só mudar o nome, precisamos dizer quem foi Costa Silva, o criador do AI-5, patrocinador do golpe, que motivou muita tortura e muitas mortes no nosso país.

Além disso, diante da pouca transparência que levou o nosso país a ter uma marca muito forte de desvio de recursos públicos e que até hoje pagamos o preço por isso. Tanto pela violência quanto pela corrupção. O momento que o Brasil vive é um momento muito difícil, é um momento em que muitos estão tendo coragem de ir às ruas pedir a volta da ditadura. É um momento de muitos discursos de ódio e não podemos fazer o debate com a mesma linguagem, nós temos que ter criatividade, temos que ter capacidade de mostrar as grandes reflexões sobre o que esta acontecendo.

Os estudantes secundaristas em São Paulo deram um exemplo de luta ao ocuparem as escolas contra a “reorganização” educacional do Governo Alckmin (PSDB), e vem contando com o apoio de diversos artistas e promovendo uma série de expressões artísticas. Você acha que os movimentos que têm surgido estão usando a cultura como uma forma de mobilização?

A cultura é intrínseca aos movimentos sociais. O que está acontecendo na ocupação das escolas em São Paulo é um movimento lindo, original e extremamente simbólico. Encontraram na cultura uma forma de resistência porque a cultura, além de produzir simbologia à resistência, ela cria mística, para se fazer a luta com muito mais determinação. Ela acaba sensibilizando a sociedade como um todo, conquistando apoio para o movimento de luta pelas escolas. A expressão cultural ela é constituinte da luta e a luta se utiliza da expressão cultural como parte fundamental. Seja na motivação interna, na construção da identidade política, na construção da sua unidade de luta, mas ela também acaba sensibilizando a sociedade civil. Para mim, a expressão cultural é constituinte da luta dos movimentos sociais.

O que precisa em nossa sociedade, nesse cenário de domínio da política institucional por setores conservadores, para o avanço dos direitos humanos?

A base fundamental para a existência e para a promoção dos direitos humanos é a democracia, ela deve proporcionar espaços de participação popular e temos que valorizar, em especial, a democracia representativa. Nós sabemos o quanto está em crise a nossa democracia representativa, ela tem produzido retrocessos bastante significativos. O Brasil vive hoje um momento muito difícil, estão tentando dar um golpe de Estado, tentando promover o impeachment de uma presidente legitimamente eleita pelo povo brasileiro. Em menos de um ano foram utilizados todos os artifícios possíveis para tentar criar condições de ingovernabilidade.

O Brasil vai pagar muito caro por tudo que estão fazendo, aqueles que não conseguem aceitar os resultados eleitorais com apoio de grande parcela da mídia brasileira. Isso é muito triste. Nós temos que construir uma linguagem democrática para fazer essa disputa política e, nessa perspectiva, os direitos humanos são extremamente importantes. Vamos para as ruas, vamos nos mobilizar, vamos fazer debates políticos democráticos da melhor forma possível e não com a linguagem da intolerância e da violência. E, nesse momento, o Festival dos Direitos Humanos, as ocupações das escolas e os debates são fundamentais para dar uma resposta a altura, sobre que não toleraremos retrocessos.

muitos discursos de ódio e não podemos fazer o debate com a mesma linguagem, nós temos que ter criatividade, temos que ter capacidade de mostrar as grandes reflexões sobre o que esta acontecendo”, afirma, e acrescenta: “Nós temos que construir uma linguagem democrática para fazer essa disputa política e, nessa perspectiva, os direitos humanos são extremamente importantes”.

Nesta quinta-feira (10), dia que marca os 67 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, sessões extras ocorrem em cinemas de todo o país. Para saber a programação completa, acesse o site da Mostra de Cinema e Direitos Humanos, que conta com 40 filmes nacionais e estrangeiros.

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