TRÊS POEMINHAS DE PROUST TOCANDO DE LEVE EM TRÊS MÚSICOS

em-busca-do-tempo-perdidoNão somos nós deste Esquizofia quem comenta a originalidade e singularidade do romancista, poeta, contista e crítico, autor do revolucionário Em Busca do Tempo Perdido, que afetou filósofos como Sartre, Deleuze, Guattari entre outros, Marcel Proust, mas ninguém menos que outro eminente poeta e escritor André Gide.

Escreve André Gide sobre o “desconcertante” Proust.

“A escrita de Proust é… a mais genial que conheço. Procuro suas qualidades predominantes e não consigo encontra-las; ela não tem esta ou aquela qualidade: tem todas… Tão desconcertante é a sua destreza que todo e qualquer outro estilo perto do seu parece afetado, desbotado, impreciso, sumário, inanimado”.

Marcel_Proust_1900

                                            MOZART

Italiana de braço com um Príncipe da Baviera

Cujo olhar tristonho e frio se encanta com seu langor

Em seus jardins friorentos aperta ao coração

Os duros seios na sombra, a apalpar a luz.

 

Sua terna alma alemã – suspiro tão profundo! –

Goza enfim a ardente preguiça de ser amada,

Ele confia às mãos frágeis demais para retê-la

A luzente esperança de sua fronte encantada.

 

Querubim, Don Juan! Longe do ouvido que fana,

De pé entre os aromas, tanto pisa as flores

Que o vento dispersou sem lhes secar o pranto

Dos jardins andaluzes às tumbas da Toscana!

 

No parque alemão onde o tédio bruma,

A italiana ainda é rainha da noite.

Seu hálito faz o ar suave e espiritual

E sua Flauta mágica escoa, amorosa,

Na sombra ainda quente dos deuses de um dia,

O frescor dos sorvetes, dos beijos e do céu.

Marcel Proust

                               CHOPIN

Chopin, mar de suspiros, lágrimas, soluços

Que um vôo de borboletas cruza sem pousar

Brincando com a tristeza ou dançando sobre as ondas.

Ama, sonha, sofre, grita, acalma, encanta ou embala,

Fazes sempre escorrer entre cada dor

O olvido vertiginoso e doce do teu capricho

Como as borboletas voam de flor em flor;

E então de tua mágoa é cúmplice a alegria:

O ardor do turbilhão aumenta a sede de prantos.

Pálido, suave companheiro da lua e das águas,

Príncipe do desespero ou fidalgo traído,

Tu te exaltas ainda, mais belo em seres pálidos,

Com o sol que inunda o teu quarto de doente

Que lhe chora a sorrir e sofre de o ver

Sorrir de pena e das lágrimas da Esperança!

Photo-by-Otto

                                 SCHUMANN

Do velho jardim, cuja amizade te embalou,

Ouves rapazes e ninhos que assobiam nas sebes,

Namorados exaustos de tantas chagas e etapas.

Schumann, soldado sonhador que a guerra desiludiu,

 

A brisa feliz, onde passam pombos, impregna

do aroma do jasmim a sombra da grande nogueira,

a criança lê o futuro na chama da lareira,

nuvem ou vento falam-te ao coração das tumbas.

 

Outrora teu pranto corria ao grito de carnaval

Ou sua doçura à vitória amarga se mesclava

Cujo ímpeto louco freme-te ainda na memória;

Podes chorar sem fim: ela pertence a teu rival.

 

Em Colônia o Reno rola as águas sagradas.

Ah! Como te cantavam alegremente os dias

De festa nas margens! – Mas, cheio de mágoa,

                                                        (dormes…

Chovem prantos nas trevas iluminadas.

 

Sonha onde a morte vive, onde a ingrata possui tua fé,

Tuas esperanças florescem, o crime dela é pó…

Depois o clarão pungente do acordar, onde o raio

Te fere de novo pela primeira vez.

Corre, perfuma, desfila com tambores ou bela

Sejas! Schumann, ó confidente de almas e flores,

Rio santo de dores invade o teu cais alegre,

Pensativo jardim amigo, viçoso e fiel

Onde se beijam lírios, lua e andorinha,

Exército em marcha, criança que sonha, mulher em

                                                                      (pranto!

Esses três poeminhas foram extraídos da obra de Marcel Proust Os Prazeres e os Dias, publicada com a novela inédita, O Indiferente, em 1983, pela Editora Nova Fronteira.

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